segunda-feira, 6 de julho de 2015

ALFREDO SERRANO MANCILLA: A GRÉCIA E A MUDANÇA DE ÉPOCA

Milhares de simpatizantes do Syriza comemoraram o triunfo do Não na praça Syntagma, em frente ao Parlamento grego (Foto: Página/12)
Esta mudança de época iniciada na Europa, pela mão da Grécia, abre uma oportunidade histórica para que o Sul deixe seu papel periférico.
Essa espécie de grande periferia forma na atualidade novos polos constituintes de outros pivôs geopolíticos não tradicionais. Os Brics são o melhor exemplo, mas também o é a Unasul ou a Celac na América Latina;

Por Alfredo Serrano Mancilla (*) – no jornal argentino Página/12, edição impressa de hoje, dia 6

Os “especialistas” não contemplaram a variável “povo” em seus modelos econométricos. Tudo estava sob controle até que a maioria cidadã grega respaldou uma proposta política diferente à da troika. A democracia tem este tipo de caprichos: depende da vontade de seu povo. A economia sem política corre sempre o risco de descuidar esta particularidade acreditando que tudo gira em torno de dogmas inquestionáveis, sem lugar para o referendo. E resulta que não. Resulta que a um país da periferia europeia, a Grécia, se lhe ocorreu a louca ideia de consultar sua cidadania por qual caminho seguir: 1) continuar com o realizado por parte dos governos anteriores ou 2) tentar outra forma de fazer as coisas, ainda que estas não sejam nem muito menos fáceis dado que se arrasta uma dívida elevadíssima (social e financeira) e com múltiplas ataduras no seio da própria União Europeia (UE).
Contado assim, parece natural que os gregos tenham decidido assumir a opção “mais vale o desconhecido do que o mal conhecido”. Nem os meios de comunicação hegemônicos nem as pesquisas conseguiram convencer a maioria. O Não venceu o Sim por mais de 20 pontos. Este fato surpreende os próprios e os estranhos porque em quase 70 anos de história oficial do FMI, nenhum país do Primeiro Mundo havia chegado a este cenário. É a primeira vez que um país satélite na zona central decide desacatar uma ordem dada. A periferia europeia se revela assim contra seu centro de gravidade na mesma linha do que veio acontecendo desde há uns anos em muitos outros países da chamada periferia mundial. A diferença desta vez é que quem desobedece está inserido num dos epicentros mundiais, isto é, na Zona Euro. À periferia-absoluta (fora dos países centrais) se soma a periferia-relativa (dentro) neste intento de emancipar-se. A rebelião das periferias caracteriza inegavelmente esta mudança de época do século 21. O que Marx chamava o velho topo está emergindo crescentemente nestes anos em que o capitalismo mundial deixa demasiadas feridas sem suturar. Esse topo, hoje chamado Grécia, irrompe das resistências subterrâneas negando-se a seguir sob o mandato do que determina a Alemanha. O que ontem era de sentido comum, agora deixou de sê-lo.
O excepcional deste caso é que a Grécia o faz a partir das próprias entranhas da União Europeia e não por fora. Mas são muitos os países que neste século se uniram sucessivamente a esse outro espaço econômico-político não controlado a partir do norte. Essa nova zona geoeconômica continua somando sócios que progressivamente vão tecendo novas alianças por fora do “hegemón” (centro hegemônico) e de seus anéis centrípetos. Essa espécie de grande periferia forma na atualidade novos polos constituintes de outros pivôs geopolíticos não tradicionais. Os Brics são o melhor exemplo, mas também o é a Unasul ou a Celac na América Latina; o G-77 mais China, as novas alianças na África. Seguramente a Europa mediterrânea não ficará atrás. A Grécia  abriu as portas, não para sair da Europa mas para que a Europa seja realmente a Europa e não um eufemismo que sirva como disfarce para que o grande capital transeuropéu se esconda detrás dele. Esta mudança de época iniciada na Europa, pela mão da Grécia, abre uma oportunidade histórica para que o Sul deixe seu papel periférico.
O verdadeiramente substantivo é saber se a UE tem ainda capacidade para reviver seu modelo falido e o FMI pode sair ileso desta mancha em seu currículo ou se, pelo contrário, ambos sairão baleados irreversivelmente deste embate, perdendo legitimidade no tabuleiro mundial. A Grécia começa a escrever sua própria História, reinserindo-se soberanamente no mundo, sendo parte dum novo Sul não periférico. A vitória do Não na Grécia é realmente o mais próximo ao Sim que se pode.
* Doutor em Economia, diretor do Celag (Centro Estratégico Latino-americano de Geopolítica)

Tradução: Jadson Oliveira

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