segunda-feira, 13 de outubro de 2014

ATILIO BORON: AS RAZÕES DO TRIUNFO DE EVO MORALES



Evo faz a saudação ao povo, ao lado do vice García Linera e do chanceler David Choquehuanca (Foto: Página/12)
A rara sensibilidade para ouvir a voz do povo e dar a resposta consequente é o que explica que Evo tenha conseguido o que Lula e Dilma não conseguiram (no Brasil): transformar sua maioria eleitoral em hegemonia política.

Por Atilio A. Boron (cientista político argentino), no jornal Página/12, edição de hoje, dia 13

A esmagadora vitória de Evo Morales tem uma explicação muito simples: ganhou porque seu governo tem sido, sem dúvida alguma, o melhor da convulsionada história da Bolívia. “Melhor” quer dizer, com certeza, que fez realidade a grande promessa, tantas vezes descumprida, de toda democracia: garantir o bem-estar material e espiritual das grandes maiorias nacionais, dessa heterogênea massa plebeia oprimida, explorada e humilhada por séculos. Não se exagera de forma alguma se se diz que Evo é o divisor da história boliviana: há uma Bolívia antes de seu governo e outra, diferente e melhor, a partir de sua chegada ao Palácio Quemado. Esta nova Bolívia, cristalizada no Estado Plurinacional, enterrou definitivamente a outra: colonial, racista, elitista, que nada nem ninguém poderá ressuscitar.

Um erro frequente é atribuir esta verdadeira proeza histórica à boa sorte econômica que se havia derramado sobre a Bolívia a partir dos “vientos de cola” (na rabeira dos ventos soprados) da economia mundial, ignorando que pouco depois do ascenso de Evo ao governo ela (a economia mundial) entraria num ciclo recessivo do qual ainda hoje não saiu. Sem dúvida que seu governo tem acertado no manejo da política econômica, mas o que, na nossa opinião, é essencial para explicar sua extraordinária liderança foi o fato de que com Evo se desencadeia uma verdadeira revolução política e social, cujo sinal mais saliente é a instauração, pela primeira vez na história boliviana, de um governo dos movimentos sociais.

O MAS (Movimento ao Socialismo) não é um partido no sentido estrito e sim uma grande coalizão de organizações populares de diversos tipos que ao longo destes anos se foi ampliando até incorporar à sua hegemonia setores “clasemedieros” (da classe média) que no passado haviam se oposto fervorosamente ao líder cocalero (cocaleiro - do cultivo da folha de coca). Por isso não surpreende que no processo revolucionário boliviano (lembrar que a revolução sempre é um processo, jamais um ato) tenham se manifestado numerosas contradições que Álvaro García Linera (vice-presidente), o companheiro de chapa de Evo, as interpreta como as tensões criativas próprias de toda revolução. Nenhuma (revolução) está isenta de contradições, como tudo o que existe, porém o que distingue a gestão de Evo foi o fato de que as foi resolvendo corretamente, fortalecendo o bloco popular e reafirmando seu predomínio no âmbito do Estado. Um presidente que quando se equivocou – por exemplo durante o “gasolinazo” de dezembro de 2010 – admitiu seu erro e após escutar a voz dos movimentos populares anulou o aumento dos combustíveis decretado poucos dias antes. Esta rara sensibilidade para ouvir a voz do povo e dar a resposta consequente é o que explica que Evo tenha conseguido o que Lula e Dilma não conseguiram: transformar sua maioria eleitoral em hegemonia política, isto é, na capacidade para forjar um novo bloco histórico e construir alianças cada vez mais amplas, mas sempre sob a direção do povo organizado nos movimentos sociais.

Obviamente que o êxito político não poderia ter se sustentado tão somente na habilidade política de Evo ou na fascinação dum relato que exaltasse a epopeia dos povos originários. Sem um adequado engate na vida material tudo aquilo teria se desvanecido sem deixar rastos. Mas se combinaram muito significativamente conquistas econômicas que aportaram as condições necessárias para construir a hegemonia política que ontem fez possível sua arrasadora vitória. O PIB passou de 9 bilhões e 525 milhões de dólares em 2005 para 30 bilhões e 381 milhões em 2013, e o PIB per capita saltou de 1.010 para 2.757 dólares entre os mesmos anos. A chave deste crescimento – e desta distribuição!– sem precedentes na história boliviana se encontra na nacionalização dos hidrocarburos (gás e petróleo). Se no passado a repartição da renda gasífera (do gás) e petroleira deixava nas mãos das transnacionais 82% do produzido enquanto que o Estado captava apenas os 18% restantes, com Evo esta relação se inverteu e agora a parte do leão fica nas mãos do fisco. Não surpreende portanto que um país que tinha déficits crônicos nas contas fiscais tenha terminado o ano de 2013 com 14 bilhões e 430 milhões de dólares em reservas internacionais (contra 1 bilhão e 714 milhões que dispunha em 2005). Para calibrar o significado desta cifra basta dizer que as mesmas equivalem a 47% do PIB, de longe a percentagem mais alta da América Latina. Afinado com este quadro, a extrema pobreza baixou de 39% em 2005 para 18% em 2013, e existe a meta de erradicá-la por completo até o ano de 2025.

Com o resultado de ontem Evo continuará no Palácio Quemado até 2020, momento em que seu projeto refundacional terá passado do ponto de não retorno. Fica por confirmar se retém a maioria dos dois terços no Congresso (estava se confirmando no andamento da computação dos votos), o que faria possível aprovar uma reforma constitucional que abriria a possibilidade duma re-reeleição indefinida. Diante disto não faltarão vozes que lancem gritos aos céus acusando o presidente boliviano de ditador ou de pretender perpetuar-se no poder. Vozes hipócritas e falsamente democráticas que jamais manifestaram tal preocupação pelos 16 anos de gestão de Helmut Kohl na Alemanha, ou os 14 do lobista das transnacionais espanholas, Felipe González. O que na Europa é uma virtude, prova inapelável de previsibilidade ou estabilidade política, no caso da Bolívia se converte num vício intolerável que desnuda a suposta essência despótica do projeto do MAS. Nada novo: há uma moral para os europeus e outra para os indígenas. Simples assim.

Atilio Boron é diretor do PLED, Centro Cultural da Cooperação Floreal Gorini.

Tradução: Jadson Oliveira

Observação do Evidentemente:

“Até quando a submissão ao império e ao capitalismo?”

Segundo o noticiário da blogosfera nas primeiras horas da manhã de hoje, segunda-feira, dia 13, a vitória de Evo Morales, prevista em todas as pesquisas, estava se confirmando com pouco mais de 60% dos votos. Será seu terceiro mandato consecutivo desde 2005.

Também estava se confirmando a manutenção dos dois terços das cadeiras no Congresso e a vitória em oito dos nove departamentos (estados), incluindo Santa Cruz, um estado poderoso que está hoje em mãos da oposição e era o tradicional bastião da direita, centro das conspirações contra Evo.

Ele dedicou sua arrasadora vitória ao líder cubano Fidel Castro e ao falecido ex-presidente venezuelano Hugo Chávez. “É um sentimento de libertação de nossos povos. Até quando seguir submetidos ao império ou ao sistema capitalista? Este triunfo é um triunfo dos antiimperialistas e dos anticolonialistas”, disse Morales na sua saudação, da sacada do Palácio Quemado, ao lado de seu vice-presidente, Álvaro García Linera, e seus ministros.

Um comentário:

Unknown disse...

Até quando o Brasil vai continuar travado desse jeito?? Será que a elite daqui é pior que a da elite da América Latina, ou seria o povo pior? Será o DNA dos portugueses? Rubia