segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

NA AMÉRICA LATINA PROGRESSISTA, HÁ GOVERNOS ARMADOS E GOVERNOS DESARMADOS



(Foto: www.donosdamidia.com.br)
Os governos do Brasil, Chile e Peru são desarmados: não têm poder de mobilização popular, não regularam a mídia e não construíram uma mídia contra-hegemônica. Centrando o olhar no Brasil: o governo vive permanentemente acuado, à mercê da agenda imposta e conduzida pela TV Globo, jornalões e revistas, a serviço das forças de direita.

Por Jadson Oliveira, jornalista/blogueiro – editor do blog Evidentemente (artigo publicado em 19/01/2015)

De Salvador (Bahia) - O “armados” e “desarmados” aí no título não tem nada a ver com fuzil, metralhadora, míssil e etc, mas tem tudo a ver com uma arma moderna muito letal na guerra chamada de quarta geração: a informação, a desinformação, a contra-informação para construir a hegemonia no pensar e no sentir.

Comecei a pensar nisso quando li, num dia desses, no site Brasil 247, uma matéria com o título “Como e porque a esquerda tomou a América Latina”. Foi logo encima da vitória da Frente Ampla na última eleição no Uruguai. É um primor de simplificação e exagerado otimismo, do ponto de vista nosso, da esquerda.

A matéria alinhava na esquerda os governos, considerados progressistas, de oito países: além do Uruguai, eram incluídos Argentina, Brasil, Bolívia, Venezuela, Equador, Chile e Peru (às vezes a gente fala “América Latina” quando na verdade estamos falando apenas da América do Sul, é o caso. Ficam de fora, portanto, Colômbia e Paraguai, com governos claramente de direita; e os três lá encima no mapa: Guiana e Suriname, sobre os quais geralmente nada sabemos, e Guiana Francesa, que ainda é colônia).

Ora, alinhar os oito governos citados como progressistas já é forçar a barra, citá-los como de esquerda é dose pra leão, mesmo mencionando as naturais diferenças e/ou as supostas diferenças, como a matéria faz. Aliás, na imprensa brasileira, inclusive na blogosfera progressista, na qual modestamente insiro este blog Evidentemente, acredito que o conceito de esquerda é muito impreciso. Para exemplificar com o governo brasileiro: não seria mais preciso defini-lo, no espectro político-ideológico, como de centro-esquerda (com elásticas alianças ao centro e à direita que se estendem até a ultra-direita)?

Talvez possamos, didática e simplificadamente, ainda dentro duma visão tradicional da esquerda, ortodoxa, tentar um tipo de classificação desses oito governos, passando ao largo da realidade da economia – ou seja, deixando de fora um aspecto fundamental -, que se mantém nos marcos do capitalismo, alguns majoritariamente, outros totalmente.

Então – vamos em frente no “talvez” -, talvez possamos classificar os governos da Venezuela, Bolívia e Equador como de esquerda, porque abraçam, assim ou assado, a luta pela construção do Poder Popular, do socialismo, a luta anti-capitalista. Os do Brasil, Argentina, Uruguai e Chile podem ser arrolados como de centro-esquerda. No caso do governo do Peru, creio que o mais correto é considerá-lo de centro ou centro-direita, embora tenha sido eleito com um programa de centro-esquerda.

Vejamos os armados e os desarmados

Mas o que eu queria realmente com este artigo era sair desta visão tradicional da esquerda e propor uma classificação inovadora, como dou a entender no título: governos armados e governos desarmados. Devido à visão que venho desenvolvendo nesses últimos oito anos de viagens e acompanhamento (inclusive via Internet) da política na América Latina, o que tento refletir neste meu blog.

Vamos lá: dentre os oito aqui na berlinda, quais seriam os governos armados? Os da Argentina, Venezuela, Bolívia e Equador. Por que? Porque conseguem atuar em conjunto com a mobilização e participação popular e avançaram na regulação dos meios de comunicação e na construção de uma mídia contra-hegemônica.

Já os governos do Brasil, Chile e Peru são desarmados: não têm poder de mobilização popular, não regularam a mídia e não construíram uma mídia contra-hegemônica. Centrando o olhar no Brasil: o governo vive permanentemente acuado, à mercê da agenda imposta e conduzida pela TV Globo, jornalões e revistas, a serviço das forças de direita, dos interesses anti-nacionais e anti-populares. E não é apenas a agenda política propriamente dita. Trata-se de uma hegemonia esmagadora na linguagem, nos costumes, no entretenimento, nos temas culturais em geral. O governo e as forças democráticas, populares e de esquerda exercem apenas o direito de espernear através de alguns poucos veículos de imprensa, e através da blogosfera e redes sociais. A Constituição proíbe monopólios e oligopólios, mas é letra morta, e o governo ainda ajuda a enriquecer os barões da mídia com as verbas de publicidade.

Ainda de olho no Brasil, vou dar um exemplo que considero escandaloso: como admitir que um juiz do Supremo Tribunal Federal bloqueie na corte de justiça mais alta do país a tramitação de uma ação, já com decisão definida – está em 6 a 1, já com a maioria garantida -, durante meses e meses (se chegar até abril completa um ano), num assunto da mais alta relevância: derrubar o financiamento das campanhas eleitorais pelos empresários, uma fonte inesgotável de corrupção, conforme ação impetrada pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). E esse juiz passa ileso perante a sociedade, porque sua atuação política se coaduna com a posição da grande imprensa. Seus colegas de corte não reclamam ou sua reclamação não consegue obter eco na mídia?

Deixei à parte o governo do Uruguai, porque está numa posição intermediária. Seu projeto de regulação da mídia acaba de ser aprovado no Senado e deverá ser aprovado também na Câmara dos Deputados, proibindo o monopólio na radiodifusão. Já existe uma certa regulação feita através de decretos e a tendência agora é que tal regulação se amplie e se consolide. Além disso, o Uruguai tem um passo à frente neste tema, ao contrário do que acontece com seus vizinhos Brasil e Argentina: é estatal a forte empresa de telecomunicações, a Antel.

Este é o quadro, pintado a largos traços, na nossa Pátria Grande, denominação de uso frequente entre nossos vizinhos – menos no Brasil, claro. Faltaria afunilar muitas das informações apenas anunciadas. Por exemplo: como se manifesta esse “desarmamento”? No caso do Brasil, teríamos muito a estudar e discutir. E nos outros casos também. Penso em fazê-lo na medida do possível.

Última observação: a fraqueza ou a força do governo “progressista” tem tudo a ver com a fraqueza ou a força do movimento democrático, popular e de esquerda (partidos, sindicatos e demais movimentos sociais).

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