sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

PRESIDENTA DILMA, NÃO HÁ UMA “BATALHA DA COMUNICAÇÃO”, HÁ UM MASSACRE DIÁRIO


Dilma falou da "batalha da comunicação" na primeira reunião ministerial do seu segundo governo (Foto: Internet)

É um massacre diário na TV Globo, nos jornalões Folha, Estadão e Globo e etc e etc, manchetes da desinformação que vão se repetindo e se desdobrando em cascatas...

Por Jadson Oliveira (jornalista/blogueiro) – editor do blog Evidentemente, carta de Montevidéu (Uruguai), publicada em 30/01/2015
                                     
Querida Lucilla,                             

Estranhei você me escrever falando da ingenuidade de nossa presidenta ao pedir aos seus numerosos ministros, na primeira reunião ministerial, que travem “a batalha da comunicação”. Devo concluir que já está se interessando por essas “merdas” da política? Não é assim que você costuma se referir à política?

Pois bem, me animei a te responder à altura, apesar de estar fora uns tempos. Fora é maneira de dizer, porque a danada da Internet deixa a gente em todos os lugares.

É o assunto que mais tem me interessado ultimamente na política, a tal da comunicação ou a ditadura midiática. Escrevi dois artigos recentemente sobre isso aqui no blog, você deve ter visto, embora sempre penso, com uma certa dor de corno, que você lê saltando uns parágrafos, não te interessa tanto... (‘Na América Latina progressista, há governos armados e governos desarmados’ e ‘E ainda temos que aguentar o neoliberalismo do Levy - e da Dilma’).

Meu amor, não concordo com esse negócio de ingenuidade: seria possível que a Dilma não perceba que o seu governo, o nosso governo, está desarmado nessa guerra da comunicação, que é uma guerra mortal nos nossos dias? Aliás, nossos dias uma ova, não é à toa que até hoje há gente que acredita no “mar de lama” do Getúlio Vargas e no “governo incompetente e corrupto” de Jango.

Imagino, assombrado, que daqui a uns 50 anos a maioria dos brasileiros vai falar dos governos “petistas” do início do século como “os governos mais corruptos da história”.

E se perdurar o quadro de hoje, em especial nos meios de comunicação, é assim que os governos de Lula e Dilma vão ficar na história. É de doer! Nossos netos vão conferir esta previsão.

É um massacre diário na TV Globo, nos jornalões Folha, Estadão e Globo e etc e etc, manchetes da desinformação

(nutridas inclusive pela verba da publicidade do próprio governo) que vão se repetindo e se desdobrando em cascatas pelas outras TVs, rádios e jornais dos estados e também nos portais da Internet.


Aí, na Internet, temos alguma munição para disparar, os companheiros na blogosfera e nas redes sociais têm feito uma boa resistência, mas mesmo aí somos minoritários.

Quando é que o governo (e também o movimento democrático, popular e de esquerda) vai se conscientizar que precisa se armar para travar a tal da “batalha da comunicação”, como disse a Dilma?

Pode-se dizer que não é apenas questão de querer, mas de poder, pois o governo “petista” é uma casa inundada de gente da direita e até ultradireita, a dependência da tal governabilidade, por isso uso sempre o “petista” entre aspas.

Acho sinceramente que isso é verdade. Mas, que diabo! a gente cansa, o povo se anestesia e a juventude se impacienta desnorteada, é preciso buscar instrumentos, de alguma forma, para construir uma mídia contra-hegemônica no Brasil.

É isso ou nada. Ou seja: além de lutar pela regulação da mídia, assunto sobre o qual parece já haver uma certa conscientização no governo, é preciso criar ou incentivar a criação de uma rede de jornais, TVs, rádios, portais, emissoras de rádio e TV comunitárias.
                                                                          
Isso sim é armamento para travar a guerra da comunicação, para defender e atacar em nome dos interesses nacionais e populares. (Um terceiro ponto imprescindível, sem o qual não se chega a lugar nenhum, é buscar a mobilização popular, mas aí é outro papo. São tarefas prioritárias e simultâneas).

Vou dar dois exemplo: os governos da Venezuela e da Argentina, que vivem hoje sob bombardeio incessante da mídia hegemônica em todo o mundo. Ontem mesmo li o El País, o jornal mais lido daqui, não tem escapatória, pau em Nicolás Maduro, pau em Cristina Kirchner, sem piedade.

Mas tem um detalhe fundamental: internamente, em cada um de seus países, eles têm – porque vêm sendo construída ao longo dos últimos anos – uma mídia contra-hegemônica (na última vez em que estive em Caracas – aliás, nos conhecemos nessa ocasião  - as forças bolivarianas já contavam, pra citar só um item, com quatro emissoras de TV estatais).

Têm também a mídia regulada (no caso da Argentina, ainda estão lutando para aplicar a regulação, a famosa Ley de Medios).

Por isso – e por contar ainda com um movimento popular mobilizado – as classes mais endinheiradas não conseguiram e não conseguem derrubar nem Maduro e nem Cristina. E olhe bem, minha querida Lucilla, nunca esqueça desse detalhe, que é muito mais do que um detalhe: a direita golpista tem ao seu lado o império.

E agora nossa presidenta vem me falar de travar a “batalha da comunicação”! (“e agora você vem me falar dessa paixão inesperada por outra pessoa”, é assim a música do Peninha, você lembra? “forma parte” do nosso caso de amor...)

Vou parar, minha querida, vou tentar esquecer um pouco do Brasil, e ver se aprendo umas coisas daqui desta bela cidade.

Só uma coisinha mais: você viu que uma das primeiras decisões do novo governo de esquerda da Grécia, do Syriza, foi reativar a TV estatal de lá? Pois é, estão no caminho certo.

Outra coisa, um segredinho: o que mais me agrada sair do Brasil é não ter mais o desgosto de ver aqueles e aquelas agentes da delinquência da Globo entrando todo santo dia em minha casa. É um alívio!

Beijão, Lucilla, me queira bem mesmo com a política no sangue, acho que ainda te amo. Um dia, prometo, te escrevo uma carta só pra falar de coisas do amor.

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