terça-feira, 23 de junho de 2015

QUEM CONSTRUIU UMA MÍDIA CONTRA-HEGEMÔNICA RESISTE MELHOR À “RESTAURAÇÃO CONSERVADORA”

Kirchner, Lula e Chávez sepultaram o sonho imperial da ALCA em 2005: precisamos agora dum trio deste para enfrentar os avanços da direita (Foto: Internet)
Ignacio Ramonet: no Brasil, as forças ligadas ao PT, Lula e Dilma “não deram a importância necessária à criação dum sistema público de comunicação e informação”.
Por Jadson Oliveira (repórter/blogueiro) – editor do blog Evidentemente – publicado em 23/06/2015
Finalmente, alguém ajeita a mira e atira no alvo certo: “Tenha coragem presidenta e acelere o ocaso da mídia criando uma grande empresa pública de comunicação. Atropele sem piedade os inimigos do Brasil e do povo brasileiro...” Li num artigo assinado por Fábio de Oliveira Ribeiro no Jornal GGN/Luis Nassif Online, intitulado ‘Dilma e o PROER da mídia muito desejado pelos arquitetos do impeachment’.
Os governos na América Latina que enxergaram a comunicação como um ponto estratégico e souberam construir, assim ou assado, uma mídia contra-hegemônica – são os casos da Argentina, Venezuela, Equador e Bolívia – estão agora em condições melhores para resistir nesta dura fase da “restauração conservadora”, expressão muito usada pelo presidente equatoriano Rafael Correa (fase em que a direita latino-americana acordou, ainda meio aturdida, no meio dos destroços do neoliberalismo e partiu para o contra-ataque).
Mesmo num país como a Venezuela, alvo preferencial do império e seus mil e um tentáculos – os mais visíveis são os monopólios da mídia hegemônica -, o governo e as forças democráticas, populares e de esquerda resistem ao tremendo assédio. E não só resistem. Resistem e buscam avançar rumo à construção do poder popular e do socialismo.
Será por que conseguem resistir diante da enfurecida campanha midiática, lá dentro do país e fora? Com todos os problemas internos, que todos temos, mas que lá são magnificados pelo cerco da mídia globalizada? Penso no povo chavista mobilizado, penso na aliança com os militares bolivarianos, dois dados fundamentais da realidade venezuelana.
E há um terceiro dado, na minha opinião também fundamental: o forte arsenal montado por Hugo Chávez e pelo movimento popular para travar a verdadeira batalha da comunicação: emissoras de TV, de rádio, jornais diários, plataformas digitais, agência de notícias e – deixei para o fim não pela pouca importância, mas para enfatizar mais – as rádios e TVs comunitárias. Só esses três dados explicam como a Revolução Bolivariana se mantém vigente, apesar dos ataques enfurecidos da mídia hegemônica nacional e internacional, que prepara o clima para outras arremetidas.
Não há batalha de comunicação no Brasil, há um massacre diário
Contrastando com isso, há no caso do Brasil um governo e um movimento popular desarmados no que toca à mencionada batalha da comunicação, à verdadeira e não aquela de mentirinha referida por nossa presidenta Dilma (porque, TAMBÉM, não se avançou na democratização das concessões de rádio e TV).
A verdade nua e crua, para nosso profundo pesar – estamos pagando muito caro por esta falha -, é que não cuidamos deste aspecto, particularmente estratégico. O reconhecido estudioso do tema Ignacio Ramonet, jornalista e professor, diretor da edição em espanhol do Le Monde Diplomatique, já o notou. Eu o convoco para robustecer minha opinião, que, por si só, reconheço, vale pouco.
Em recente entrevista em Quito ao jornal equatoriano El Telégrafo, ele disse: “Os amigos do Partido dos Trabalhadores (PT), governante, Lula (Da Silva) ou Dilma (Rousseff) não deram a importância necessária à criação dum sistema público de comunicação e informação. Primeiro, porque nunca tiveram maiorias claras, governaram com os parlamentos que negociavam, não tiveram as mãos livres, e os empresários, que no Brasil dispõem de grupos importantes, como o Grupo Globo, não lhes permitiram. De fato, não creio que tiveram a vontade, e mesmo se a tivessem, não creio que lhes tivessem deixado desenvolver um grupo público de meios de comunicação como se fez em outros países, como o Equador, Venezuela e Argentina”.

E não cuidamos não porque faltasse coragem à nossa presidenta, como sugere a recomendação do nosso articulista na abertura deste arrazoado. Ao contrário, coragem é o que parece nunca ter faltado a Dilma. Mas se trata de fenômeno histórico com outro nome e sobrenome: a conciliação, uma marca perene da história política brasileira à qual o nosso maior líder popular, nosso Lula, parece se ajustar muito bem (penso que talvez daí decorra seu êxito, para nossa ventura e também desventura).

Tenho escrito alguns artigos bradando pela construção duma mídia contra-hegemônica, séria, honesta, jornalística, comprometida com os interesses nacionais e populares e com os valores humanitários. Infelizmente, com nenhuma repercussão, dada a pouca relevância deste meu blog. Confesso que ando meio desanimado diante do avanço da intolerância e do ódio entre os brasileiros (“valores” - ou desvalores – próprios da direita, do fascismo), desânimo que ataca principalmente as pessoas que vivem ligadas nos noticiários e demais programas dos monopólios da informação.

Mas a sugestão do Fábio de Oliveira Ribeiro para que Dilma crie “uma grande empresa pública de comunicação” até que me animou. Outro dado alvissareiro entre os blogueiros progressistas foi a visita do companheiro Miguel do Rosário, de O Cafezinho, à Venezuela (antes da viagem, ele já havia criado um Projeto Bolívar, o que é um ótimo sinal).

Espero que Miguel do Rosário, como um blogueiro combativo e influente que é, se alinhe entre os defensores da construção no Brasil duma mídia contra-hegemônica, um tema raramente mencionado entre nós. 

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