quarta-feira, 24 de junho de 2015

GUILHERME BOULOS: QUE FRENTE QUEREMOS?

(Foto: Internet)

Frente para defender o governo, em nome da ofensiva da direita, ou para começar a articular um projeto eleitoral para 2018 não é o que a esquerda precisa.

Por Guilherme Boulos, para o Brasilem5.org - reproduzido do portal Carta Maior, de 23/06/2015
Uma frente de esquerda composta por movimentos sociais, entidades estudantis, centrais sindicais e partidos promete, para esta quinta-feira (25), um ato de dezenas de milhares contra a retirada de direitos por parte dos governos e do Congresso Nacional. 

A manifestação acontecerá no Masp, em São Paulo, a partir das 17h. Contará com militantes do MTST, do Psol, da Cut. Guilherme Boulos, coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto, assina o texto a seguir defendendo uma frente que ultrapasse disputas eleitorais ou declarações de intenção.
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A ofensiva conservadora, a crise do governo petista com seu ajuste fiscal e a desarticulação da esquerda brasileira têm colocado em vários espaços o debate da construção de uma frente. Que é fundamental unificar a esquerda e retomar a mobilização popular ninguém duvida. Agora qual frente queremos?

Recentemente, o ex-presidente do PSB Roberto Amaral defendeu em artigo a criação de uma frente política e social para defender um programa democrático, de desenvolvimento econômico e soberania nacional.

Seu artigo não menciona o ajuste fiscal antipopular levado a cabo pelo governo Dilma, nem tece qualquer crítica aos governos petistas nos últimos 12 anos. Se queremos uma frente para unificar a esquerda, esses pontos não podem ser omitidos.

Frente para defender o governo, em nome da ofensiva da direita, ou para começar a articular um projeto eleitoral para 2018 não é o que a esquerda brasileira precisa. Uma frente como essa não teria nenhuma capacidade de dialogar com a insatisfação social nem oferecer saídas à esquerda para a crise atual.

Precisamos sim de uma frente que unifique o campo de esquerda no Brasil. Mas de uma frente focada nos movimentos sociais, não em manifestos e declarações de intenção, sem capacidade de mobilização popular. Nosso principal desafio hoje é reconstruir um ciclo de ascenso de luta de massas no país, capaz de alterar a relação de forças.

Alternativas políticas não se constroem “a frio”, apenas porque a conjuntura necessita delas. Se constroem no calor de mobilizações amplas. Assim foi o Podemos na Espanha, que partiu da mobilização de centenas de milhares nas ruas, os “indignados”. Assim, em outras circunstâncias, foi o MAS na Bolívia, alternativa política que nasce das heróicas mobilizações dos mineiros, dos cocaleiros e das mobilizações territoriais como a guerra do gás.

Assim, aliás, foi o Partido dos Trabalhadores no Brasil, na década de 1980. Seu impulso foram as grandes greves e o fortalecimento da luta popular naquele período, que produziu importantes instrumentos de luta dos trabalhadores.

A frente que precisamos hoje é social. Evidentemente deve construir um campo político, com intelectuais e partidos de esquerda. Mas seu foco deve ser a construção de amplas mobilizações populares.

Além disso, essa frente não pode estar atrelada ao governo. Ao contrário, deve buscar construir saídas pela esquerda à crise do governo petista, sem temer criticá-lo em seus rumos. Criticá-lo pela retomada de uma política econômica neoliberal e pela falta de disposição política em enfrentar as reformas populares tão necessárias ao Brasil. Com a mesma decisão com que deve enfrentar o avanço das pautas conservadoras no Congresso e na sociedade.

Na construção de uma frente, os movimentos sociais brasileiros devem se precaver de dois erros. O primeiro é, em nome da ofensiva da direita, abster-se de enfrentar as políticas deste governo. O outro é, em nome do enfrentamento ao governo, subestimar a ofensiva da direita.

Uma frente ampla e unitária da esquerda deve ter a capacidade de responder a estes dois grandes desafios, focando na retomada da mobilização social.

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