sábado, 7 de fevereiro de 2015

URUGUAI: UMA CALMARIA EM MEIO À POLARIZAÇÃO POLÍTICA DA AMÉRICA LATINA



Tabaré Vásquez discursa, na cidade de Maldonado, durante a festa dos 44 anos dos frenteamplistas (Fotos: site Maldonado Notícias)
A Frente Ampla uruguaia, que chega ao seu terceiro mandato presidencial consecutivo, comemora 44 anos de rica experiência política

Por Jadson Oliveira (jornalista/blogueiro) – editor do blog Evidentemente, de 07/02/2015

De Montevidéu (Uruguai) – Estava eu aqui tentando “estar” na simpática (e cara) capital dos hermanos uruguaios, mais ocupado, na verdade, em seguir a conspiração da direita no Brasil - através da escandalosa ditadura da mídia hegemônica (em conluio com agentes do Judiciário e de outros afins) -, quando “descobri” que a badalada Frente Ampla (FA - Frente Amplio, masculino, em espanhol) , que acaba de emplacar seu terceiro mandato presidencial consecutivo, está completando 44 anos.

Eu imaginava que seria coisa mais recente, depois da ditadura militar (1973-1985 – ou ditadura civil-militar, como se diz mais ultimamente).

Pois é, foi na quinta-feira, dia 5, enquanto já se desenrola a campanha para as eleições estaduais (“departamentais”) e municipais em maio próximo. A comemoração central foi um ato público em Maldonado, capital do estado (“departamento”) com o mesmo nome, pertinho da cidade turística Punta del Leste, com discurso do presidente eleito Tabaré Vásquez (posse no próximo dia primeiro).
 
A Frente Ampla foi chancelada no dia 05/02/1971 numa reunião de lideranças (o principal líder era Líber Seregni, um general democrata) e lançada, em manifestação de massa, no mês seguinte, dia 26, uma data importante da luta pela independência contra o império espanhol no início do século 19 (tanto assim que existe aqui uma organização de esquerda, Movimento 26 de Março, que foi criado como braço político de massa dos guerrilheiros urbanos Tupamaros – Movimento de Libertação Nacional).

É dona duma rica experiência política, não apenas por seu êxito eleitoral a partir de 2004 até hoje, mas pelo imenso arco de alianças que abarca. É uma coalizão de, atualmente, 21 partidos e movimentos, conseguindo a façanha de juntar democratas liberais, social-democratas , socialistas, comunistas, cristãos, anarquistas, gente moderada e pragmática com gente de ideário radical de esquerda. Uma miscelânea que tem dado bons frutos eleitorais e sociais.
Alfredo Beder, ex-metalúrgico e ex-militante comunista que continua comunista, em Montevidéu (Foto: Jadson Oliveira)
Quem me deu este número 21 foi um antigo militante comunista que conheci por acaso num bar, ele nem bebe mas o conheci num bar. Comunista clássico, tradicional, era metalúrgico e militava no Partido Comunista do Uruguai (PCU), velho partido criado no início do século 20, classificado como “linha Moscou”, irmão do nosso Partidão (PCB, o antigo Pecezão “de Prestes”). A diferença é que o PCU continua sua trajetória, com uma linha política mais ou menos semelhante e ainda com alguma influência (bem menor, claro), hoje integrando a Frente Ampla.

Seu nome é Alfredo Beder, de família judia. Ele me fez uma “palestra” sobre a história da Frente Ampla. Me contou muita coisa interessante, novidade para mim . Exemplo: os guerrilheiros Tupamaros, que os sonhadores revolucionários das décadas de 1960 e 1970 tanto admiramos, já eram considerados derrotados quando o golpe militar instalou a ditadura uruguaia em 1973.

Sem entrar muito na história, é bastante lembrar que o ainda presidente (até o próximo dia 28), nosso simpaticíssimo José “Pepe” Mujica, um dos principais líderes dos Tupamaros, já estava preso quando a ditadura começou. Veja bem: Mujica ficou preso 14 anos, foi solto logo que acabou a ditadura, em 1985 – portanto, 12 anos de ditadura militar.

E não foi somente ele, também outros líderes, como o principal Raúl Sendic (pai do atual vice-presidente eleito, que tem o mesmo nome), preso no final de 1972, levou um balaço na boca e nunca mais pôde falar direito. Foi libertado também após a queda da ditadura, participou da política institucional e morreu em 1989.

Era o tempo da utopia na ponta do fuzil

Para se entender isso – conforme Alfredo Beder me relatou – é preciso saber que o Uruguai viveu um período de luta armada, principalmente guerrilha urbana protagonizada pelos Tupamaros, antes de se instalar oficialmente a ditadura, desde os finais da década de 1960. (Só para ficar registrado: os “comunistas clássicos” como Alfredo, e como o Partidão brasileiro, defendiam a linha de ação pacífica, a luta de massas, eram contra a luta armada).

Era a fase do sonho revolucionário, da utopia na ponta do fuzil, sob a inspiração especialmente de Che Guevara e Fidel Castro, lutadores sociais que realmente conseguiram transformar o sonho em realidade na pequenina Cuba.

Finais de 1960/início dos anos 1970: foi um período de luta armada urbana no Uruguai, ainda vivendo, pelo menos formalmente, em democracia: os Tupamaros contra a repressão oficial (Forças Armadas, polícia) e contra a repressão não oficial, grupos paramilitares da direita fascista, esquadrões da morte.

Como houve mais ou menos neste mesmo período a “Triple A” na Argentina – AAA – Alianza Anticomunista Argentina, atuando contra os Montoneros. Era aquela fase conturbada dos últimos anos/morte de Perón, seguindo-se a presidência de sua mulher, Isabelita Perón, fantoche dos militares que deram o golpe em 1976. (No Brasil, onde já estávamos em plena ditadura, atuava o CCC – Comando de Caça aos Comunistas).

Voltando ao Uruguai e resumindo: isso foi “naquela época”, muita água rolou e hoje os uruguaios vivem uma fase política democrática, sem forte polarização. Para Alfredo Beder, que não milita mais, porém faz questão de frisar que continua comunista, podemos minimizar pontos de nosso ideário, mas no essencial continuamos avançando rumo a uma sociedade mais igual, mais justa para a maioria do povo.

O Uruguai parece respirar realmente ares políticos e sociais mais moderados, mais arejados democraticamente e culturalmente – ares mais “civilizados”, como disse numa crônica anterior – em meio a um clima conflituoso na nossa Pátria Grande.

No Brasil, a “direitona” arma o bote

No Brasil, depois do “mensalão” e depois de perder uma apertada disputa eleitoral, a direita – seria mais certo dizer “direitona”, porque a direita também está no governo federal – maneja o “petrolão” e arma o bote contra o PT/Dilma/Lula. Sua arma fundamental é o monopólio dos meios hegemônicos de comunicação, com a ajuda de “agentes” da lei.

Em rápidas pinceladas, mirando apenas nossa América Latina: na Argentina, a direita ataca – principal arma: grupo de comunicação Clarín (a Rede Globo argentina) – usando os tais “fundos abutre” e a morte do promotor Nisman.

Na Venezuela é batalha frontal, com a tática da guerra econômica, que deu certo no Chile de Allende em 1973, mas que agora se bate contra bolivarianos devidamente armados, aqui em vários sentidos: com uma potente mídia contra-hegemônica, com um povo mobilizado e com as Forças Armadas também bolivarianas.

Sobre a Colômbia, seguem com mil tropeços as conversações em busca de paz em Havana; sobre Cuba, o recuo do império estadunidense atenuando o bloqueio criminoso e a busca de novas relações, o que deixou a direita latino-americana particularmente nervosa, conforme observou o cientista político argentino Atilio Boron.
 
No México, “vivos os levaram, vivos os queremos”, segue o grito pungente dos pais e mães dos 43 estudantes normalistas desaparecidos/assassinados...

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