domingo, 2 de novembro de 2014

ARAM AHARONIAN SOBRE A REELEIÇÃO DE DILMA: RESPIRAMOS MAIS TRANQUILOS, MAS...



(Foto: Ricardo Stuckert/Carta Maior)

Estaremos mais tranquilos quando o PT, em sua quarta administração consecutiva, conseguir avançar nas transformações que ainda deve ao seu povo.

Por Aram Aharonian (jornalista uruguaio, já viveu na Argentina e atualmente vive na Venezuela), no portal Carta Maior, de 27/10/2014

Com a vitória de Dilma, respiramos mais tranquilos na América do Sul. Neste domingo estava em jogo muito mais do que a mudança ou a continuidade do projeto de seu governo. Estava em jogo a definição do mapa geopolítico regional, processo em que também deve ser incluída a contundente vitória eleitoral de Evo Morales na Bolívia, o segundo turno no Uruguai dentro de um mês e as eleições presidenciais da Argentina no próximo ano.

Dilma não venceu somente Aécio Neves, mas também o terror midiático do poder do conglomerado comunicacional. Não é por acaso que, quando as pesquisas mostravam uma ligeira vantagem para Dilma, uma suja campanha propagandística contra a atual presidente tenha se intensificado por parte da imprensa nacional e internacional cartelizadas. Vale lembrar que, desde 2003, o PT não conseguiu avançar em uma lei de telecomunicações que acabasse com os oligopólios e democratizasse a comunicação.

Desde 2003, quando Luiz Inácio Lula da Silva assumiu a presidência, o Partido dos Trabalhadores conquistou transformações importantes para grandes maiorias brasileiras: tirou 40 milhões de pessoas da pobreza, reduziu o desemprego a níveis mínimos históricos, beneficiou as classes médias e conseguiu significativos avanços contra a fome no país, um dos de maior desigualdade no mundo. Porém, nos últimos tempos, a economia se desacelerou diante de um contexto global menos favorável, e o imaginário coletivo de um país com forte crescimento da década passada foi se desvanecendo, também graças à falta de uma política de comunicação.

Com seus 200 milhões de habitantes, o Brasil tem hoje a economia mais forte do Mercosul e da Unasul, e é uma das potências “emergentes” que fazem parte do grupo BRICS junto da Rússia, Índia, China e África do Sul. É o principal sócio comercial da Argentina e importante suporte para as economias cubana e venezuelana e o epicentro dos investimentos chineses na região.

Talvez seja certo que as políticas de Lula e Dilma tenham sido das mais tímidas dos projetos transformadores da América Latina. Não é menos verdadeiro que a direita não está mais forte porque cresce eleitoralmente, mas porque as políticas neoliberais dos governos progressistas desiludiram muitos de seus antigos simpatizantes, desmoralizaram e desmobilizaram outros.

Já não há uma forte esquerda no PT, partido que pagou o preço da burocratização e da cooptação dos dirigentes sociais para a gestão governamental. E mais: os movimentos sociais, que levaram Lula e Dilma ao poder, perderam as ruas diante da ofensiva social de uma direita fortalecida principalmente pelo apoio do grande capital estrangeiro e das mídias comerciais internas e estrangeiras. Mas há algo mais grave e é o vazio de ideias e propostas para sair da crise capitalista pela esquerda.

Resta a Dilma agora não apenas medir bem qual é sua situação e abandonar a resistência à ofensiva da direita para avançar na construção não apenas de uma alternativa, mas do poder popular que impeça estes sustos. A mídia internacional mostra somente vários escândalos de corrupção, inflação alta, serviços públicos deficientes.

Sobre o fim da campanha, a própria Dilma advertiu os eleitores, principalmente os mais pobres, de que um voto pelo PSDB implicaria em trazer de volta um Brasil mais desigual e socialmente injusto da década de 1990, quando se priorizou a busca pela estabilidade econômica e o ajuste fiscal a qualquer preço, a drástica diminuição do papel do Estado, priorizando os interesses privados nacionais e transnacionais, traçando um novo destino para os programas sociais.

Hoje respiramos um pouco mais tranquilos, sobretudo porque Aécio prometeu mudar drasticamente a política externa brasileira. Seu assessor, Rubens Barbosa, chefe do conselho de comércio exterior da poderosa Fiesp, a patronal Federação da Indústria do Estado de São Paulo, afirmou que tudo deveria ser mudado, começando pelas relações com os vizinhos para privilegiar as relações com os Estados Unidos e a União Europeia, mesmo prejudicando a produção industrial brasileira.

E ameaçou que a Bolívia perderia acesso ao crédito, a não ser que adotasse programas “confiáveis de combate às drogas”, Cuba não teria nenhum financiamento para obras de infraestrutura e o Mercosul passaria a ser tratado “como o que é: algo anacrônico que não serve aos interesses brasileiros”, com a nova função de esquecer-­se da integração para buscar a liberalização comercial unilateral, eliminando a cláusula que obriga os países do bloco a adotar decisões e ações conjuntas.

Para Barbosa (e Aécio Neves), o PT quis fazer uma união política contra os Estados Unidos no Mercosul, na Unasul e na Celac, destacou como uma prioridade superar o atual estado das relações com os EUA, prejudicadas após o escândalo de espionagem que atingiu inclusive o celular e o e-mail particular de Dilma Rousseff.

Certamente estas ideias reduziriam a América Latina a ser novamente o quintal dos EUA, exumando o cadáver da ALCA (Área de Livre Comércio das Américas), sepultado pelos presidentes em 2005. Respiramos mais tranquilos na América do Sul. Mas estaremos mais tranquilos quando o Partido dos Trabalhadores, em sua quarta administração consecutiva, conseguir avançar nas transformações que ainda deve a seu povo, construindo um verdadeiro poder popular, com o apoio dos movimentos sociais, dos trabalhadores urbanos e rurais, estudantes e jovens.

Tradução de Daniella Cambaúva

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