terça-feira, 28 de abril de 2015

NO EQUADOR, HÁ UM PRESIDENTE QUE É PROTAGONISTA NA BATALHA DA COMUNICAÇÃO

O programa de 18/abril, realizado a partir de San Isidro de Puengasí, em Pichincha (Quito), foi o de número 420 (Foto: Divulgação/El Telégrafo)
‘Enlace Cidadão’, aos sábados, pela Equador TV: durante quatro horas, o âncora/presidente Correa repassa os temas da semana, os planos e ações governamentais, rebate os adversários e polemiza com os meios de comunicação: apresenta o seu contraditório às “verdades” do pensamento único da mídia hegemônica.

Por Jadson Oliveira (jornalista/blogueiro) – editor do blog Evidentemente – publicado em 28/04/2015

De Quito (Equador) – “A imprensa corrupta como sempre... corrupta e corruptora”; “Os mandantes aqui não são o império e o FMI, são o povo equatoriano”; “A verdade, companheiros, nada mais que a verdade... aprendamos com a história, é proibido olvidar!” “Vamos rumo à segunda e verdadeira independência!” “Somos mais, companheiros, somos muitíssimo mais”.

Quem já imaginou escutar bordões deste tipo saídos da boca de um presidente (ou presidenta) brasileiro, na tela da TV? Pois é, que morram de inveja e desespero os patriotas e ativistas do Brasil: isto acontece aqui no Equador, na nossa América Latina, através do programa ‘Enlace Ciudadano’, todos os sábados, das 10 às 14 horas, na emissora pública Equador TV, canal 7.

O âncora é nada mais nada menos que o presidente da República, Rafael Correa. Durante quatro horas, com ênfase, humor e ironia, respaldado por uma plateia animadíssima – não faltam os gritos de “reeleição, reeleição!” -, ele repassa os temas locais e internacionais da semana, relembra toda a agenda da presidência, fala das inaugurações de obras, anuncia outras e apresenta planos de ação governamentais.

E – certamente a parte mais interessante – rebate os políticos adversários e polemiza com os meios de comunicação opositores, a grande maioria da mídia privada. Dá a sua versão sobre cada um dos temas importantes abordados pelos jornais e noticiários durante a semana, desmascarando, com detalhes e sem eufemismos, as tramas, mentiras e manipulações, em conformidade com a visão do governo. (Numa de suas investidas, disse: “Essa imprensa não serve nem para amadurecer abacate” – no Brasil seria “enrolar peixe”). 
O bom humor dá o tom em toda a programação (Foto: Internet)
Desmascarando enfaticamente as "mentiras": o El Universo que aparece aí é o jornal mais tradicional do país (Foto: Internet)
Ou seja, no ‘Enlace Cidadão’, Correa apresenta ao vivo e em cores, na tela da TV (tem transmissão também por rádio e o programa é repetido em outro horário), a partir de um cenário instalado em algum ponto do país, o seu contraditório às “verdades” do pensamento único da mídia hegemônica.

E o faz sem ser enfadonho. Lembra inclusive o famoso “Alô Presidente!” do líder venezuelano Hugo Chávez, que todos os domingos, durante horas, encantava a grande audiência formada por seus seguidores. Talvez Correa não chegue a ter a eloquência e o carisma de seu amigo Chávez, mas creio que se sai muito bem na televisão.

Não é à toa que o conceituado jornalista e acadêmico Ignacio Ramonet, diretor do Le Monde Diplomatique em espanhol, tenha comentado recentemente que Correa estudou comunicação depois de se tornar presidente. (Uma boa dica para os presidentes e políticos do Brasil).

A visita do Papa, “as mãos sujas da Chevron” e Cantinflas

Assisti todo o programa do dia 18 de abril, no sábado seguinte à Cúpula das Américas. A recapitulação dos fatos da semana abrangeu, na verdade, duas semanas, já que o presidente no sábado anterior, dia 11, estava no encontro do Panamá.

Além, portanto, dos destaques da agitada Cúpula – com a reaproximação de Cuba e EUA e as ameaças do império contra a Venezuela –, Correa repassou assuntos como a inauguração da Escola de Defesa da Unasul, um contra-ponto à famigerada Escolas das Américas (no Panamá), que fomentou as ditaduras militares na América Latina;

Apresentou planos de ação nas áreas de educação tecnológica e de políticas industrial e agroindustrial, contando com a ajuda duma bancada de ministros e assessores; enalteceu a figura do grande Eduardo Galeano, que tinha morrido naquela semana; falou dos últimos desdobramentos da campanha “As mãos sujas da Chevron” – o governo e o povo lutam por indenização pela destruição ambiental causada pela petroleira na Amazônia equatoriana;

Falou também, além de vários outros temas, do pedido que fez – e foi atendido – para que o Papa incluísse a cidade de Guaiaquil (a maior do país) no roteiro da visita ao Equador, na primeira quinzena de julho próximo; e do convite feito pelo Vaticano ao país para ajudar na elaboração da encíclica sobre o meio ambiente e as mudanças climáticas, em virtude dos avanços explicitados sobre o assunto na sua Constituição de 2008.

Há ainda alguns quadros que diversificam a programação, como ‘Equador em positivo’, que no programa que assisti expôs números sobre a redução da pobreza e das desigualdades; outro é ‘A cantinflada da semana’ (o nome vem do consagrado ator e humorista mexicano Cantinflas).

Aliás, nesta linha de explorar o humor, há também, já no final do programa, a participação de quem julgo ser um comunicador/comediante, que discorre – com interlocução frequente de Correa - sobre temas que devem ser picantes, engraçados e relacionados ao dia-a-dia da cultura nacional, a julgar pelos risos da plateia. (As pessoas normalmente não entendem chistes/piadas em língua estrangeira, é o meu caso).

Ah, quase ia me esquecendo duma frase muito repetida pelo presidente âncora/apresentador/animador: “Nosso trabalho não visa as próximas eleições, mas as próximas gerações”.


PS: Estou devendo aos meus leitores matéria sobre a construção da mídia contra-hegemônica da chamada Revolução Cidadã e a aplicação da “Ley de Medios” equatoriana, aprovada há quase dois anos, visando a democratização das concessões de rádio e TV.

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