quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

BETO ALMEIDA: VENEZUELA MUDOU EM 4 DE FEVEREIRO DE 1992

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(Foto: Carta Maior)

Hoje, 23 anos depois daquele 4 de Fevereiro, é importante que a esquerda latino-americana observe as lições deixadas pela ação extraordinária de Chávez.

PorBeto Almeida (presidente da TV Comunitária de Brasília) - no portal Carta Maior, de 04/02/2015


Quando o movimento bolivariano cívico-militar, liderado por Hugo Chávez, levanta-se em armas, convocando o povo venezuelano para assumir em suas próprias mãos o destino do país e para fazer Pátria, era como um raio de luz incandescendo corações e mentes, iluminando uma América Latina ainda imersa nas trevas do neoliberalismo, e foi ali que a Venezuela começou a mudar, vigorosamente.

O movimento não tinha atingido, então, os seus objetivos fundamentais, como disse Chávez  em discurso por rádio e tv anunciando a rendição temporária daquela empreitada, num recuo tático inteligente para poupar vidas. Mas, sua cara de negro e índio, sua fala larga como as planícies do país, altiva como os Andes e caudalosa como o Rio Orenoco já havia penetrado irreversivelmente na consciência do povo da Pátria de Bolívar.

Certa vez, representando a Telesur num evento na Universidade de Madri, um dirigente comunista espanhol me confessou que só depois do golpe de 11 de Abril de 2002, ele e seus camaradas, passaram a acreditar que Chávez era , de fato, um revolucionário. Ou seja, levaram 10 anos para entender o que o povo venezuelano compreendeu num discurso de Chávez de apenas 47 segundos. “Ele é um dos nossos”, me explicou uma senhora idosa   -   moradora do Bairro de El Valle, que levava 1 hora para subir aquelas escadas e becos íngremes  com sacolas de compras, quando lhe pedi  que definisse  Chávez para mim    -    com um sorriso nos lábios, ao tempo em que me mostrava o quarto do médico cubano que ela acolhia em casa. “Ganhei um novo filho”, disse do cubano.

Em muitas ocasiões similares,em diferentes países, onde também ocorreram levantes, insurreições  e movimentos revolucionários conduzidos por militares,  também houve perplexidade e confusão na esquerda.  Juan Velazco  Alvarado, general peruano líder da  Revolução Inca,  que estatizou petróleo, aproximou o país de Cuba e da URSS, iniciou a reforma agrária, e que tinha em Hugo Chávez um grande admirador, também foi muito hostilizado pela incompreensão  dos comunistas da Pátria de Mariátegui. Também  o  Tenente-Coronel , Juan Domingo Perón chegou a ser tratado como fascista pelos comunistas argentinos, que chegaram  ao ponto de fazer comícios junto com o Embaixador Braden, dos EUA, pedindo a renúncia do líder peronista, em cujo governo se  estatizaram  as telecomunicações, o petróleo e o gás, a indústria naval, o sistema ferroviário, reduzindo  drasticamente a miséria, praticamente eliminou o analfabetismo, além de criar a Rede Pública de TV e Rádio da Argentina, com forte apoio ao desenvolvimento do cinema platense, que hoje retoma seu brilho fomentado pelas políticas audiovisuais de Nestor e Cristina.

Não foi muito diferente aqui no Brasil. Prestes , em longa entrevista publicado no jornal Tribuna Popular,  comunista, no dia 24 de agosto de 1954, pedia a renúncia de Getúlio Vargas. Poucas horas depois a própria direção do PCB mandou recolher os jornais das bancas quando se anunciou a morte de Vargas e houve uma verdadeira explosão de fúria popular contra os veículos da oposição imperial e oligárquica, não poupando nem mesmo a imprensa comunista. Vale lembrar que em 1930, Prestes recusa o convite feito por Vargas para ser o chefe militar da Revolução, convite aceito pelos outros militares revolucionários que haviam lutado na Coluna e nos outros levantes anti oligárquicos. Prestes, décadas mais tarde, terminaria sua longa e digna  vida  como presidente de honra do partido trabalhista liderado pelo varguista Leonel  Brizola.

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