sexta-feira, 7 de novembro de 2014

ENCONTRO DISCUTE PROPOSTAS PARA UMA FRENTE DE ESQUERDA

Kadu Machado
(Foto: Kadu Machado/Carta Maior)

Reunião do Instituto Casa Grande acolheu lideranças de partidos que se uniram no segundo turno da campanha da reeleição de Dilma.


Por Léa Maria Aarão Reis, no portal Carta Maior, de 06/11/2014

Duas semanas depois da vitória da presidente Dilma Rousseff nas urnas, a primeira reunião do Instituto Casa Grande, tradicional ponto de encontros políticos das esquerdas, no Rio de Janeiro, acolheu diversas lideranças de partidos que se uniram no segundo turno da campanha da reeleição: o ex-deputado federal, Vivaldo Barbosa, um dos fundadores do PDT; o ex-senador Saturnino Braga, presidente do Instituto; deputado federal Alexandre Molon, do PT; Daniel Iliescu, do PC do B (ex- UNE) e João Pedro Stédile, coordenador do MST, Movimento dos Sem Terra,  representando movimentos populares.

Com o tema A conjuntura à luz do resultado eleitoral foi mostrada, basicamente, a necessidade imediata da construção de uma Frente de esquerda neste “momento muito radicalizado,” como diz Vivaldo Barbosa, depois de “o povo brasileiro ter resistido e mostrar que soube discernir após dois, três anos de massacre da mídia acirrando o conservadorismo na sociedade e estimulando um conflito político, ideológico e de classe.”

Para o ex-senador Saturnino Braga, a situação, agora, é desafiadora: “O quadro político é preocupante, a base de governo está dividida, tenta-se chantagens, os apoios são pragmáticos e há dificuldades econômicas.” Para Stédile, até aqui os governos progressistas conseguiram se eleger com a conciliação de classes:

“Banqueiros, classe média, camponeses, estavam todos juntos; eram governos para todos e todos ganhavam – embora os banqueiros sempre ganhem mais,” ironizou. “Os tempos hoje são de confusão e mudança. Devemos achar os melhores caminhos, organizar a mobilização, retornar às ruas e promover uma grande Frente de partidos, movimentos populares e trabalhadores.”

Molon lembrou duas iniciativas históricas do primeiro governo Dilma: a aliança com os Brics e fundação do banco do grupo, e a alteração da legislação brasileira do petróleo. Ele observou que a unidade da esquerda no Rio, durante a campanha para o segundo turno “criou um clima de união e está formando um campo político. O olhar do PSOL para a bancada do PT, na Câmara, já mudou um pouco a relação, para, juntos combatermos essa nova direita que não tem mais vergonha de mostrar a cara.”

Daniel Iliescu salientou a importância da “raiz e do lastro da militância organizada, durante a campanha eleitoral, trabalhando voto a voto junto a “uma juventude que não viveu o governo FHC para comparar com o que ela vive agora.  Mas o
novo governo  Dilma precisa chamar o povo e saber mobilizar.”

A mobilização já começou. Para o dia da posse da presidente Dilma, primeiro de janeiro, grandes festas de celebração em todo o país serão programadas. Antes, dias 13 e 14 deste mês, em Brasília, haverá o Fórum de Comunicação Pública no auditório da Câmara dos Deputados; e dia 04 de dezembro, o Fórum de Comunicação: o papel da mídia na formação da opinião pública, às 18 horas, no auditório da Câmara Municipal do Rio de Janeiro (Inscrições nos respectivos sites).

Na análise de Saturnino Braga “o que mais preocupa são os olhos de cobiça voltados para o petróleo e para a Petrobras. Representantes de interesses, no exterior, e órgãos de espionagem vão agir, agem sutilmente, nos subterrâneos, e são competentes na espionagem e no processo de rachar um país como fizeram com a sociedade venezuelana. Nosso êxito e fracasso dessas manobras vão depender do PT e de seus aliados ideológicos, base de sustentação do governo e de apoio incondicional, irrestrito, sem exigências. O contrário é o risco do desmonte de um projeto. Não se trata de radicalizar; agora é hora de negociar, agir politicamente e participar do diálogo. Porque a CIA sabe colocar lenha na fogueira.”

Para Vivaldo Barbosa, “a liderança nacional de Lula infelizmente não promoveu a mobilização que se fazia necessária. Faltaram alianças. Com forças nacionalistas das forças armadas, por exemplo. Outras foram equivocadas. E Gilmar Mendes age de acordo com a mídia. De um modo incompatível com sua  função. Mas as cabeças, agora, se abrem para esta oportunidade, para a ação política de esquerda, o que na História é uma chance rara de ocorrer. Realinhando forças, as esquerdas têm que se aglutinar e aproveitar a nitidez política deste momento.”

Retomada do estado e distribuição de renda foram bandeiras dos últimos doze anos. “Agora não adianta dizer e repetir eu fiz,”  comenta Stédile. “Temos que discutir problemas reais: oito milhões de jovens se apresentando para o Enem e 1 600 vagas. Os empregos existem, sim, mas muitas vezes são de má qualidade.

Temos que discutir a crise de representação política no Congresso. Retornar  às ruas, organizar uma Frente de classe,   do povo. Frente popular não pode ter viés político partidário. Mudar estruturas e promover outras reformas, além da política e da mídia: a tributária e a urbana. Agir contra as três armas da burguesia – no poder judiciário (supra-sumo da burguesia), no Congresso e nos meios de comunicação.

E o mais importante: “Parou-se de fazer educação política. Não há discussão sobre o país. Consome-se.”

Para Daniel, “os sociólogos da Globonews costumam falar sobre a necessidade da alternância de poder. Que ironia! Temos um governo de apenas doze anos se contrapondo aos 500 de exclusão histórica.” E prossegue: “O momento é de aprofundar o debate sobre o plebiscito, a reforma política, o vexame do financiamento empresarial. Abrir caminho para os jovens que estiveram nas ruas em julho, mas não ganharam em outubro. Continuar mobilizados na Praça de Belfort Roxo, na Baixada, na lona da Maré, na Cinelândia, no Casa Grande.”

O Deputado Alexandre Molon, do PT: “Essa vitória tem um significado maior, semelhante ao de quando se vence apertado. Tentaram esconder a nossa vitória. Ela não se mede por pontos percentuais. Dois dias depois da eleição encontramos, em Brasília, um Congresso raivoso e ressentido, sem desejo de dialogar e procurando dividir o país. A disputa para a presidência da Câmara é importante para emparedar a oposição. A questão dos Conselhos Populares foi usada para isolar o PT e o PCdoB. O recado: quem se encontra isolado não pode ser presidente da Câmara.” E concluindo: ”O governo tem que pautar o Congresso; não o contrário.”

Depois de comentar que “a burguesia sequestrou a democracia no país”, João Pedro Stédile resumiu o estado de ânimo das lideranças presentes dizendo: ”Nunca estive tão otimista. Agora as coisas estão mais claras.”

Dezenas de depoimentos emocionantes de militantes que trabalharam sem descanso para reeleger Dilma Rousseff  se seguiram às falas dos que estavam na mesa. Uma reunião de forças vivas, mobilizadas, que varou a noite.

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