terça-feira, 13 de janeiro de 2015

O DEBATE NO BRASIL SOBRE A REGULAMENTAÇÃO DA MÍDIA



Professor Venício Lima (Foto: Rogério Tomaz Jr./Flickr)
Em entrevista, Venício Lima falou de como a mídia aprisiona o debate dentro de uma narrativa falsa que fala de censura, e não de regulamentação econômica.

"É necessário que o debate chegue à sociedade, porque você só conseguirá mudanças se conseguir mobilização".

"Acho que a participação de Lula (na batalha por mudanças na mídia) será muito importante, será extraordinária".


Por Darío Pignotti, @DarioPignotti – reproduzido do portal Carta Maior, de 12/01/2015

A possibilidade de ter a participação de Lula na batalha pela democratização da mídia será um aporte "extraordinário" para o campo progressista e uma dor de cabeça para os defensores do status quo.

E a nominação de Ricardo Berzoini no Ministério das Comunicações é um fato importante porque ele tem demonstrado estar "sensibilizado" com a necessidade de mudanças, um objetivo onde tem como aliados os ministros Miguel Rossetto, Jaques Wagner e Pepe Vargas.

Estas são algumas das reflexões formuladas pelo professor Venício Lima, um dos acadêmicos que tem estudado com maior rigor e durante anos as interfaces entre poder e mídia no Brasil, onde impera um dos sistemas de propriedade mais concentrados do mundo. Durante entrevista com Carta Maior ele repassou a história das manobras das oligarquias jornalísticas na defesa de seus privilégios.

Uma história cuja origem é anterior ao golpe de 1964 e continua ate hoje com campanhas da mídia e da oposição tucana, destinadas a intoxicar o debate público.

- Qual a importância da eventual participação de Lula na batalha por mudanças na mídia?

Acho que a participação de Lula será muito importante, será extraordinária. Agora temos que aguardar, mas é fato que o presidente Lula teve uma postura clara sobre esta questão. Ele está realmente comprometido com mudanças na mídia.

Lula terá peso num debate que será muito intenso, um debate que com certeza será manipulado pela grande mídia...

É necessário que o debate chegue à sociedade, porque você só conseguirá mudanças se conseguir mobilização, porque existe uma relação de forças muito desigual no Parlamento, onde há uma maioria conservadora inimiga da regulação da mídia.

Temos de lembrar que essa discussão sobre democratização da mídia está sendo feita no Brasil há muitos anos, temos de recordar a Conferência Nacional da Comunicação em dezembro de 2009 e, no final do segundo governo Lula, em 2010, o ministro Franklin Martins (SECOM) realizou um seminário internacional, que trouxe representantes das agências reguladoras dos EUA, da Inglaterra, da Argentina, da França, etc. Esse material está todo disponível, foi um seminário boicotado pela mídia.

- Junto com o possível debate, aumentaram os ataques da mídia oligárquica contra Lula.

Sim, estão atacando duramente o Lula, na verdade os grandes grupos nunca deixaram de atacá-lo. Agora, nesses dias, até falaram que tem câncer de pâncreas (portal UOL), sinceramente é a primeira vez que ouvi falar que alguém tem câncer de pâncreas e não morre logo, porque o câncer de pâncreas mata em semanas. Claro que isso é mentira.

- O jornal Valor vinculou Lula ao financiamento do carnaval e do jogo do Bicho.

A gente acha que Valor tem um pouco mais de responsabilidade jornalística que O Globo, Estado, Folha porque é um jornal dirigido para empresários. Mas isso que você está me falando de Lula e os bicheiros até causa graça. A destruição de Lula é permanente em toda a grande mídia. É algo inacreditável.

Mas é verdade que o poder da mídia para determinação do voto já não é a mesma de 25 anos atrás, se você compara uma eleição de hoje com a eleição de Collor (1989) é uma eleição completamente distinta. Eu falo isso porque estudei profundamente aquela eleição que foi a primeira depois da ditadura. O país mudou, hoje as circunstâncias são completamente distintas, o nível educacional aumentou muito, você tem uma inclusão social e econômica que não tinha naquela época e você tem internet, que não é determinante, mas que é capaz de se contrapor à grande mídia como já foi comprovado desde as eleições de 2006. Então a grande mídia não tem o poder que já teve, mas ainda tem um poder desmesurado...

DILMA E BERZOINI

- Acha que a presidenta já arquivou a ideia de uma trégua com a grande mídia?

Um dos problemas que tivemos foi a ilusão dos governos, inclusive os governos de Lula e Dilma, de que é possível negociar com esses grupos. Em algum momento parece que Lula se deu conta de que isso não é possível, ali é possível explicar porque foi criada a Empresa Brasileira de Comunicação (segundo mandato). Acontece que a criação da EBC não foi seguida da construção de um sistema de mídia pública, que aliás é uma das coisas que não está regulamentada do artigo 223 na Constituição, o espírito desse artigo é o da complementaridade entre modelos público, privado e estatal.

Por outro lado, o Poder Executivo não apoia na medida necessária a construção de um sistema público que sirva de alternativa de qualidade ao sistema privado dominante.

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