O BOSQUE DA VERDADE: A CARTA DE CRISTINA PARA OBAMA (Argentina x fundos abutres)

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(Foto: Carta Maior)

O governo argentino acredita que não há nenhuma chance de o presidente Barack Obama intervir a favor da Argentina na disputa com os fundos abutre.

Por Martín Granovsky, do Página/12 - reproduzido do portal Carta Maior, de 01/11/2014

O governo argentino parece ter chegado a um diagnóstico, a um plano de ação e a uma decisão diplomática. O diagnóstico seria o seguinte: não há nenhuma chance de o presidente Barack Obama intervir a favor da Argentina na disputa com os fundos abutre de agora até o final de seu mandato em 2017. O plano de ação consistiria em interpelar Obama sem mediações diplomáticas e em público. A decisão da política externa, que se desprende dos passos anteriores é deixar registrada a existência de um conflito com os Estados Unidos, e já não somente com os abutres. O primeiro passo da decisão foi ter recorrido à Corte Internacional de Haia. O segundo foi a carta enviada na sexta-feira (31) pela presidenta Cristina Kirchner ao seu par da Casa Branca, tuitada por ela mesma nas redes sociais.

O escritório de desclassificação de documentos, presidido por Nancy Soderberg, é importante por suas relações com o mundo da inteligência e da segurança nacional dos Estados Unidos. Na lista de integrantes, acessível clicando em http://1.usa.gov/1qaZZnI, é possível ver que outro dos membros designados pelo Poder Executivo, Martin Faga, tem experiência prévia em um departamento de reconhecimento marginal. Proposto pelo Congresso, o almirante William Studeman exercia anteriormente a função de subdiretor da CIA.

No link http://www.atfa.org/about-us/ é possível ver os doadores da Força de Tarefa norte-americana para a Argentina. Um dos membros e doadores é o fundo Elliot, do abutre Paul Singer. No site da AFTA, um texto proclama que o objetivo é influenciar sobre legisladores e mídia para conseguir que o governo dos Estados Unidos busque um acordo negociado entre Argentina e credores norte-americanos. O texto não diz, mas é óbvio que não se refere aos credores que entraram no acordo de troca da dívida em 2005 ou em 2010. Nesse caso, já há acordos firmados e em vigência.

Sim, como sugere a presidenta, a Nancy Soderberg da ATFA é a mesma Nancy Soderberg da Junta de Desclassificação de Interesse Público, se seria uma funcionária que pressiona a favor de interesses privados e atua buscando exercer influência sobre o mesmo Estado de que faz parte. Não seria somente a famosa porta giratória pela qual um funcionário sai e se transforma em lobista, mas depois deixa de ser e volta a ser um funcionário.trata-se de alguém que faz isso simultaneamente.

Se isto de fato for assim, não fará mais do que confirmar a importância de Singer no sistema político norte-americano. Na próxima terça-feira, 4 de novembro, haverá eleições legislativas. O Senado, hoje nas mãos dos democratas, renovará 33 de 100 cadeiras. Os republicanos aspiram ficar no controle da Câmara Alta. Buscam também ter maioria na Câmara de representantes (deputados), onde atualmente têm 234 legisladores próprios contra 201 democratas.

O doador dos doadores é Singer, que é também a chave para juntar outros financistas. O abutre joga para os republicanos enquanto contrata pessoas de tradição democrata como Soderberg, várias vezes funcionária de Bill Clinton. Meter-se no coração do Congresso e de suas negociações é um modo de ter Obama sob controle, um político que Singer quer enfraquecer por considerá-lo muito permeável aos partidários da regulamentação financeira.

Neste bosque - o da verdade, onde também entrou o governo argentino - o lobo de Wall Street seria um poodle.

Tradução: Daniella Cambaúva

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