quarta-feira, 19 de novembro de 2014

#CadeDavi: JOVEM SOME APÓS ABORDAGEM POLICIAL EM SALVADOR (BAHIA). SUMIÇO JÁ DURA 25 DIAS

Jovem de 16 anos sumiu em 24 de outubro | Foto: Reprodução/Facebook
Jovem de 16 anos sumiu em 24 de outubro | Foto: Reprodução/Facebook
Testemunhas dizem que Davi Fiuza foi amarrado, encapuzado e colocado no porta-malas da viatura por policiais 

Por Luís Adorno, no site Ponte - Segurança Pública, Justiça e Direitos Humanos, de 17/11/2014

Davi Fiuza, jovem negro, 16 anos, está desaparecido desde o dia 24 de outubro de 2014. Segundo a mãe do garoto, a vendedora Rute Fiuza, de 46 anos, moradora do bairro de Periperi, na periferia de Salvador (BA), testemunhas viram o jovem sendo encapuzado e tendo os pés e mãos amarrados por PMs durante uma abordagem, por volta das 7h30, no bairro de São Cristóvão, próximo ao aeroporto internacional de Salvador (BA). Desde então, o garoto, que morava com o pai no bairro onde foi capturado, sumiu. A Corregedoria da PM afirma que investiga o caso.

Há 24 dias, a família faz buscas incansáveis sobre o paradeiro do garoto em delegacias, hospitais, IML (Instituto Médico Legal) e até mesmo em locais conhecidos por serem desovas de corpos. Até agora, nenhuma resposta. A mãe do garoto diz que agentes do Peto (Pelotão de Emprego Tático Operacional) e Rondesp (Rondas Especiais) foram os responsáveis pelo sumiço. “Amarraram os pés, as mãos e o encapuzaram com as próprias fardas que vestiam. Depois, jogaram o meu filho dentro do porta-malas de um carro descaracterizado”, afirmou.

Sem nenhuma resposta da SSP (Secretaria da Segurança Pública) e da Corregedoria da PM, amigos e familiares do menino decidiram agir. Criaram um “tuitaço” às 10h de quinta-feira (13/11), com as hastags #CadeDavi e #SomosTodosDavi, com o objetivo de chamar a atenção de todo o Brasil para o caso. Na sexta-feira (14/11), também às 10h, a manifestação “Polícia Militar, devolva Davi Fiuza vivo”, que reuniu cerca de 30 pessoas, ocorreu na frente da SSP do estado
Meu filho não é jogador. Quando o Daniel Alves sofreu uma ofensa, fizeram aquilo tudo de ‘somos macacos’. E com o meu filho e outros filhos negros que continuam sumindo na Bahia?”,  Rute, mãe de Davi. 
Segundo Rute, Davi estava conversando com uma vizinha quando a polícia fez a abordagem. “Não fazia nada de errado. Eu mesma paguei táxi para levar duas testemunhas até a delegacia. E nada até agora”, diz. Procurada, a Secretaria da Segurança Pública não se manifestou. Em nota, a PM disse que está apurando o desaparecimento de Davi Fiuza e que as testemunhas que denunciaram o caso à mãe do menino, além da própria Rute, já foram ouvidas pela Corregedoria.
“Com toda essa repercussão, o governo está completamente calado. Como somem assim com uma pessoa?”, Rute.
Davi Fiuza e Rute Fiuza no último Natal | Foto: Reprodução/Facebook
Davi Fiuza e Rute Fiuza no último Natal | Foto: Reprodução/Facebook

Na vizinhança, Davi Fiuza era querido por todos. O sonho dele, segundo Rute, era ser boxeador. “Meu filho sempre fez artes marciais. Ele havia acabado de se matricular em uma escola de boxe”, disse. Com dificuldade de aprendizado na escola, ele deixou o colégio no início deste ano. Completou apenas a terceira série. “Ele não era envolvido com absolutamente nada de errado. Ele queria viver do esporte”, diz a mãe.
“Mesmo que fosse envolvido com algo (o que meu filho não era) ninguém, principalmente o Estado, tem o direito de sumir com uma pessoa”.
Rute afirma que estava desempregada há alguns meses. Só em novembro, recebeu duas boas propostas de emprego em um shopping de Salvador. “Como eu poderia aceitar nessas condições? Tenho que achar meu filho primeiro”, disse. Ela e suas outras quatro filhas já pensam em deixar a Bahia. “Uma das minhas filhas tem um ponto comercial no mesmo bairro que ele sumiu. Já parou de ser frequentado”, afirmou. “A gente vai se mudar, assim que acharmos o meu filho. Estamos andando na rua com medo de que alguém possa estar nos seguindo”, diz.

A mãe já não consegue mais chorar porque “as lágrimas se esgotaram”. Desde o desaparecimento do filho, ela diz que não dorme, não trabalha e fica o dia inteiro na rua atrás de Davi. Já sem dinheiro, ela diz que não vai desistir de encontrar o filho, “e com vida”.

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