terça-feira, 24 de março de 2015

RAMONET: PT/LULA/DILMA NÃO CUIDOU DE CRIAR UM SISTEMA PÚBLICO DE COMUNICAÇÃO

Ignacio Ramonet (Foto: Marco Salgado/El Telégrafo)
“Os amigos do Partido dos Trabalhadores (PT), governante, Lula (Da Silva) ou Dilma (Rousseff) não deram a importância necessária à criação dum sistema público de comunicação e informação”.

O presidente Rafael Correa “estudou a comunicação depois de chegar à Presidência. Tirou uma série de conclusões sobre o poder midiático, seu funcionamento, como se pode elaborar um contra-poder midiático e isto hoje em dia é indispensável”.

Esta é apenas uma pequena parte da rica entrevista do jornalista e professor Ignacio Ramonet, diretor do Le Monde Diplomatique em espanhol, ativista e estudioso do papel político exercido pelos meios de comunicação. Foi matéria de capa do El Telégrafo, com a manchete: ‘Ramonet: Meios de comunicação substituem as forças conservadoras’. Este blog Evidentemente publicará outras partes dependendo do ritmo da tradução.

Por Orlando Pérez e María Elena Vaca, do jornal estatal equatoriano El Telégrafo, edição impressa de ontem, dia 23 (o título e os destaques acima são deste blog)

Na América Latina há meios de comunicação e “grêmios” (associações de empresários de comunicação) que se converteram em atores políticos, inclusive contrários aos governos progressistas?

Isto já faz tempo. Evidentemente têm sido os principais opositores. Na experiência que têm vivido os países latino-americanos, onde governos progressistas têm sido eleitos pelos cidadãos, com base num programa de reformas e transformações sociais muito importantes, e não têm sido apenas eleitos, têm sido reeleitos. Observamos que nenhum programa de transformação social na América Latina perdeu uma eleição desde há 15 anos. Onde este tipo de reforma construtiva de esquerda, progressista, chegou ao poder, democraticamente se manteve até hoje, ainda que tenham mudado os líderes, como na Venezuela, Brasil, Paraguai...

Porém, estão aí os casos de Honduras e Paraguai?

Mas aí são golpes de Estado, não são os eleitores. Em nenhum caso os eleitores rechaçaram esta proposta. O único caso, se você quer, ainda que não seja pertinente, é o governo de Bachelet, quando ela não podia voltar a se candidatar, porém o primeiro governo de Bachelet não podíamos qualificar de neoprogressista porque estava governando com uma aliança social-democrata, democrata cristã, ainda que nesse caso, depois da experiência, Bachelet regressou com uma coalizão ainda mais ampliada com o Partido Comunista. Os eleitores não a rechaçaram e, por conseguinte, isso significou a derrota das forças conservadoras tradicionais, que em alguns países desapareceram, como no caso do Equador.

Quem substituiu nesses casos as forças conservadoras?

Os meios de comunicação, porque o empresariado, o poder econômico, historicamente dominante nesses países, acreditou que com estes meios de comunicação ia manipular, levar a cabo a contra-ofensiva conservadora. Por isso essa luta tem sido tão importante e por isso muitos governantes fizeram dessa luta uma confrontação central, como é na Venezuela, no Equador, onde Rafael Correa, talvez de todos os presidentes da América Latina, seja o que mais teve consciência de que essa luta era fundamental; também na Argentina, onde tem havido um enfrentamento importante contra o Grupo Clarín, que domina 80% dos meios de comunicação (imprensa, rádio e TV) desse país. Estes meios se erigiram em oposição oficial, quando não é sua função, pois sua função é informar, não ser partidos políticos.

Mas esta função tem eco e prestígio em certos setores e ao mesmo tempo contam com um “grêmio” (a SIP – Sociedade Interamericana de Imprensa) que quer influir até mesmo em eleições, como ocorreu no Brasil...

Claro, precisamente os amigos do Partido dos Trabalhadores (PT), governante, Lula (Da Silva) ou Dilma (Rousseff) não deram a importância necessária à criação dum sistema público de comunicação e informação. Primeiro, porque nunca tiveram maiorias claras, governaram com os parlamentos que negociavam, não tiveram as mãos livres, e os empresários, que no Brasil dispõem de grupos importantes, como o Grupo Globo, não lhes permitiram. De fato, não creio que tiveram a vontade, e mesmo se a tivessem, não creio que lhes tivessem deixado desenvolver um grupo público de meios de comunicação como se fez em outros países, como o Equador, Venezuela e Argentina.

Há uma mudança na ação dos políticos passando a atuar como comunicadores políticos e assumir como parte de sua estrutura formativa a comunicação?

Sim, o exemplo você tem aqui. O presidente que mais  integrou essa ideia é Correa. A partir do ponto de vista teórico e acadêmico, é alguém que estudou a comunicação depois de chegar à Presidência. Tirou uma série de conclusões sobre o poder midiático, seu funcionamento, como se pode elaborar um contra-poder midiático e isto hoje em dia é indispensável, é um parâmetro fundamental. Mas claro, também temos que ver como isso evolui. Muitos dirigentes fazem uma análise dos meios de comunicação, que é o que se podia fazer há 10 ou 15 anos, mas hoje a reflexão deve integrar as redes sociais, que são o principal ator na mobilização social. De fato, se você quer, a maioria destes governos sofre uma ofensiva que já não é megamidiática, mas sim micromidiática.


Tradução: Jadson Oliveira

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