sexta-feira, 31 de julho de 2015

MAURO SANTAYANA: GOOGLE RENEGA COMPROMISSOS DE NEUTRALIDADE E INTOXICA LEITORES COM "SUGESTÕES DE EDITORES"

(Ilustração: Viomundo)

O GOOGLE E A MANIPULAÇÃO MIDIÁTICA

Na maioria das vezes, o leitor terá chance de encontrar, “casualmente”, uma seção denominada de “Sugestões dos Editores”, que se pode ver no alto da tela, na coluna da direita, da página inicial do Google Notícias, no Brasil, por exemplo – mas não apenas em nosso país –, o mesmo tipo de conteúdo reacionário, anacrônico e fascista, que intoxica maciçamente a internet brasileira.
Por Mauro Santayana, em seu blog - reproduzido do blog Viomundo - o que você não vê na mídia, de 28/07/2015
(Jornal do Brasil) – Quando as grandes empresas de internet surgiram, nascidas nas universidades, e não nos grandes grupos de comunicação que já existiam, houve esperança de que elas viessem a contribuir para a consolidação de um ambiente de produção, publicação e troca de informações realmente livre.
Um novo espaço que privilegiasse o indivíduo no lugar do Sistema, ajudando-o a libertar-se do deletério domínio da mídia tradicional, umbilicalmente ligada, de parte a parte, por milhares de tentáculos, aos maiores grupos empresariais privados, que, no mundo inteiro, e em cada país, trabalham para manter o status quo e defender seus interesses, entre eles o de continuar – mesmo depois do surgimento da Rede Mundial de Computadores – a manipular e a explorar, do nascimento à morte, o homem comum.
Website mais visitado do mundo, e a marca mais valiosa do planeta, com aproximadamente 25.000 funcionários, um enorme faturamento e bilhões de usuários, o Google parecia ser uma dessas empresas, voltada, como rezava a missão inicial do “navegador” criado por Larry Page e Serguey Bryn, para “tornar a informação mundial universalmente útil e acessível.”
A primeira impressão, era a de que o Google buscava, ao menos aparentemente, uma aura de identificação e comprometimento com os “melhores” valores, que se refletia no lema “dont be evil” – “não seja mau”, e outros slogans relacionados de sua “filosofia corporativa”, como “você pode ganhar dinheiro sem fazer o mal”, ou “você pode ser sério sem um terno”.
Uma impressão reforçada – teoricamente – pelo fato do Google não perder uma oportunidade de declarar seu “marcante” comprometimento com a neutralidade da internet, como diz, quase sempre, seu vice-presidente e “Chief Internet Evangelist”, Vint Cerf, quando afirma que “não se pode permitir que os provedores de acesso controlem o que as pessoas vêem e fazem online.”
No entanto, o Google, além de ter tido problemas em vários países do mundo no quesito privacidade, sempre esteve estreitamente ligado à comunidade de informações norte-americana, como revelaram jornais como o The Huffington Post , no ano passado, reproduzindo e-mails divulgados pela Al Jazeera America, trocados entre o Presidente da NSA (Agência Nacional de Segurança) dos EUA, o general Keith Alexander, o Presidente do Google, Erick Schmidt, e um dos seus fundadores, Serguey Bryn, nos anos de 2011 e 2012.
Afinal, porque o Google – em uma excelente jogada de relações públicas – por meio do seu presidente Erick Schmidt – fez questão de receber na sede da empresa a Presidente brasileira Dilma Rousseff em sua recente visita aos Estados Unidos ?
Não apenas porque o Brasil é o quinto país do mundo em usuários de internet ou abriga o único Centro de Desenvolvimento Tecnológico do Google na América Latina.
Mas também, e principalmente, porque no auge do escândalo de vigilância global da NSA, e dos Five Eyes – a aliança de espionagem anglosaxônica que reúne os EUA, a Austrália, o Canadá, a Nova Zelândia e o Reino Unido e “parceiros privados” – em que Edward Snowden desnudou ao mundo o gigantesco sistema de monitoramento em massa e a íntima correlação entre agências de informação dos EUA e grandes empresas norte-americanas que dominam o negócio da internet – incluindo, como vimos, o Google – foi Dilma Roussef que liderou a reação mundial aos EUA, suspendendo sua visita de Estado aos Estados Unidos, e aliando-se à Chanceler alemã Angela Merkel, na apresentação e aprovação, na ONU, por 193 países – contra a vontade de Washington – das diretrizes de uma “lei de internet mundial” a resolução sobre “O Direito à Privacidade na Era Digital”.
Diante do gigantismo do Google e do dinheiro que aplica em marketing – incluindo um bilhão de dólares para um fundo de filantropia – é preciso prestar a atenção em detalhes para encontrar provas de seu claro comprometimento com o status quo e as forças mais conservadoras em cada país em que atua.
Talvez a mais evidente delas, que pode passar – e essa é a sua função – desapercebida pela maioria dos leitores, é a presença de uma seção denominada de “Sugestões dos Editores”, que se pode ver no alto da tela, na coluna da direita, da página inicial do Google Notícias.
Dependendo do momento em que estiver olhando, o leitor pode se deparar com chamadas para matérias prosaicas, como dicas de beleza, dietas, etc.
Mas, na maioria das vezes, ele terá chance de encontrar, “casualmente”, no mesmo espaço, no Brasil, por exemplo – mas não apenas em nosso país – o mesmo tipo de conteúdo reacionário, anacrônico e fascista, que intoxica maciçamente a internet brasileira, hoje, o que leva, naturalmente, qualquer leitor mais atento a se perguntar : que raios de “editores” são esses?
Seriam “editores” do Google? Ou “editores” voluntários, organizados em grupos de leitores?
Não. Trata-se de “editores” de veículos de informação “tradicionais”, que enviam suas “sugestões”, principalmente de artigos de opinião, ao Google, por meio de feeds.
Em suas informações sobre a seção, o Google explica que qualquer veículo pode enviar uma sugestão.
Mas quem escolhe quais e em que ordem essas sugestões irão ser publicadas na primeira página do Google News?

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