segunda-feira, 10 de novembro de 2014

BRASIL: ESTAMOS QUASE DESARMADOS NA BATALHA CONTRA A MÍDIA HEGEMÔNICA



(Foto: Internet)

Não devemos nos iludir: a hegemonia cultural da direita na sociedade brasileira, através dos valores ditados pela TV, rádio, jornal e também pela internet, é esmagadora. Assim, mesmo ganhando eleições, nunca avançaremos rumo a uma sociedade mais justa, mais solidária e mais fraterna.

 

Por Jadson Oliveira (jornalista/blogueiro) – editor do blog Evidentemente (publicado em 10/11/2014)

 

De Salvador (Bahia) - O movimento democrático, popular e de esquerda no Brasil e os governos de Lula/Dilma precisam reconhecer cabalmente o quanto estamos desarmados diante da batalha contra a mídia hegemônica. O espetáculo de manipulação e mentiras na recentíssima campanha eleitoral, apesar de não ser novidade – talvez apenas um nível maior da baixaria – e de ser um natural desenvolvimento do dia-a-dia “normal”, parece ter ajudado a disparar o alarme na percepção de muita gente e, particularmente, de Lula e da presidenta Dilma.


Me parece que os dois já avançaram, finalmente, para a posição oficial do PT de que é necessário buscar a regulação “econômica” dos meios de comunicação, visando acabar os monopólios e oligopólios, como, aliás, determina a nossa Constituição de 1988. Mas não vamos esquecer de que a distância entre o reconhecimento da necessidade e o botar mãos à obra buscando tal regulação pode ser bem grande.


Não só devido ao tremendo poder dos monopólios e às vacilações já bastante conhecidas de um governo que, “naturalmente”, procura se equilibrar atraindo forças políticas do centro e da direita e fazendo mais concessões econômicas aos setores que detêm, de fato e secularmente, o poder (o grande empresariado, o capital financeiro, etc, etc, com quem a “mídia gorda” está associada).


Não só devido a isto, repito, mas muito especialmente devido à fraqueza daí decorrente do movimento democrático, popular e de esquerda. Um movimento que foi enfraquecido inclusive pelos governos apelidados de “petistas” (na verdade uma mixórdia de centro-esquerda, centro, direita e ultra-direita), vítima da cooptação, desmobilização e acomodação no bojo dum processo de despolitização (suicida, do ponto de vista da esquerda) que vem apodrecendo a sociedade brasileira.


Ultimamente li dois artigos interessantes ressaltando o fio da navalha por onde passamos diante da ameaça iminente de retrocesso com a possível vitória de Aécio, ou seja, com a ameaça da direita chegar com força total, TAMBÉM, ao Poder Executivo: ‘Por que a Dilma quase perdeu (E o que fazer para não correr mais esse risco)’ e ‘O frio na barriga teria sido evitado se houvesse lei de meios’, ambos no portal Carta Maior, de dois valorosos cientistas sociais, Emir Sader e Laurindo Lalo Leal Filho, respectivamente.


Emir Sader chega a uma conclusão que considero fundamental: “Essa a primeira e principal reforma que o Brasil precisa implementar”, diz ele após mencionar a necessidade de se democratizar a comunicação e de “fortalecer exponencialmente as mídias publicas já existentes e os meios alternativos de comunicação – as rádios, as TVs, a internet, os jornais”.


“A primeira e principal reforma”, diz ele e eu acrescento reforçando: porque imagine, por exemplo, a que reforma política (uma proposta hoje na pauta) vamos chegar com um Congresso Nacional ainda mais dominado pela direita como saiu desta última eleição; e com os monopólios da mídia desconstruindo e estigmatizando qualquer coisa que cheire a uma reforma democrática e popular, que cheire a uma conquista de um sistema eleitoral menos corrupto, inclusive, claro, com o fim do financiamento das campanhas pelas empresas.


(Por falar nisso, o ministro Gilmar Mendes está segurando o processo sobre o tema, já com a votação garantindo a vitória contra o financiamento: um escândalo sobre o qual a chamada grande imprensa silencia).


Daí que temos de ser mais enfáticos em realçar que estamos quase desarmados na batalha contra a mídia hegemônica. O “quase” vai por conta dos nossos bravos blogueiros “progressistas” (ou “sujos”), os quais, creio, já têm atualmente um peso razoável. É bastante observar o papel que jogaram na campanha eleitoral desmascarando farsas como Marina e Aécio. E também alguns outros sites e alguns veículos "de papel" como as revistas Carta Capital e Caros Amigos e o jornal Brasil de Fato.


Temos, então, de ser mais enfáticos. Ouso afirmar – me desculpem a pretensão - que não cabe dizer, como diz nosso Emir Sader, que é preciso “fortalecer exponencialmente” as mídias públicas e os meios alternativos. O que é preciso, sim, é CONSTRUIR mídias públicas e meios alternativos. Botar na cabeça que não temos quase nada, não temos o poder da palavra, não temos o poder de falar às grandes massas e as grandes massas não têm meios pelos quais possam se expressar livremente.


Conclusão: temos que CONSTRUIR uma mídia contra-hegemônica, além de lutar pela regulação econômica do setor. Sem isso, somos tal e qual um exército sem armas.


Exemplo da nossa indigência: ao se defender uma lei de democratização da mídia, gastamos a metade do tempo em dizer, reiterar, repetir à saciedade, que estamos defendendo a liberdade de expressão para todos, para o povo, não só para as empresas de comunicação; que somos contra a censura, que fomos nós – e não a Globo e os jornalões – que lutamos durante a ditadura contra a censura.


Por que temos que bater e rebater nessa tecla? Porque os donos da palavra são eles, os monopólios, e eles já encheram a mente e o coração da sociedade da versão deles, segundo a qual os “petistas” querem controlar a imprensa, querem implantar a ditadura, querem censurar a imprensa.


Regulação econômica é conversa pra boi dormir, o governo “petista” quer mesmo é controlar a imprensa, o conteúdo dos noticiários, dizem os monopólios e são ouvidos pela maioria, pois eles têm a maioria dos meios de comunicação e podem construir (vêm construindo há muito tempo) a hegemonia ideológica e cultural na sociedade.


Não devemos nos iludir: a hegemonia cultural da direita na sociedade brasileira, através dos valores ditados pela TV, rádio, jornal e também pela internet, é esmagadora. Assim, mesmo ganhando eleições, nunca avançaremos rumo a uma sociedade mais justa, mais solidária e mais fraterna.


Provocação final: o que você acha, numa conjuntura dessa, dos governos Lula/Dilma manterem uma política de perseguição às poucas rádios e TVs verdadeiramente comunitárias?

Um comentário:

Jadson disse...

De Geraldo Guedes: (recebi, via e-mail, do velho companheiro de luta sindical e revolucionária, hoje advogado em Brumado-Bahia, o comentário abaixo, com o pedido para que o colasse aqui):

- Valeu Jadson. Muito bom seu artigo. Aliás, digo mais, ainda não li artigos de blogueiros "sujos" sobre o tema, melhor que o seu. Parabéns. Vou enviá-lo aos meus amigos. Grande abraço. -