terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

PRECISAMOS LUTAR PELA CONSTRUÇÃO DUMA MÍDIA CONTRA-HEGEMÔNICA



(Ilustração: do blog Prestes A Ressurgir)
Será que a direita atingiu seu ponto máximo com a eleição de Eduardo Cunha para a presidência da Câmara? Ou será que, com a hegemonia da informação, ela pode ir ainda mais longe?

Por Jadson Oliveira (jornalista/blogueiro) – editor do blog Evidentemente, de 03/02/2015

Creio que não precisaríamos chegar à eleição de Eduardo Cunha para a presidência da Câmara dos Deputados, com um placar acachapante, para constatar o avanço das forças (e também dos valores culturais) da direita no Brasil. Isso já poderia ser detectado bem antes.

E creio que os partidos e movimentos sociais (e também parcelas do governo do PT/Dilma/Lula), envolvidos na luta democrática, popular e de esquerda, não terão bala na agulha para enfrentar tal situação se não construir uma potente mídia contra-hegemônica.

Venho batendo nesta tecla há algum tempo, através deste meu blog Evidentemente. Nestes últimos dias escrevi alguns artigos a respeito: ‘Na América Latina progressista, há governos armados e governos desarmados’, ‘Conjuntura brasileira: e ainda temos que aguentar o neoliberalismo do Levy (e da Dilma)’, ‘Presidenta Dilma, não há uma “batalha da comunicação”, há um massacre diário’.

Mas meu blog tem pequeno alcance. Por isso, de vez em quando estou entrando nos comentários dos companheiros blogueiros progressistas (ou “sujos”), tentando divulgar mais meus artigos e também fazendo comentários, sempre com o mesmo foco.

O que temos, por enquanto, de mídia contra-hegemônica no Brasil? Podemos citar a nossa blogosfera progressista (ou “suja”), que tem feito a diferença nesta era de crescente influência do meio Internet, travando uma guerra realmente heroica, apesar dos poucos recursos financeiros e da falta de apoio do governo; entra aí junto o trabalho dos ativistas nas redes sociais; no “papel” temos a Carta Capital, o Brasil de Fato e a Caros Amigos; e também pequenos meios da mídia alternativa, comunitária, sindical. O que mais?

É muito pouco, pouquíssimo, para enfrentar uma mídia hegemônica rica e poderosa, concentrada nas mãos de poucas famílias, partidarizada, com décadas de experiência, afinada com os maiores grupos capitalistas e com o império estadunidense, calejada na sua luta anti-democrática, anti-popular e anti-nacional, e ainda recebendo dinheiro das verbas publicitárias de governos, órgãos e empresas públicos.

Rede Globo e outras emissoras de TV, jornalões Folha, Estadão e Globo, revistas semanais, rádios e seus portais na Internet, mesmo perdendo eleições, dominam a agenda política do país, criminalizam o que se considera política e mantêm o governo “petista” permanentemente acuado, nas cordas, enquanto os movimentos populares, de esquerda, são cada dia mais demonizados.

E não só a agenda chamada política - o golpismo implícito e explícito: não é à toa que grande parte da população brasileira repete como papagaio que o “governo do PT” é o mais corrupto da história; e continua acreditando no “mar de lama” do Getúlio e no “governo incompetente e corrupto” do Jango.

É também a agenda cultural. A mídia hegemônica contamina todo o ambiente social, com a disseminação das versões únicas dos fatos, das mentiras e manipulações. A cada dia, a cada mês, a cada ano vai fazendo a cabeça e mente de grande parcela do povo brasileiro, criando o caldo de cultura apropriado ao ódio, à intolerância, à violência, ao individualismo, ao consumismo, ao desamor, ao vale-tudo por dinheiro.

E não apenas através dos noticiários e análises de comentaristas e “especialistas”, mas também, e sobretudo – porque a audiência é maior -, dos programas de entretenimento, de programas supostamente jornalísticos protagonizados por comediantes e dos asquerosos programas policiais, onde pobre é tratado como lixo.

E não venham me dizer que as coisas estão mudando porque agora temos a Internet. A Internet é um fator muito positivo, mas também aí quem detém a hegemonia são eles. Falam dos avanços representados por Google, Amazon, Netflix, gigantes dos meios digitais sobre os quais sou um completo ignorante, mas desconfio que daí não vem coisa alguma de positivo para os interesses populares.

Vamos discutir e botar mãos à obra

Para abreviar, sem uma potente mídia contra-hegemônica estamos desarmados nessa tal “batalha da comunicação” de que falou nossa presidenta, na moderna guerra de quarta geração – guerra da informação e da desinformação. Simplesmente porque não temos, infelizmente, uma mídia pluralista, honesta, apartidária, que se guie por princípios jornalísticos.

O governo federal e os partidos e movimentos de esquerda e centro-esquerda precisam criar e/ou incentivar a criação duma mídia contra-hegemônica. Pode ser formada por meios privados, públicos, estatais, comunitários, por cooperativas, o diabo a quatro, mas que sejam veículos de comunicação de massa comprometidos com os interesses nacionais, democráticos e populares.

Tenho batido em três pontos, prioritários e simultâneos, para avançarmos no Brasil: 1 – buscar caminhos para promover a mobilização popular; 2 – fazer a regulação da mídia, especialmente a audiovisual; e 3 – construir uma mídia contra-hegemônica.

Sobre os dois primeiros pontos, já há, pelo menos entre os blogueiros progressistas (ou “sujos”) e movimentos de esquerda, um debate já bem consistente, com boa dose de consenso. Sobre o terceiro são raríssimas as vozes que o levantam no Brasil: cito por exemplo o jornalista Beto Almeida, que é do conselho da Telesur e dirigente da TV Comunitária de Brasília.

O professor Laurindo Leal Filho, que é estudioso da matéria, admitiu numa recente entrevista a Darío Pignotti, da Carta Maior e do Página/12, que a regulamentação econômica da mídia não é suficiente para enfrentar o poder dos monopólios dos meios de comunicação no Brasil.

Vamos discutir, vamos fazer. Penso que, além da blogosfera “suja”, há entidades credenciadas a tocar tal discussão: o Fórum Nacional pela Democratização das Comunicações (FNDC), o Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, e as frentes de luta recém criadas: Fórum 21 e Frente pelas Reformas Populares.

Um comentário:

Sérgio Guerra disse...

Companheiro Jadson!
Comungo com suas ideias e lembro quando da criação da CUT, em 1983, já discutíamos a necessidade da construção de uma mídia democrática e popular, que esta central sindical e agora as outras, há muito, já deveriam ter feito. Felizmente agora, com Emiliano no Ministério das Comunicações talvez esta coisa ande um pouco mais. Parabéns pelo artigo e pela luta pela democratização da mídia. Saudações democráticas de seu admirador, Sérgio Guerra.