quinta-feira, 4 de setembro de 2014

COLÔMBIA: “ME PERSEGUEM POR SER DE ESQUERDA”



A socióloga e militante colombiana sobreviveu ao genocídio da União Patriótica (Foto: Página/12)
A socióloga colombiana Liliany Obando pede que pare seu processo judicial político: acusada de rebelião e de ser a mulher de Raúl Reyes com base em informação supostamente aparecida no computador do comandante guerrilheiro das FARC, abatido no Equador em 2008, foi condenada a 70 meses de prisão.

Por Katalina Vásquez Guzmán, de Bogotá, no jornal argentino Página/12, edição de ontem, dia 3

As marcas de dor ainda são vistas em seu corpo. Num calabouço, depois de quatro dias de greve de fome, Liliany Obando desmaiou e caiu sobre seu lado esquerdo. O braço e a cabeça foram afetados. Porém não recebeu assistência médica. “Um guarda chamou para avisar o que me aconteceu e lhe diziam por rádio: para mandar-lhe um médico se tem que estar morrendo”, conta Liliany Obando, socióloga colombiana que, pela segunda vez em quatro anos, foi capturada por agentes judiciais e deixada num calabouço. É acusada de rebelião, e de ser a mulher do comandante guerrilheiro abatido Raúl Reyes. Dizem que Obando conseguia recursos para as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) com seus contatos internacionais, que é uma perigosa terrorista. Tudo isto se diz sobre ela, oriunda do sul do país, desde o ano de 2008, quando começou o pesadelo. Até então era uma estudante de mestrado em Ciência Política e defensora dos direitos humanos numa organização camponesa. Seus filhos tinham quatro e dez anos. E então foi que perdeu a liberdade.

Naquele ano, as forças militares colombianas bombardearam um acampamento rebelde na fronteira com o Equador, onde resultou morto o então segundo no comando das FARC, codinome Raúl Reyes. Essa ação ficou conhecida como Operação Fênix. Diz a polícia que dentre as ruínas da bomba resgatou o computador do líder guerrilheiro e aí estariam as provas de que Obando e outros muitos eram seus supostos colaboradores. Apesar das provas não serem consistentes e da violação dos tratados internacionais e do Direito Internacional Humanitário para se obter o suposto lap-top, Obando foi condenada a 70 meses de prisão e a pagar uma multa de 400.000 dólares. Outros investigados com as mesmas provas do computador de Reyes, como Wilson Borja, já foram absolvidos porque se evidenciou a falta de provas.

A socióloga, no entanto, ainda tem que pagar sua sentença, e mesmo estando em prisão domiciliar, foi levada em agosto aos calabouços do antigo Departamento de Segurança (DAS) por 15 dias. Foi então que decidiu entrar em greve de fome. Agora, a poucos dias de recuperar sua liberdade graças à pressão internacional e a seu estado de saúde, Liliany falou ao Página/12 sobre seu caso e sobre como tem sido vítima de injustiças, lutando hoje por liberdade e solidariedade.

–Quem é Liliany Obando?

–Nasci na fronteira com o Equador, em Pasto. Sou formada em Idiomas e socióloga pela Universidade Nacional. Tenho sido militante da esquerda desde muito jovem, vinculada com o movimento estudantil, popular, de mulheres e sou defensora dos direitos humanos. Militei na União Patriótica (UP) e sou sobrevivente do genocídio (A UP é conhecida na Colômbia por ter sofrido ao longo dos anos a matança de milhares de militantes, inclusive de candidatos a presidente da República). Toda esta perseguição que tenho sofrido nos últimos anos deveu-se à minha militância na esquerda, e à minha oposição. Sou perseguida por meu pensamento crítico. Se diz de tudo sobre mim, os meios de comunicação deitam e rolam reproduzindo o que lhes passam as fontes oficiais, sem investigar, e causando grande dano a mim e a minha família. Minha vida mudou com a Operação Fênix. Fui privada de minha liberdade no sistema carcerário durante quatro anos, sem ter sido condenada, até que em 1º de março de 2012 me concederam liberdade condicional ao ficar demonstrado o abuso da “detenção preventiva” a  que estava sendo submetida. Não obstante, o processo penal seguiu seu curso. De todas essas investigações que foram abertas a partir do computador, o que se chamou ‘FARC-política’, eu sou a única condenada. ‘FARC-política’ é um processo com fins políticos para perseguir a oposição de esquerda na Colômbia, processo criado quando o governo de Uribe atravessa uma crise de legitimidade da parapolítica, então buscam satanizar líderes da esquerda.

–O que ocorreu recentemente? Por que a capturaram outra vez?

–Me encontrava na minha casa, cumprindo minha prisão domiciliar. Emitem uma nova ordem de captura contra mim sabendo que eu estava em casa; me tiram de casa, me levam num carro da guarda presidencial do exército, o que é irregular; me põem praticamente a desfilar para eles, tiram fotos, me filmam e no dia seguinte aparece que me recapturaram, quando à minha casa chegaram civis, não me capturam os militares. Nesse dia, 5 de agosto, estes civis me chamam e me dizem que vão me entrevistar e, em seguida, chegam e me dizem que vão me levar para fora apenas para depor e assinar um documento que legaliza a prisão domiciliar. Porém me deixam no calabouço durante mais de 15 dias. Os meios de comunicação nem sequer se dão o trabalho de verificar se a informação é correta, simplesmente reproduzem a notícia como lhes passam os organismos de Inteligência.

Continua em espanhol:

Entre las difamaciones repiten que yo era la amante de Raúl Reyes, lo cual es completamente falso, es una afrenta a mi dignidad como mujer. Luego en el calabozo no me quieren sacar (tirar), dicen que están en paro (greve) los trabajadores judiciales, entonces frente a la negligencia tomo la decisión de la huelga de hambre (da greve de fome).

–¿Cómo fue su último paso por las celdas y la huelga de hambre? (Como foi sua última passagem pelas celas e a greve de fome?)

–Me llevaron a una celda de aislamiento (cela de isolamento), que de acuerdo con el sistema penitenciario colombiano son celdas de castigo. Era un lugar como una bóveda, con un frío atroz, sin contacto con nadie (nínguém). Dado el tiempo que va pasando sin que ellos me definan y como desatienden la orden de la jueza para que me trasladaran a mi domicilio, yo decido entrar en huelga de hambre (em greve de fome). Vengo de ver que soy expuesta en los medios (meios de comunicação) de una manera abusiva y mentirosa, eso me llenó de rabia, de coraje, una mezcla de sentimientos. Además, yo estaba en un proceso de recuperación de una relación que había sido rota (desfeita) por todos esos años de separación de cuatro años en la cárcel, que me arrancaron del seno de mis hijos (do seio, do meio de meus filhos), entonces esta nueva captura fue una reversa. Pensando en todo esto yo decido una opción extrema. Al cuarto día me siento muy débil, sólo estaba tomando agua; estando sola en la celda, en el baño (no sanitário), sufrí un desmayo. Cuando me despierto con un dolor grande en el brazo izquierdo (que todavía tengo – dor que ainda tenho), en la sien izquierda. Como puedo me arrastro a la colchoneta y cuando llega el guardia le comunico, él trata de pedir atención (assistência) médica, pero la niegan. Yo continúo mi huelga (greve), lo único que empiezo es a recibir aguas aromáticas para mantener los niveles de azúcar hasta que el martes (na terça-feira) finalmente la oficina (o escritório) de capturas del CTI (Cuerpo Técnico de Investigaciones de la Fiscalía – da Promotoria) acata la orden y pude volver a la casa. Es muy complicada la situación, después de ser expuesta en los medios (de comunicação) se pone en riesgo mi vida y la de mi familia; tengo que tratar de restablecer la relación familiar y el tema de los ingresos es complejo (e a situação da renda, dos recursos financeiros, é complexa). Vivo con mi madre, de bastante edad, y la estigmatización y el encarcelamiento te dejan sin vida productiva. Sin embargo (Entretanto), acá estoy, recuperando la salud y con mis hijos (filhos) de 10 y 20 años.

–Si ya pasó cuatro años en cárcel, ¿cuándo cumple la condena?

–Yo ya tengo más del tiempo necesario para pedir la libertad condicional, y para la libertad definitiva estamos esperando que la jueza descuente todo el tiempo que yo estuve en prisión. No sabemos exactamente, pero estoy amarrada al pago (ao pagamento) de esa multa impagable.

–¿Qué espera?

–Mi conciencia me ha mantenido en pie; está muy clara, sé que no soy una delincuente como quieren hacerlo parecer. Saber que tengo un compromiso de vida con la paz, con la construcción de un nuevo país, que no soy una delincuente sino una opositora política. Sabemos que la cárcel puede ser una estación dolorosa para la que tenemos que estar preparados. Mantenerme muy activa en la cárcel como defensora de derechos humanos y sentir la justeza de nuestra causa me hizo mantenerme fuerte. Y, por supuesto (E, certamente), los afectos, los hijos, la familia, que te necesitan. Además, el mío es uno de más (Além disso, eu sou um dos mais) de nueve mil presos políticos en Colombia que hoy están esperando que en el proceso de paz (negociado em Cuba pelo governo e as FARC) haya una posibilidad de amplio indulto y amnistía para nosotros también.

Tradução (parcial): Jadson Oliveira

Nenhum comentário: