terça-feira, 26 de agosto de 2014

PUTAS E GUERRILHEIRAS NA DITADURA ARGENTINA (parte 1)



A famigerada Escola de Mecânica da Armada (Marinha) - ESMA (Foto: DyN/Página/12)
Antecipação do livro de Miriam Lewin e Olga Wornat sobre os crimes sexuais nos centros clandestinos de detenção

“É verdade que você saía com o Tigre Acosta? (conhecido torturador argentino)”. Houve um silêncio sólido, um prender de respiração de todos os que estavam no estúdio.

–Como assim “saía”?

–Bem... – recuou –. Se é verdade que saíam para jantar, isso é o que as pessoas dizem...

Por Miriam Lewin, no jornal argentino Página/12, edição de 05/05/2014 (por ser muito extenso para os padrões deste blog, vai dividido em duas partes)

Militantes em sua juventude e jornalistas depois, as autoras relatam – no livro Putas e guerrilheiras, a ser distribuído pela Planeta nesses dias – as torturas, abusos e violações que sofreram centenas de mulheres nos centros clandestinos na década de 70. Em alguns casos foram também relações tortuosas nascidas sob tormentos com seus algozes. Aqui, como antecipação, um extrato da introdução de Miriam Lewin.

Mártires e prostitutas

Era 24 de março, aniversário do golpe, e me haviam convidado ao programa de TV Almoçando com Mirtha Legrand. Aceitar estar ali significava para mim renunciar a ir à ESMA (Escola de Mecânica da Armada – da Marinha, antigo centro de tortura), agora a um ato de massa de grandes proporções, no dia de sua conversão em espaço para a memória. Decidi ir ao programa da ex-diva do cinema argentino que se tornou entrevistadora, sobretudo porque iam também Estela de Carlotto, presidenta de Avós da Praça de Maio, e Mariana Pérez, cujos pais, desaparecidos, haviam militado comigo. Mariana havia procurado incansavelmente seu irmão Rodolfo, nascido na Escola. Eu havia estado presente no parto. Havia visto esse bebê sobre o peito de sua mãe, sabia que havia sido arrebatado depois e havia declarado nos tribunais sobre o tema. A mesa era completada por dois juízes do Julgamento das Juntas e um jornalista. Seguramente o programa ia ser visto dentro de suas casas por muita gente que ainda não sabia ou não reconhecia a verdadeira dimensão do que havia acontecido nos domínios do grupo de tarefas 3.3.2. Outras milhares de pessoas se reuniriam à mesma hora na Avenida do Libertador, frente ao campo de concentração, onde o presidente Néstor Kirchner ia compartilhar o cenário com Juan Cabandié, outro recém nascido a quem eu havia visto em novembro de 1977 num corredor do campo, nos braços de sua mãe, uma moça de 16 anos, depois assassinada.

Cheguei cedo. Um produtor veterano, que conhecia só de vista, me atalhou na entrada. Me levou a um canto e, consternado, me advertiu que “a velha” tinha planejado me fazer algumas perguntas inconvenientes e que queria que eu estivesse prevenida.

Que perguntas inconvenientes? – indaguei, com a segurança de que não ia ser pior do que haviam me perguntado os advogados dos militares em algum processo a que havia ido como testemunha. No geral, me atribuíam – para me desqualificar – ações armadas, atentados ou sequestros nos quais não havia participado.

O produtor tossiu, nervoso.

–Não sei, imagino que terá algo a ver com a colaboração, com a delação. Te antecipo para que não te sintas incomodada.

–Não te preocupes, estou acostumada. Te agradeço muito.

Tinha clareza para que estava ali e as intrigas não me importavam. No dia da recuperação do espaço do campo de concentração para a sociedade civil eu ia falar a uma parte dessa sociedade que talvez nunca havia prestado atenção ao assunto. Talvez se o dizia sentada à mesa de Mirtha todos compreenderiam. Me vieram buscar e me deixaram no estúdio.

Detrás de uns painéis me colocaram o microfone, quase invisível, um cabo que trepava por debaixo de minhas roupas até o decote e um receptor pendurado na cintura. Em poucos minutos eu estava no centro da cena, rodeada por cristais, jarrões com flores, brocados, adornos (“caireles”), tapetes e cortinados. Já havia concluído o rito costumeiro da descrição do vestuário, sapatos e joias da apresentadora, e os risinhos e aplausos do enxame de assistentes e empregados que a acompanhava por trás das câmeras.

Era uma jornada especial. Não houve almoço servido por mucamas de uniforme. Tampouco se distribuiu o presente costumeiro para cada convidado, um relógio pulseira. “Não é um dia para festejar”, disse Mirtha, e todos assentiram, admirando sua sensibilidade.

Não sei como aconteceu. Não me lembro se ela tinha a pergunta anotada num papel para ajudar a memória. Tampouco recordo se nesse momento estávamos sozinhas, assim sozinhas como se pode estar frente a uma audiência de centenas de milhares de pessoas... Mas depois de me fazer uma observação sobre como me caía bem minha nova cor de cabelo, me disparou: “É verdade que você saía com o Tigre Acosta? (conhecido torturador argentino)”. Houve um silêncio sólido, um prender de respiração de todos os que estavam no estúdio.

–Como assim “saía”?

–Bem... – recuou –. Se é verdade que saíam para jantar, isso é o que as pessoas dizem...

Respirei profundamente, como reunindo forças. Poderia ter me levantado e saído do estúdio, poderia me ter ofendido. Seguramente, a cena teria sido reproduzida dezenas de vezes nos programas de “pegadinhas” do espetáculo. “Jornalista de Puntodoc faz um desplante a Mirtha quando lhe pergunta se teve um namorico (ninguém diria ‘foi abusada sexualmente’, com certeza) com o chefe do grupo de tarefas da ESMA”. Porém, não o fiz. Lhe respondi. (Continua)

Tradução: Jadson Oliveira

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