terça-feira, 4 de novembro de 2014

AMÉRICA DO SUL: ENSINAMENTOS DA VITÓRIA DO PT NO BRASIL



(Foto: AFP/Página/12)
Processos denegridos como populistas (no Brasil e países vizinhos) são capazes de continuar concitando o respaldo popular majoritário, apesar do desgaste de muitos anos no exercício do poder, das suas deficiências e da prédica adversa, bestial, de meios de comunicação que confirmaram ser os principais atores políticos do nosso tempo.

Por Eduardo Aliverti, no jornal argentino Página/12, edição de ontem, dia 3, com o título ‘A iniciativa’ (o título acima é deste blog)

Por sua relevância interna e seus ensinamentos para a região, é tão difícil como inconveniente escapar do influxo analítico exercido pela vitória eleitoral do PT. Você pode dizer o mesmo do triunfo da Frente Ampla no Uruguai, e o sucesso esmagador de Evo nas urnas que o apoiaram, mesmo nas áreas mais racistas da Bolívia. A combinação destes resultados em limpas, inquestionáveis, eleições, quando a direita se regozijava de estar às portas de um recuo generalizado das experiências progressistas continentais, dá um tom esperançoso que não confirma apenas a realidade do terreno em disputa: ratifica que os processos denegridos como populistas são capazes de continuar concitando o respaldo popular majoritário, apesar do desgaste de muitos anos no exercício do poder, das suas deficiências e da prédica adversa, bestial, de meios de comunicação que também confirmaram ser os principais atores políticos do nosso tempo.

Com um atrevimento que deveria ser inconcebível se não fosse porque se trata de exércitos jornalísticos em operações, a análise comunicacional do caso brasileiro foi chocante. Lá e aqui. Primeiro consistiu em dar por derrotada uma Dilma Rousseff  nas mãos de uma pregadora eco-evangélica que assumiu como seus todos os ditames do ideário neoliberal. Uma vende-ilusões clássica de retórica inflamada, nenhuma estrutura partidária nem liderança de rua. Esgotada esta instância, a aposta das grandes corporações virou-se para um playboy milionário, Aécio Neves, ao qual também deram como vencedor quase irreversível no segundo turno. Já na beira da votação, as pesquisas do establishment detectaram que uma boa parte do eleitorado, tendente a votar em Aécio, optaria por rejeitar o seu discurso terrorista sobre a economia e as conquistas do PT em seus 12 anos de gestão, que tiraram da pobreza estrutural cerca de 40 milhões de brasileiros. Lépidos, os gurus dessa direita mudaram seu prognóstico da noite para o dia. Disseram que a vitória de Dilma estava prevista e, desde já, não se preocuparam em fazer autocríticas sequer limitadas. Simplesmente, assinalaram que ao PT só lhe cabe tomar conhecimento de uma metade brasileira que desejaria voltar à direita explícita e que não deixará em paz a parte restante. Nessa versão da realidade midiática, os que compõem a metade vencedora seriam algo assim como 55 milhões de suicidas que, cedo ou tarde, verão o quanto seria mais conveniente que votassem em seus verdugos. Um dos pontos chaves da eleição foi que Aécio perdeu no estado que governou, Minas Gerais, mas a imprensa ultra-hegemônica do Brasil tampouco se deu conta de que, talvez, os mineiros aprenderam quão confiáveis eram as quimeras propostas por seu dândi. Somente se havia tratado de erros de comunicação e não de que uma maioria estreitíssima - mas afinal maioria (mais de 3 milhões de votos) -, deu as costas ao bombardeio propagandístico, desembestado, com que os meios de comunicação apoiaram o candidato opositor.

Emir Sader, um dos mais prestigiosos intelectuais latino-americanos, se somou entre aqueles que destacaram (Página/12, segunda-feira passada) a obviedade imprescindível de que, pela quarta vez consecutiva, os brasileiros reafirmaram o caminho começado por Lula. “Lula dizia que era melhor ganhar no segundo turno, porque, no embate dos dois projetos, as alternativas e suas diferenças ficam mais claras. E assim foi: ficaram bem nítidas políticas de centralidade do mercado, de livre comércio, de redução do peso do Estado, de arrocho salarial, de aumento do desemprego, de encolhimento dos bancos públicos, de alianças internacionais privilegiando os Estados Unidos, entre outras, por parte do candidato da oposição (...). O cansaço a respeito da campanha de denúncias (de corrupção) – muitas delas sem provas – fez com que esse tema perdesse força.”

É claro que qualquer semelhança desse conluio midiático-opositor com a situação argentina não é mera coincidência. Tampouco o é a apresentação eleitoral do candidato liberal uruguaio, Luis Lacalle Pou, como um santo descalço procedente do nada, com relatos escolares que o concorrente do Partido Colorado, Pedro Bordaberry, filho de um dos responsáveis pela ditadura de 1973, traduziu como se deve: “Venho para jogar merda em Tabaré”. Nenhum destes dados e conceitos pretende traçar uma imagem apologética dos modelos revalidados em curso. Só é questão de que se poderá discutir se o capitalismo redistributivo do Brasil merece ser considerado de esquerda, mas não que está à esquerda de quaisquer das opções realmente existentes. A pergunta é se Lula-Dilma-PT são uma alternativa esquerdista, ou se toda outra coisa significaria um retorno às cavernas neoliberais? É se Tabaré personifica um moderado bem comportado à direita de Mujica, ou a probabilidade mais à esquerda numa sociedade muito mais conservadora do que o sugerido pela simpatia que os uruguaios despertam? O Chile, com sua violência classista institucional e a variante Bachelet como único amortecedor social-democrata (digamos); a Venezuela, com sua batalha entre o projeto de “emancipación a los tumbos” (?), já sem líder, contra uma classe rentista selvagem; o Equador, entre Correa e outra direita igualmente brutal, representam alternativas similares acerca de como se constrói algum intento de avanço ou a segurança do retrocesso.

A ligeiríssima explicação que acharam os derrotados, para justificar suas derrotas eleitorais desses dias, é falar dum efeito ainda vigente graças à bonança internacional de que gozaram os populismos nos últimos anos. Listaram um par de elementos conhecidos. Um, a alta internacional do preço das matérias primas que exportam os países subdesenvolvidos. Dois, a baixa nas taxas de juros estadunidenses, em meio da crise que levou a Reserva Federal (Banco Central dos EUA) a imprimir dólares a granel para reativar a economia e que redirecionou capitais para os mercados emergentes. Não têm outra argumentação. Esquecem astutamente a explicação de que, em circunstâncias históricas similares, esse empurrão da conjuntura não foi aproveitado nos quintais para propiciar modelos de desenvolvimento mais ou menos autônomos, mais ou menos integrados regionalmente, mas para provocar dívida externa através de seus gestores locais. No nosso caso (caso da Argentina), Martínez de Hoz e seus antecessores e sucessores tipo (ex-ministro da Economia, Domingo) Cavallo, qualquer dos membros da AEA (Associação de Empresários da Argentina) e do IDEA (Instituto para o Desenvolvimento Empresarial da Argentina) e qualquer das siglas sob as quais se apresentam os promotores do livre mercado, a favor de maximizar sua taxa de lucro não importa a que custo social.

Quando se avalia o tamanho desta confrontação estrutural, bem no centro do sistema capitalista e não em suas margens “testimoniales” (?), fica muito reduzido o tamanho dos temas agitados pela imprensa contra esses modelos situados, pelo menos, à esquerda da direita. Inflação, segurança e corrupção são o trio exclusivo com que batem e rebatem. Com certeza não são assuntos superficiais. O que é menor, frívolo e ignorante, é a cínica pretensão de que um retorno às variantes neoliberais – por aqui (na Argentina) evitam chamar de menemismo (do ex-presidente Carlos Menem) porque dá vergonha – será a fórmula, mágica, instantânea, mediante a qual se acabaria com essas mazelas geradas historicamente pelos mesmos senhores corporativos que as denunciam. Não são receitas técnicas o que está em jogo (que também). É ódio de classe. É remeter a plateias cheias forçadamente para atos públicos, a aparatos clientelistas, construções de relato, lideranças demagógicas, tudo o que se fez para devolver um pedaço, um pedacinho do bolo aos excluídos de sempre. E para reparar setores de classe média cuja droga que aspiram não passa por compartilhar reconquistas, mas por sentir a felicidade de que há alguém abaixo e que ali deve continuar. Do contrário, como compensam a angústia de ser um eterno recheio de sanduíche?

Para piorar seus males, a oposição não encontra quem a corteje com credibilidade massiva a partir de suas ofertas políticas. São um esterco impotente, soube dizer recentemente um de seus próprios e mais repercutidos comunicadores. Seja em forma de carta enérgica ao presidente dos Estados Unidos por designar uma lobista dos fundos abutres, pelo crédito de reservas acordado com os chineses ou por um projeto de lei de telecomunicações que ninguém esperava, Cristina voltou a demonstrar que a iniciativa está em suas mãos. Os demais, invariavelmente, continuam militando em fazer comentários. Nenhum dos assuntos citados tira o sono das grandes maiorias, seguramente. Ninguém se desvela pelo enfrentamento contra o empregado principal do Império, nem em torno de saber se Argentina Digital beneficia a Telefónica contra Clarín. Mas poderia dizer que essa capacidade de iniciativa acumula intuição popular sobre para onde joga cada um, e o que é o que protege melhor.

No ano que vem se vota (na Argentina) e haverá de definir a marcha econômica conjuntural, o bolso de todos os dias, o dólar, as expectativas de curto prazo, bastante ou muito por cima de grandes concepções ideológicas. Mas justamente é esse o problema da direita. O que acontece se o andar da economia se revela melhor, menos arriscado, um tanto mais confiável, tripulado pelos que ideologicamente reconhecem que não podem nem devem ir para trás? Acaba de acontecer no Brasil e nas imediações. Poderia acontecer entre nós.

Tradução: Jadson Oliveira

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