terça-feira, 16 de junho de 2015

ARAM AHARONIAN: ONDE ESTÁ A ESQUERDA?

(Foto: Internet)
O discurso da esquerda tradicional ficou congelado na etapa da resistência, por não entender que se transita uma nova etapa de construção.

Por Aram Aharonian (jornalista uruguaio, vivendo na Venezuela) – reproduzido do portal Carta Maior, postagem de 15/06/2015


Durante décadas, a chamada esquerda latino-americana baseava suas ações em termos de conspiração revolucionária, resistência e luta armada. Poucas vezes em termos de economia, comércio, defesa, que são os desafios que deve enfrentar hoje, sobretudo nos países onde exerce o poder ou onde espera alcançá-lo, e onde a resistência deveria se transformar em construção.

E quando falamos de esquerda, não nos referimos a partidos marxistas, leninistas ou trotskistas, senão a todos os movimentos que impulsavam desde sindicatos, partidos, organizações sociais, estudantis, camponesas, indígenas, as transformações estruturais que desembocaram em sociedades inclusivas, equitativas, justas.

Durante as últimas décadas, o maior desafio é superar e substituir o neoliberalismo em todas as suas dimensões. Por um lado, o fracasso da proposta econômica neoliberal abriu a oportunidade para que essa esquerda surgisse como alternativa de governo, mas, por outro, estava o dever de enfrentar a recessão, a fragilização do Estado, a desindustrialização, a exclusão e a fragmentação social deixada como legado pelos antecessores.

Mais do que isso, deveria enfrentar a força ideológica do neoliberalismo, não só a nível nacional, mas também regional e global. A potência do estilo de vida estadunidense, com seu paradigma de que todo é bem de consumo – tudo se vende, tudo se compra, como nos shopping centers –, a utopia neoliberal aplicada através da publicidade, das marcas, da televisão que mostra sempre a mesma mensagem e imagem, como recorda Emir Sader.

A missão de reimaginar a esquerda não pode se desenvolver nos esquemas tradicionais (sejam ou não governistas). Há tempos que a esquerda tradicional está cansada, sem capacidade de abandonar seus velhos nichos e de pensar numa alternativa para ampliar seu público – incluir aquele que não se define de esquerda – e passar a disputar as consciências com uma direita que, apesar de sua crise, continua avançando na reconquista de diversos cenários sociais e na restauração conservadora.

A verdade é que a esquerda ainda não ofereceu, principalmente aos menos favorecidos, formas de sociabilidade ou alternativas ao mundo de valores neoliberais, centrado no consumismo, no individualismo e na falta de solidariedade. A pergunta que fica é se é possível incorporar propostas anticonsumistas – mais que meras consignas – nas sociedades onde o acesso ao consumo é uma grande (e recente) conquista para as grandes maiorias.

Não há dúvidas: é preciso reconstruir o pensamento de esquerda. E nessa reconstrução, fazem falta os acadêmicos, os intelectuais, para somar capacidades de reflexão e formulação de propostas alternativas ao pensamento hegemônico. Durante mais de três décadas, a ideia era criticar o modelo neoliberal, e enquanto isso não se avançou na elaboração de uma proposta alternativa.

O discurso da esquerda tradicional ficou congelado na etapa da resistência, por incapacidade própria, por não entender que se transita uma nova etapa de construção, sobretudo destas propostas e teorias alternativas ao liberalismo, vinculadas aos desafios do Século XXI.

A intelectualidade progressista, que se esqueceu ou ignorou o pensamento crítico latino-americano, não participa ativamente dos novos processos políticos, muitas vezes por ser refém do “marxicismo” (narcisismo marxista), da denunciologia permanente (e sua paralela choradeira) ou da repetição de consignas e abaixo-assinados (que engrossam as listas dos organismos de segurança), o que alguns confundem com militância.

Marx (sempre vale a pena recordá-lo, mas contextualizando-o) sabia usar o conceito das ondas. Estamos apenas no refluxo da primeira e na espera de uma nova onda, que permita que as ideias e a prática se expandam a outros territórios e possibilitem o aprofundamento e a consolidação das mudanças estruturais, conquistas parcialmente em muitos casos, como diria o vice-presidente boliviano Álvaro García Linera.

Seriam necessárias novas teorias para frear esse processo de esvaziamento democrático que caracterizou, por décadas, os governos neoliberais, ditatoriais ou não. Hoje, estamos transitando uma onda de recuperação da memória, reconstituição e ampliação dos direitos da sociedade, obtenção do controle sobre o excedente econômico e expansão da geração de riqueza e sua posterior distribuição (defesa dos recursos naturais e manejo soberano dos mesmos), esperando que essa última tarefa possa ser completada numa terceira onda.

Uma distribuição não sustentável pode gerar frustrações terríveis, cuja recuperação poderia tardar três ou quatro décadas.

As estruturas produtivas da região ainda respondem à realidade do capitalismo dependente, periférico e subdesenvolvido. O neoliberalismo vendeu, com bastante sucesso, a ideia de que era rentável substituir a noção de pátria e de nação pela de mercados. O livre comércio está demostrando que tem uma capacidade letal para desmontar os aparatos produtivos e transformar os estados em alvo da delinquência organizada e do capital financeiro. E para isso tampouco houve respostas ou contrapropostas. Apenas denúncias.

É necessário que, nas agendas de nossos movimentos, de nossos governos progressistas, as ideias que nasceram nesta época se reposicionem, ideias como a criação de instrumentos de financiamento do desenvolvimento – o Banco do Sul, por exemplo –, a utilização de moedas nacionais no comércio regional, o fortalecimento dos mecanismos de pagamento através da cooperação, a redução da fuga de excedentes através do fortalecimento dos mecanismos de controle de capitais.

Outro enfrentamento é o que se dá contra a arremetida que ataca a unidade latino-americana, especialmente contra os avanços e conquistas geradas pelos governos e pelos povos nessa integração. Aqueles que defendem que nossas sociedades e nossas economias devem se manter subordinadas se reorganizaram, e vestiram suas propostas de livre comércio com outra roupa. Talvez nos tenha pego desprevenidos, está surgindo uma contrarrevolução conservadora contra as conquistas alcançadas no sul do continente: se reativam propostas de desenvolvimento favoráveis ao livre comércio, enquanto os setores mais reacionários se disfarçam de paladinos da defesa dos direitos humanos e da democracia.

Esse processo de produção de amnésia coletiva conta com o imenso poder que os grandes meios de comunicação corporativos têm para produzir mentiras e meias verdades – formando um cartel internacional para difundi-las –, confundir e manipular, privatizando a opinião pública. A estrutura da desigualdade não é mantida somente pelo capital financeiro, as instituições financeiras internacionais e o complexo industrial-militar, mas também, e talvez como ponto fundamental, pelos grandes conglomerados privados de comunicação, que se atribuem a eles mesmos o poder de determinar qual governo é bom e qual é ruim, de acordo com os interesses que eles defendem.

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