segunda-feira, 15 de setembro de 2014

BRASIL: FALTA UMA “PATA” ESSENCIAL NO MOVIMENTO DEMOCRÁTICO E POPULAR



Jovens argentinos do movimento La Cámpora concentrados, no último sábado, dia 13, em apoio ao governo de Cristina Kirchner (Foto: Página/12)
Os brasileiros vivemos manietados: não vamos às ruas para condenar as posições direitistas do governo, nem vamos para apoiar quando o governo assume posições progressistas.

Por Jadson Oliveira, jornalista/blogueiro – carta a uma amiga argentina

De Salvador (Bahia) – Lucilla, querida, você me pergunta numa de tuas últimas cartas por que não se vê militância de partidos e movimentos sociais brasileiros nas ruas em defesa da reeleição da presidenta Dilma. É uma boa questão. Aliás, “militância” por aqui virou uma espécie raríssima. Não há manifestação de rua a favor da reeleição da Dilma (nem tampouco contra).

Ontem mesmo (domingo, dia 14) eu estava vendo, com inveja, no nosso Página/12 - na Internet, é claro -, a mobilização dos jovens do La Cámpora em defesa do governo e do projeto “nacional e popular” de Cristina Kirchner. É a juventude kirchnerista/peronista, com suas belas bandeiras azul e branco reforçando e empurrando o governo “progressista” dos “K”, como vocês dizem aí na Argentina. Segundo a matéria, havia em torno de 40 mil pessoas no estádio do Argentinos Juniors aí em Buenos Aires.

Outro dia traduzi e postei aqui no meu Evidentemente matéria do mesmo jornal – diário que acompanho diariamente desde minha temporada de seis meses aí em 2010/2011; que falta faz um jornal desse aqui no Brasil! – sobre a mobilização de milhares de militantes de dezenas de entidades aglutinadas no “Unidos e Organizados”. É a centro-esquerda em apoio aos “K” (vocês aí distinguem, apropriadamente, a “centro-esquerda” da “esquerda”; aqui no Brasil, de forma inadequada, dizemos “esquerda” pra tudo que é partido e movimento mais à esquerda, fica um “balaio de gato”). Me parece que vocês são mais sabidos, mais refinados politicamente.
Manifestação de rua da militância kirchnerista em Buenos Aires contra os chamados fundos-abutre, especuladores estadunidenses que tentam botar na parede o governo argentino (Foto: Página/12)
Pois bem, minha amiga, respondo tua pergunta com o título acima: falta uma “pata” fundamental no nosso movimento democrático, popular e de esquerda (o “pata” é uma modesta homenagem a vocês que usam tanto esta expressão). Não há participação popular de massa por aqui. Houve aquele ”estouro da boiada” em junho do ano passado, mas desorganizadamente, atropeladamente, tanto que até a Rede Globo (o Grupo Clarín daqui), a força mais saliente da direita, tentou assumir a direção (já te falei disso numa carta anterior).

É a grande carência das forças populares e de esquerda deste nosso Brasil, o “gigante” sul-americano como dizemos pela “nuestra Pátria Grande”. Este Brasil ao qual muitos (as) companheiros (as) latino-americanos (as) se referem como em processo de luta pelo socialismo – acho que fazem a vinculação, equivocadamente, entre o maior líder popular daqui, o Lula, a sua origem operária e o nome do seu partido (PT – dos Trabalhadores). Sinto te decepcionar, aqui não há movimento pró socialismo, não há pelo menos de alguma relevância (querida, um dia desses te faço uma carta exclusivamente sobre isso, prometo, porque sinto que o pessoal da América Latina fica um tanto desnorteado e não entende a potência do capitalismo brasileiro. Não se dá conta da avassaladora hegemonia ideológico-cultural sob a qual vivemos os brasileiros, capitaneada sobretudo pelos monopólios privados de comunicação).

Então, amor, vou reforçar: aqui não há mobilização popular (hoje mesmo, segunda, dia 15, está programada uma manifestação de rua dos petroleiros em apoio à reeleição de Dilma e em defesa da Petrobras – uma estatal meio capenga do ponto de vista dos interesses populares e da soberania nacional, com grande parte dos acionistas privados formada por estrangeiros e com 80 mil empregados e 300 mil terceirizados). Vamos ver a quantidade de gente que vai às ruas.

Amiga, vou te citar três fatos pra você sentir como o movimento de esquerda (vocês diriam “centro-esquerda”) vivemos aqui manietados: não vamos às ruas para condenar as posições direitistas do governo, nem vamos para apoiar quando o governo assume posições progressistas. Fico até invocado porque meus companheiros da blogosfera “progressista” não destacam isso, talvez para não entrarem no mérito da questão, pois talvez tivessem que examinar o percentual de culpa a cargo da política do PT/Lula/Dilma. É um tema complicado, mas outro dia mesmo o Gilberto Carvalho, um ministro do governo (da Secretaria Geral da Presidência) que demonstra sensibilidade diante dos movimentos sociais, destacou isso: a necessidade do povo ir às ruas para que as coisas andem a seu favor.

Vão aí os três fatos:

1 – Há poucos meses o governo fez um decreto regulamentando a participação popular nas ações governamentais. Foi um Deus nos acuda: os jornais, rádios, TVs e sítios web da mídia hegemônica classificaram o tal decreto – tímido, diga-se de passagem, para os padrões de governos progressistas da América Latina – como anti-democrático (veja só, anti-democrática uma tentativa de institucionalizar um maior protagonismo popular!). Na visão da direita, seria um atropelo das atribuições do Congresso Nacional (um Congresso, hoje, majoritariamente, “comprado” pelo alto empresariado). Povo na rua para defender esse tímido avanço do governo? Nada, nem pensar!

2 – Pressionado pelas jornadas populares de junho/2013, o governo formado a partir do PT (presidido por Dilma, não é apropriado dizer “governo petista”, é na verdade uma coalizão da centro-esquerda com a direita e a ultra-direita) teve o grande saque de propor uma Assembleia Constituinte exclusiva para levar adiante a reforma do sistema político-eleitoral, através de um plebiscito. O detalhe mais saliente é a tentativa de acabar com o escandaloso esquema de financiamento empresarial das campanhas eleitorais (o Congresso “comprado” a que me referi acima é fruto principalmente disso). O Congresso, claro, boicotou a proposta. E nada de gente na rua para tentar ressuscitá-la. Os movimentos sociais aproveitaram a deixa e promoveram um “plebiscito popular”, fora da institucionalidade, entre 1º. e 7 de setembro, buscando mobilizar 10 milhões de votantes a favor da proposta (o Brasil tem 140 milhões de eleitores). O anúncio do resultado deve sair por esses dias.

3 – Uma ação judicial de iniciativa da Ordem dos Advogados do Brasil (nossa antes muito aguerrida OAB, hoje nem tanto) está no Supremo Tribunal Federal (STF – a corte máxima de Justiça daqui) com votação pelo meio, mas já com maioria garantida de votos para sua aprovação, pedindo o fim desse escandaloso (vale repetir o adjetivo) sistema de financiamento das campanhas. Pois muito bem: um dos 11 ministros, chamado Gilmar Mendes, tristemente conhecido dos brasileiros, pediu “vistas” do processo. Ou seja, pra quem não conhece o jargão jurídico: é como se ele pegasse o processo e levasse pra casa, leva de volta pra continuar a votação (já perdida para ele e seus partidários da direita, por maioria) quando assim julgar conveniente. Simples assim! Cadê o povo mobilizado e organizado na porta do STF ou na porta da casa desse ministro pra reclamar? Nada.

É isso aí, minha querida Lucilla, estamos f..., com o perdão da má palavra. Espero dar notícias mais alvissareiras numa próxima missiva, um beijão, saudades.  

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