segunda-feira, 22 de junho de 2015

ERIC NEPOMUCENO: NA ARGENTINA, ESTÁ COMEÇANDO A CHEGAR A HORA...

(Foto: Augusto Starita/Ministério da Cultura da Argentina)

O que está em jogo não é apenas uma sucessão presidencial, mas a manutenção de um determinado projeto político para o país.

Por Eric Nepomuceno, no portal Carta Maior, de 19/06/2015

Falta ainda um tempinho – quatro meses – para que os argentinos escolham, nas urnas, quem será o sucessor de Cristina Fernández de Kirchner. Até lá, haverá uma etapa decisiva, agora em agosto, quando todos os eleitores deverão confirmar os nomes dos candidatos de cada partido, bloco ou agrupação. Formalmente, por enquanto o que existem são pré-candidatos. As urnas de agosto decidirão. 
 
Essa escolha inicial costuma resultar, de fato, na melhor pesquisa de opinião possível, na prévia mais confiável. São como eleições primárias, obrigatórias, votam todos, indicando o nome de sua preferência para ser o candidato de determinada chapa. Quem obtiver mais votos nessas prévias de 9 de agosto surge, naturalmente, como o grande favorito para o 25 de outubro. Ao definir que o candidato de determinada chapa será fulano, que obteve 23% dos votos, e que o candidato de outra chapa será beltrano, escolhido por 38% do eleitorado, fica evidente que beltrano surge com um favoritismo difícil de ser revertido entre agosto e outubro.
 
Agora chegou a hora de cada agrupação oferecer o nome – ou os nomes – que disputarão, nas primárias de agosto, o direito de disputar as presidenciais de outubro. Acontece que os nomes efetivamente viáveis, ou seja, com reais possibilidades de disputar a sucessão de Cristina Kirchner, já estão colocados: são eles o atual governador da província de Buenos Aires, que abriga quase 40% do eleitorado do país, Daniel Scioli, e o prefeito da capital federal, a cidade de Buenos Aires, Mauricio Macri. O primeiro conta com o apoio do kirchnerismo. O segundo, com o da direita mais furibunda.
 
Continua na pista um terceiro nome, o de Sergio Massa, um candidato secundário, sem outra chance que a de embaralhar o jogo e, de certa forma, prejudicar Macri. Todos os outros parecem meros figurantes inexpressivos. 
 
Tão intransigente é Macri em sua posição anti-peronista e, muito especialmente, anti qualquer coisa que tenha a mais leve proximidade com o kirchnerismo, que ele recusou sequer discutir uma eventual aliança com Sergio Massa, que se apresentará como candidato do peronismo dissidente. 

Ex-prefeito do município de Tigre, um balneário fluvial turístico vizinho a Buenos Aires, Massa tem um passado que o condena: foi mais ou menos próximo de Nestor Kirchner, e por um par de meses ocupou o cargo de Chefe de Gabinete de Cristina Kirchner, que corresponde ao nosso posto de ministro-chefe da Casa Civil. O fato de ter se afastado pisando forte e passar a criticar com veemência o grupo sob cuja sombra cresceu não o eximiu do veredito final de Macri: se é para propor algo novo, disse ele, não queremos nem podemos ter qualquer vínculo com quem tem um passado de alianças reprováveis. 
 
A Argentina terá, então, duas propostas nítidas e radicalmente divergentes, a do direitista Mauricio Macri e a de Daniel Scioli, o candidato que até agora representava uma vertente um tanto desidratada do kirchnerismo (e por isso mesmo suscitou controvérsias e desconfianças em suas fileiras). Pois para evitar qualquer tropeço mais sério daqui a outubro, e principalmente para blindar seu projeto de qualquer tentação de desvio caso Scioli seja o vencedor, Cristina Kirchner e seus estrategistas optaram por uma jogada contundente e ousada: o escolhido para ser seu companheiro de chapa, surpreendendo inclusive alguns dos integrantes do círculo mais chegado à presidenta, foi Carlos Zanini, que ocupa o nebuloso (e poderosíssimo) cargo de secretário Legal e Técnico da Presidência.
 
Não foi certamente pelo cargo que Cristina Kirchner determinou que Zanini seja o candidato a vice: a escolha da presidenta foi para deixar claro a Scioli que ele terá em seus calcanhares um homem de fidelidade absoluta não apenas a ela, mas ao kirchnerismo e a tudo que esse processo político iniciado em 2003 significa.
 
Se, pelo seu lado, Scioli acrescenta à sua campanha o grosso do eleitorado da província de Buenos Aires, que ele governa com altos índices de aprovação, Zanini acrescenta o reforço dos kirchneristas que, com razão, desconfiavam da lealdade do candidato e, além disso, o engajamento rigoroso de Cristina e dos setores mais incondicionais de seus seguidores.
 
A aposta do kirchnerismo dobrou. É como se Cristina, ao designar Carlos Zanini, dissesse: ‘Estamos indo para o tudo ou nada’. Movimento, aliás, bem característico de sua personalidade e de sua maneira de atuar.
 
A partir de agora, as cartas estão postas e a mesa começa a receber apostas. O que está em jogo não é apenas uma sucessão presidencial, mas a manutenção – com as adaptações que se façam necessárias, desde que pertinentes à sua essência – de um determinado projeto político para o país. 
 
Daqui até o domingo, 9 de agosto, dia das prévias, muita água correrá por debaixo de muitas pontes. E depois, até outro domingo – o 25 de outubro – essas águas correrão com velocidade cada vez mais vertiginosa. Nelas estará o futuro imediato do país. 

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