quinta-feira, 23 de abril de 2015

ARAM AHARONIAN: A VOLTA DA ROTINA MICROPOLÍTICA NA VENEZUELA, COM ELEIÇÕES PARLAMENTARES À VISTA


Carlos Barrios/ABI
(Foto: Carlos Barrios/ABI)

Até as eleições, Maduro precisa melhorar seu desempenho econômico e oferecer soluções, pois do contrário a oposição se beneficiará do voto de castigo.

Por Aram Aharonian, no portal Carta Maior, de 22/04/2015

Nicolás Maduro completou dois anos na presidência da Venezuela, marcados pela guerra econômica sem quartel, barricadas, desestabilização e inclusive uma agressão direta de Washington, com o decreto de Obama que declarava – com certa cara de pau – que seu governo é uma ameaça para a segurança estadunidense.
 
Passada a efervescência da VII Cúpula das Américas, voltamos à rotina, a disputa ordinária e à confrontação interna. “Como uma ilusão passageira, a Cúpula se desvaneceu e o volátil foco midiático redirecionou a opinião pública a outras pequenas polêmicas fundamentalmente locais. A pauta imposta é a da micropolítica, onde entra em jogo interesses e crenças, razões e paixões”, analisa a socióloga Maryclén Stelling. A tal “vitória da paz” obtida no Panamá já ficou para trás.
 
Agora, as eleições parlamentares, marcadas para este ano, marcam o ritmo da convivência, e da confrontação. Atualmente, o chavismo conta com maioria absoluta na Assembleia Nacional unicameral, situação que ficou em risco depois desses dois últimos e conturbados anos. As últimas pesquisas revelam uma recuperação dos níveis de aprovação da gestão de Maduro e também um fortalecimento do chavismo como identidade e posição política.
 
Também melhoraram os níveis de otimismo e esperança, e diminuíram os de preocupação e descontentamento, em comparação às sondagens de janeiro. Contudo, o que continua elevada é a incerteza com respeito à situação econômica do país, já que se mantêm os índices de desabastecimento em geral: este é definitivamente o problema que mais preocupa a grande maioria dos venezuelanos.
 
Onde se observa maior crescimento e recuperação dos níveis de apoio é nas bases sociais que historicamente respaldam a Revolução Bolivariana, segundo indicam as amostragens. Entre os fatores que explicam esse crescimento, se destaca a campanha contra o Decreto Obama, que ajudou o governo a levantar bandeiras, metas, tarefas e argumentos aos setores sociais, permitindo uma coesão e mobilização entusiasmada na defesa da soberania, da independência nacional e do legado de Chávez.
 
O instituto Hinterlaces aponta que, hoje, o chavismo é a única força social, cultural e simbólica com caráter popular, e a única vanguarda política do país, diante de uma oposição dividida, sem mensagem nem oferta, elitizada, sem presença nos movimentos sociais nem nas ruas.
 
Por sua parte, os governistas celebram dois anos de governo de Maduro junto com o aniversário de 13 anos do golpe de 2002, com o presidente falando em “radicalizar a revolução”, prometendo um “13 de abril econômico” (em referência à retomada do governo um dia depois daquele golpe) e pulso firme contra a guerra econômica “e contra todos aqueles que se oponham”.
 
Já a oposição retoma com força a campanha antigoverno e ativa o aparato midiático transnacional. A campanha recomeçou com a denúncia de que a política econômica está rifando as reservas para atenuar a crise, “estão raspando a panela para cobrir um rombo de 30 milhões de dólares”, dizem.
 
Falta menos de um mês, porém, para que seus 110 aspirantes se enfrentem em eleições primárias, organizadas em meio às diferenças e desacordos, após um processo em 34 circuitos (de 87 em total), o que indica que a grande maioria das candidaturas serão decididas por consenso, o que gera insatisfação dos partidos pequenos que compõem a Mesa de Unidade Democrática (MUD, coalizão que reúne os partidos opositores venezuelanos).
 
Não há dúvida que as eleições parlamentares serão definidas pelas respostas e propostas aos problemas das pessoas em sua vida cotidiana e não pelos grandes temas políticos, incluindo as ações tomadas pelo presidente norte-americano Barack Obama, com a intenção de forçar a alternância de poder na Venezuela.
 
Até as eleições, Maduro precisa melhorar seu desempenho econômico e oferecer soluções para a escassez de produtos, diminuir as filas e o alto custo de vida, pois se a situação se mantiver ou piorar, a oposição terá a oportunidade de se beneficiar com o voto de castigo, sem sofrer muito com sua atitude omissa diante da ofensiva estadunidense. Também pesam nesta análise as atitudes tomadas pelos dois setores opositores: o legalista – ao redor da MUD – e o golpista, porque serão as mostras de como o país será dirigido em relação à sua soberania e sua posição geopolítica, a partir do resultado das urnas.
 
Alguns setores e personalidades da oposição criticaram as ações de ingerência e desestabilização lançadas de Washington (bloqueio comercial às Forças Armadas, aprovação da Lei de Proteção dos Direitos Humanos e da Sociedade Civil da Venezuela, sanções, definição da Venezuela como uma ameaça à sua segurança), mas a verdade é que a grande maioria inclusive respaldou as medidas, e as justificou, por estarem voltadas a desestabilizar o governo. Para esses grupos políticos, os que dizem clamar por democracia, vale tudo: os fins justificam os meios e os meios (de comunicação) justificam os fins.
 
Mais que isso, alguns patriotas opositores sustentam (e dizem isso claramente em colunas e comentários nos jornais, rádios e canais de televisão) que as deveria haver uma intervenção estrangeira ainda mais fortes e direta. As poucas críticas às medidas estadunidenses apontam à modalidade aplicada, por ter permitido ao governo de Maduro a possibilidade de se apoderar das bandeiras do nacionalismo. A MUD, em seu comunicado oficial sobre o tema, estimou que a intervenção para derrubar o governo venezuelano deveria ser empreendida pelos organismos multilaterais.
 
No fundo, existe uma explicação: a velha visão de subordinação ao dispositivo geopolítico estadunidense que marcou o hemisfério durante a Guerra Fria. São setores que ainda hoje se mantêm atados a esses padrões de pensamento ”, explica o cientista político Leopoldo Puchi.

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