segunda-feira, 29 de junho de 2015

ARGENTINA: UM MANUAL PARA O DISCURSO ELEITORAL “APOLÍTICO” DA DIREITA LATINO-AMERICANA

O equatoriano Jaime Duran Barba é tido como o autor do texto de 67 páginas (Foto: Bernardino Ávila/Página/12)
Vazou um roteiro destinado aos candidatos da UCR e do PRO (partidos argentinos): o documento que foi conhecido em Córdoba propõe aos candidatos que “não importa falar de propostas”, mas sim “emocionar as pessoas”, sugere não se mostrar como parte da política e até dá exemplos de supostos casos concretos.
Matéria do jornal argentino Página/12, edição impressa de 21/05/2015, intitulada ‘O pequeno macrista ilustrado’ (o título acima é deste blog)
“Não importa falar de propostas, importa emocionar as pessoas que estão ouvindo”. “Não importa a pergunta do entrevistador, pensar no ouvinte e repetir a mensagem que queremos que as pessoas ouçam.” Essas são algumas frases dum documento de 67 páginas que vazou em Córdoba e que está destinado aos candidatos da frente integrada pelos partidos (argentinos) UCR (União Cívica Radical), o PRO (Proposta Republicana, partido de Mauricio Macri, prefeito de Buenos Aires e principal candidato presidencial da direita) e o “juecismo”. Seu suposto autor é o consultor (marqueteiro) do chefe de governo portenho (prefeito), Mauricio Macri: o equatoriano Jaime Duran Barba.
O texto se intitula “Considerações iniciais e eixos discursivos de Juntos por Córdoba” (coligação eleitoral).
“Tom conciliador, chega de brigas, falar às pessoas”, recomenda o texto uma e outra vez. Condizente com os livros de Duran Barba, o escrito recomenda “não se mostrar como parte da política tradicional”. “Apenas a 23% da população interessa muito ou alguma coisa da política”, indica. “Mesmo que os jornalistas sempre tentarão nos levar para os problemas conjunturais da política, candidaturas, aliança, temos que ter clareza qual é nossa mensagem”.
O documento propõe utilizar frases como “esse é um tema dos políticos, o importante é...”, para se esquivar das perguntas complicadas. Assinala que são “ferramentas discursivas para sair de problemas complicados”.
Também aconselha contar histórias concretas, como costuma fazer Mauricio Macri, que citou em diversas campanhas, em anos diferentes, a mesma história sobre Cacho e María, dois moradores preocupados com a insegurança. “Contar histórias, com nome e sobrenome, de pessoas que tenham conhecido na campanha”, insiste o documento. Neste caso, o “manual” destaca em maiúsculas “falar dando exemplos concretos, com nomes de moradores, da vizinhança” e propõe um exemplo: “Ontem estive com Juan, do bairro Altamira, que me contou que sair a passeio não é a mesma coisa de antes, porque tem problemas de segurança. Não pode deixar aberta a porta de sua casa. Seu povoado já não é o que era antes, está para se aposentar e seus filhos não conseguem trabalho. Os políticos estão mais preocupados em ocupar cargos, do que em ajudar Juan e sua família”.
Também propõe exemplos positivos, como o de “Juana, que leva vizinhos em sua moto quando não há transporte coletivo; Pedro, que ajuda seu vizinho que está em cadeira de rodas a fazer as compras”. Fica claro que Juan, Juana e Pedro, assim como outros exemplos que costumam usar os candidatos do PRO, são personagens de ficção e não histórias que surjam de seu conhecimento dos bairros.
Por último, como parte da campanha nacional do PRO, o documento recomenda se associar à imagem do prefeito portenho, Mauricio Macri, “porque é o dirigente que tem melhor imagem. Tem o estereótipo de gestão e de mudança que funciona e dá soluções”.

Tradução: Jadson Oliveira

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