MARIA INÊS NASSIF: O TEMPO PRESSIONA O GOVERNO DILMA

Antônio Cruz / ABr
(Foto: Carta Maior)

Estratégia para reverter a impopularidade do governo não leva em conta que o processo de desgaste é veloz, e a resposta a ele tem que seguir o mesmo ritmo.








Por Maria Inês Nassif - no portal Carta Maior, de 07/04/2015

O grande risco de tomar um momento por outro, e de tratar como iguais coisas que são apenas semelhantes, é não entender o ritmo próprio que a história impõe aos acontecimentos. Uma noção distorcida do governo sobre o tempo que dispõe para deter a corrosão da popularidade da presidenta Dilma Rousseff acaba anulando os resultados de qualquer eventual ação política para reverter esse processo.
 
O governo Dilma definiu um tempo que não necessariamente será levado em conta pela história. Trabalha-se com o cálculo de que a corrosão da imagem do governo se diluirá à medida em que o Brasil voltar a crescer. Isso representa esperar o pacote fiscal ser aprovado, surtir efeitos indesejáveis sobre a já claudicante atividade econômica e, do meio para o final do mandato, adotar uma política econômica menos ortodoxa que permita a retomada do crescimento econômico. É um tempo que toma quase a metade do segundo mandato de Dilma.
 
Este é um cálculo completamente irreal para uma gestão que sofreu uma queda vertiginosa de popularidade em menos de seis meses, e para uma presidenta que chegou a apenas 12% de aprovação do governo nas pesquisas de opinião e perde popularidade numa velocidade muito maior do que aquela que se pode imprimir ao plano para sair do imbróglio colocado por um programa econômico de austeridade.
 
A estratégia de Dilma, de primeiro resolver a governabilidade “por dentro”, para depois trabalhar na reversão de sua popularidade, olha para o que aconteceu em 2003. O início do primeiro mandato de Lula foi destinado a medidas duras, voltadas para o ajuste de uma economia que estava em pandarecos. Nos dois primeiros anos foram gastos esforços e saliva também para consolidar uma maioria governista que viabilizasse o governo.
 
Para agir “por dentro”, o primeiro governo Lula guardou uma certa distância dos movimentos sociais, mas tinha um crédito de popularidade trazido das urnas e programas que, mesmo pequenos, alteravam a vida das pessoas mais pobres. Os movimentos sociais demoraram a perceber que se estabelecia um canal próprio de comunicação do presidente com as massas. Lula estava coberto.
 
A situação econômica de 2015 tornou-se parecida com a de 2003 em parte porque, na avaliação também de economistas não ortodoxos, Dilma acreditou no novo ataque à moeda, à economia brasileira e a ela própria. Quando reiterou tudo que os jornais e o mercado diziam sobre a economia e se manteve acuada no ataque especulativo à Petrobras, deu força à especulação. Esta é a tal profecia que se autorrealiza de que o mercado tem tanto orgulho.
 
O cenário político, todavia, não é igual ao do primeiro mandato de Lula. Em junho de 2002, antes do início da campanha eleitoral oficial, o candidato e o PT já haviam divulgado uma Carta aos Brasileiros em que oficializavam um “pacto” com um mercado que especulava triplamente: contra a economia brasileira, contra o Real e contra o candidato de oposição a FHC. O eleitor foi avisado antes.

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