quarta-feira, 24 de setembro de 2014

CORRUPÇÃO: DOAR PARA CAMPANHA ELEITORAL E DEPOIS COBRAR O INVESTIMENTO



No balanço parcial, o doador mais generoso é a JBS, a maior indústria de carnes do mundo (uma das empresas do grupo é a Friboi) (Foto: do Página/12)
No Brasil, existem doações legais e ilegais para os partidos, que garantem privilégios futuros: dos 500 milhões de dólares arrecadados desde meados de junho até a primeira semana de setembro, mais da metade teve origem em apenas 19 grupos empresariais. O PT e a presidenta Dilma Rousseff defendem uma reforma política.

Cada político eleito contrai uma dívida, e a generosidade dos doadores se transforma em apetite voraz na hora de obter os lucros de seu investimento.

Por Eric Nepomuceno (jornalista brasileiro), do Rio de Janeiro – no jornal argentino Página/12, edição de ontem, dia 23

Desde que a campanha eleitoral deste ano foi iniciada oficialmente, em meados de junho, e até o dia 6 de setembro, os partidos que disputam mandatos que vão de deputado estadual a deputado federal, de senador a governador e, para completar, a presidente da República, arrecadaram nada menos que 500 milhões de dólares.

Vale repetir: isto, até o primeiro sábado de setembro. Não se sabe quanto terá caído nos cofres dos partidos nas semanas seguintes, e muito menos quanto arrecadarão as duas candidaturas presidenciais que passem ao segundo turno. Não é absurdo supor que até o domingo, 26 de outubro, quando todo este processo termine, a soma total alcance a casa de siderais 750 milhões de dólares.

As regras para realizar doações eleitorais no Brasil são claras e passam por revisões que buscam fazê-las mais rigorosas em cada eleição. A expressão “assegurar transparência” é repetida como um mantra. Ao mesmo tempo, todos sabem que, à margem das doações que obedecem a todas as letras da lei, chovem nos cofres dos partidos o que se chama de “caixa dois”, tradução local para “dinero negro” (dinheiro negro, dinheiro ilegal, mercado negro).

É impossível calcular o montante dessas doações ilegais, mas nenhum analista consideraria absurdo pensar em, pelo menos, 25% do total declarado de maneira legal. Esta é a fonte principal da corrupção que atinge, sem exceção, todos os partidos que têm voz e participação ativas no cenário político brasileiro. E não me refiro somente ao “dinero negro”: também as doações legais servem, de forma clara, para garantir privilégios futuros. Basta saber que desses 500 milhões de dólares doados até a primeira semana de setembro, mais da metade teve origem em apenas 19 grupos empresariais. Se doa hoje para cobrar amanhã, e este mecanismo perverso é considerado parte do jogo político.

O PT e a atual presidenta, Dilma Rousseff, reclamam uma reforma política que, por força constitucional, terá que partir do Congresso Nacional, proibindo doações privadas. Ocorre que esse mesmo Congresso é integrado por deputados e senadores que, ao fim e ao cabo, são os beneficiários das doações realizadas por aqueles grupos econômicos aos quais beneficiarão depois.

De acordo com a atual legislação eleitoral brasileira, as empresas podem doar até 2% do faturamento declarado no ano anterior. As doações individuais têm como limite 10% da renda declarada. No entanto, não há limites absolutos, ou seja, grupos que faturam milhares de milhões de dólares podem fazer doações altíssimas sem que isso signifique mais que cócegas em suas contabilidades. Ao fim e ao cabo, mais do que doação se trata dum investimento, cujo retorno está garantido pelo grau de influência que essas empresas conquistam sobre os que são eleitos.

No balanço parcial recém divulgado, o doador mais generoso é a JBS, a maior indústria de carnes do mundo (a conhecida Friboi é uma das empresas do grupo), uma potência planetária que se consolidou nas duas presidências de Lula: uns 55 milhões de dólares choveram nos caixas de pelo menos 168 candidatos a deputado federal, 197 postulantes a deputado estadual, 12 a governador, 13 a senador e dos três principais candidatos à presidência.

Continua em espanhol:

También los gigantescos grupos de la construcción (construção civil), que suelen (costumam) conquistar obras públicas de valores multimillonarios, son de una generosidad asombrosa a la hora de donar (na hora de doar). Por razones nada ideológicas, sus dineros suelen (costumam) concentrarse en los candidatos oficialistas (governistas), pero la oposición – por las dudas (dúvidas) – también recibe su parte. Cuando surge algún fenómeno de sorpresa, como es este año el caso de Marina Silva, los recaudadores (os arrecadadores), en lugar de golpear puertas (procurar, bater em portas), no necesitan hacer otra cosa que sentarse y esperar por las ofertas.

Hasta fines de agosto, las mayores constructoras brasileñas donaron (doaram) unos 34 millones de dólares a las campañas de los partidos y alianzas de los tres principales candidatos: Dilma Rousseff, Aécio Neves y Marina Silva.

Entre los donantes (doadores) individuales, este año se observan curiosidades. Alexandre Grendene, dueño de la Grendene, que la revista Forbes dice ser la mayor fabricante mundial de ojotas (calçados), donó (doou), hasta la primera semana de septiembre, nada menos que medio millón de dólares al Partido Comunista de Brasil. Bastante más coherente parece ser la señora Maria Alice Setúbal, una de las herederas (herdeiras) del Itaú, mayor banco privado de Brasil. Ella donó (doou) unos 700 mil dólares al partido de Marina Silva, de quien es una de las principales asesoras.

La banca en general suele (costuma) sufrir brotes de generosidad en temporadas electorales. Hasta fines de agosto, los pulpos (polvos) del sector donaron unos quince millones de dólares, la mayor parte destinada a los dos (dois) candidatos de oposición.

Esa fiesta perpetúa un sistema plagado (marcado, cheio) de vicios y es la matriz de parte sustancial de la corrupción irremediable que el país enfrenta. Se doa hoje para cobrar amanhã. Quem mais doa mais terá o que cobrar.

Cada político eleito contrai uma dívida, e a generosidade dos doadores se transforma em apetite voraz na hora de obter os lucros de seu investimento.

Tradução (parcial): Jadson Oliveira

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