domingo, 25 de janeiro de 2015

ALFREDO MANCILLA: EVO MORALES, PRESIDENTE RÉCORDE



(Foto: EFE/Página/12)
"Não há marcha atrás: o neoliberalismo está morto na Bolívia. (...) (Agora é necessário) ir driblando o ameaçador rentismo importador do século 21, que constitui uma nova forma de neodependentismo do capitalismo mundial".


Por Alfredo Serrano Mancilla (*) – no jornal argentino Página/12, edição de 23/01/2015


Parece haver transcorrido mais de um século desde aqueles momentos em que o presidente boliviano Evo Morales estava submetido ao que o mesmo vice-presidente Alvaro García Linera chamara o “empate catastrófico”. Haviam ganho as eleições de fins de 2005 por maioria absoluta e as eleições para a Assembleia Constituinte de 2006, porém isso, de maneira alguma significava que a disputa política havia pendido definitivamente a favor da Revolução Democrática e Cultural proposta pelo MAS (Movimento ao Socialismo). Eram meses nos quais os constituintes massistas (do MAS) tiveram que sair literalmente fugindo depois de serem perseguidos em Sucre ou nos quais o próprio presidente não podia nem aterrissar em aeroportos do próprio território nacional. Eram anos difíceis em que a outra metade do país, a chamada meia lua, não reconhecia um presidente que havia chegado para iniciar um processo acelerado de mudança a favor da maioria social boliviana. Foram momentos complicados próprios da política, com sua essência confrontativa, nessa etapa inicial em que a Bolívia vinha mal acostumada, de uma longa época quando o consenso vinha a ser realmente um dissenso, nos quais uma minoria impunha qualquer “acordo” contra a maioria.


Devagar e sempre (“con buena letra y a fuego lento”), Evo Morales foi logrando que uma proposta contra-hegemônica fosse transitando rumo a uma sólida hegemonia pós-neoliberal em múltiplas dimensões. No econômico, se questiona o modelo vindo de fora ao mesmo tempo em que se vem construindo outra organização econômica com base na recuperação dos setores estratégicos; se foram substituindo paulatinamente os Chicago Boys pelos Chuquiago Boys (economistas formados nas universidades bolivianas). Nestes anos, a democratização econômica e a melhora microeconômica vieram acompanhadas duma inquestionável bonança macroeconômica. No social, Morales trouxe consigo uma política de redistribuição que abandona a velha e ineficaz teoria do conta-gotas; foi enterrando o velho Estado aparente (um Estado de Bem-estar em miniatura) em troca dum novo Estado integral do Viver Bem, que centrou toda sua atenção em erradicar a dívida social herdada na maior velocidade possível. Quando as urgências conjunturais são tão destrutivas para a vida cotidiana do povo boliviano (fome, desnutrição), não se pode nem se deve ter demasiada paciência para resolvê-las. Neste sentido, o presidente aymara apresentou desde o primeiro momento uma economia humanista do agora, economia do já, na qual os direitos sociais constituem a centralidade inegociável da nova política econômica do Estado. E em relação ao internacional, o novo processo de mudança considerou desde sempre que só é possível uma transformação adequada internamente se esta vem acompanhada por uma reinserção ao seu redor a partir de critérios reais de soberania, com uma clara aposta por uma emancipada integração latino-americana e buscando resituar-se virtuosamente na atual transição geoeconômica que permita definitivamente reverter os padrões de intercâmbio desigual do passado.


É assim que Morales enfrenta o desafio de assumir um novo mandato presidencial tanto simbolicamente em Tiwanaku como institucionalmente. Este período não pode ser concebido como um período qualquer; Evo Morales será o presidente que terá estado mais tempo ininterrupto como presidente a partir do final do ano, chegando a superar Andrés de Santa Cruz (entre 1829 e 1839). Não é um dado menor num país que presumia deter o récorde no número médio de presidentes por ano nas últimas décadas. É realmente uma mostra inequívoca do novo sentido comum na Bolívia, próprio de uma mudança de época em que se avança de forma irreversível. Não há marcha atrás; o neoliberalismo está morto na Bolívia. E a partir desta conquista, indo em frente, Morales encara estes próximos anos com renovados desafios nos aspectos produtivo e tecnológico, com a necessidade de ir driblando o ameaçador rentismo importador do século 21 que constitui uma nova forma de neodependentismo do capitalismo mundial. Seguramente também será necessário antecipar-se às novas interrogações que virão de um sujeito social majoritário mutante que já não é aquele das décadas perdidas; esta década ganha em curso afortunadamente começa a enterrar velhas demandas para reabrir novos horizontes. E será Evo Morales, com amplo respaldo popular, que terá de pilotar neste caminho com o objetivo de que o “vamos bem” da última campanha eleitoral possa voltar a se repetir na próxima contenda.

* Diretor do Centro Estratégico Latino-americano de Geopolítica (Celag). Doutor em Economia.


Tradução: Jadson Oliveira

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