quinta-feira, 7 de maio de 2015

OSVALDO BAYER: DOIS PASSOS POSITIVOS (GENOCÍDIO ARMÊNIO É RECONHECIDO E LUTA PELO BUEN VIVIR)


Cenas do genocídio armênio (Foto: Página/12)
Escondido sob uma muralha de silêncio, o mundo finalmente reconhece, um século depois, o genocídio do povo armênio; e na Argentina, as mulheres dos povos indígenas marcham pela criação do Movimento do Buen Vivir.
Por Osvaldo Bayer, no jornal argentino Página/12, edição impressa de 25/04/2015
Acabam de ocorrer dois fatos positivos dentro do triste desenrolar de nossa chamada civilização.
A lembrança, em primeiro lugar, do genocídio armênio cometido pelo governo e povo turcos contra as minorias armênias e, em nosso país (Argentina), a marcha das mulheres dos povos originários para criar o Movimento do Buen Vivir (Bom Viver ou Bem Viver).
Já com o reconhecimento de grande parte dos países do mundo, ocorrido há um século, foi lembrado e estampado na primeira página dos jornais o que começou na Turquia faz justamente 100 anos: a destruição da vida e da sociedade armênia. No que pese a posição absurda do governo atual da Turquia que com toda falta de coragem cívica continua sem reconhecer os fatos apesar das milhares de provas apresentadas. Este procedimento é uma mesquinharia nunca vista na história do mundo. É que não reconhece o crime porque tem medo de que logo depois venha o pagamento de reparações. Assim pequeno e egoísta é o comportamento turco.
São imensas as provas. Ultimamente acaba de aparecer um filme alemão que é indiscutível. Traz o testemunho de dezenas de cartas-documento de diplomatas, militares e funcionários alemães que viviam na Turquia em 1915 e testemunharam por escrito e com fotografias os horrores da morte armênia. A essas declarações lidas por atores e atrizes, se somam também os documentos apresentados pelo então embaixador norte-americano e professores universitários europeus que se encontravam nessa época na Turquia.
Os cadáveres dos homens pendurados em forcas nas ruas ou mortos a pauladas, as mulheres e as crianças mortas de fome e sede pelas estradas por onde eram obrigadas a uma marcha sem fim. Uma das piores circunstâncias da crueldade humana.
No último dia 28, em Buenos Aires, a comunidade armênia fez uma manifestação para lembrar os 100 anos do genocídio sofrido por seu povo: cerca de 10 mil pessoas marcharam em protesto até a Embaixada da Turquia (Foto: Página/12)
O Papa acaba de reconhecer o genocídio armênio provocando uma agressiva reação do primeiro-ministro turco Erdogan. A comunidade armênia na Argentina agradeceu ao Papa seu gesto e Eduardo Kozanlian, do Conselho Nacional Armênio da América do Sul, expressou que “as corajosas declarações do papa Francisco reconhecendo oficialmente o ainda impune genocídio turco contra o povo armênio rompe a muralha de silêncio que o Estado turco constrói com bases falsas há um século”.
Os turcos não encontraram outro argumento do que dizer que o Papa é argentino e a Argentina protegeu os nazistas em 1945. Quem o disse foi o ministro turco de Assuntos Europeus, Vulkan Bozkit, com um desacerto total. Para ele, então, todos os argentinos somos nazistas. E o próprio primeiro-ministro turco Recep Erdogan, referindo-se ao papa Francisco, disse: “Quando os políticos e religiosos assumem a tarefa de historiadores não dizem verdades, e sim idiotices”. Uma forma de insultar para esconder verdades. Mas todas estas reações ficaram ofuscadas quando dois dias depois desses ataques desesperados contra a verdade, o Parlamento Europeu reconheceu o genocídio cometido contra os armênios e lamentou os esforços turcos para negar a verdade. Mais ainda, o Parlamento mesmo aplaudiu de pé a resolução papal. E o legislador alemão Elmar Brock expressou: “A Turquia tem a obrigação moral de reconhecer esses crimes tal como fez a Alemanha com os dos nazistas. Meu próprio povo cometeu genocídio”. Finalmente, o primeiro-ministro turco Erdogan deu um passo atrás e declarou ontem (dia 24/abril) “seu pesar pela morte de armênios durante a guerra mundial de 1914-18”. A verdade finalmente se impõe.
Os fatos dos crimes contra os armênios tiveram um final notável: um jovem armênio esperou em Berlim o responsável pelo genocídio armênio, o turco Talat Pasha, e o matou em outubro de 1918. A Justiça alemã não condenou o jovem armênio, levando em conta que se tratava do político que havia permitido o horrendo crime do genocídio armênio.
E agora, a Argentina. Está se produzindo um fato de grande simpatia histórica: a marcha das mulheres dos povos indígenas rumo ao Congresso Nacional. É a primeira vez que ocorre. Uma marcha sem mágoas, sem protestos, mirando o futuro. A marcha das mulheres dos povos originários pelo Buen Vivir. Nada menos.
Pensar que foram as mulheres dos povos originários as que mais sofreram em nossa história. Bastaria publicar os informes militares de Roca, os avisos de Avellaneda, as matérias dos jornais da época da Expedição ao Deserto para comprovar a traição que cometeram os argentinos aos princípios de Maio (referência à independência do país) e ao Hino Nacional em sua estrofe: “Ved en trono a la noble Igualdad, Libertad, Libertad, Libertad (Veja no trono a nobre Igualdade, Liberdade, Liberdade, Liberdade)”. Vou reproduzir uma crônica do jornal El Nacional da época para demonstrá-lo: “Chegam os índios prisioneiros com suas famílias. O desespero, o pranto não cessa. Tiram das mães índias seus filhos para em sua presença dá-los de presente apesar dos gritos, clamores e súplicas que de joelhos e com os braços levantados ao céu dirigem as mulheres índias. Naquele cenário de extrema dor humana, uns escondem o rosto, outros olham resignadamente para o chão, a mãe índia aperta contra o seio o filho de suas entranhas. O pai índio passa à frente para defender sua família dos avanços da civilização”.
Tudo está dito. Isso o fizemos os argentinos. E hoje, as descendentes daquelas vítimas querem iniciar um movimento pelo “buen vivir”. Incrível. Para aplaudi-las. O primeiro grupo foi mapuche e agora pertencem a diversas etnias. Se reuniram junto ao monumento a Roca, o genocida, como para demonstrar que elas vivem e têm projetos. Formam uma organização feminina que quer trabalhar em todos os setores e ensinar-lhes seus sonhos e seus costumes.
A mobilização é sábia e explícita: a criação do Conselho de Mulheres Originárias pelo Buen Vivir. Apresentaram o projeto ante o Congresso. Esperam a resposta. Desejamos que seja aprovado e se crie uma organização de solidariedade na sociedade. Os povos originários nos deram uma lição.

Tradução: Jadson Oliveira           

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