sábado, 9 de agosto de 2014

JOSÉ PABLO FEINMANN: OS DOIS PILOTOS DE HIROSHIMA



(Foto: Página/12)

Claude Eatherly morre em 1978, num manicômio, aos 70 anos. Paul Tibbets – cheio de glória e condecorações – morre em novembro de 2007. Tinha 92 anos. Até o último dia de sua vida, disse: “Sempre durmo tranquilo”.

Por José Pablo Feinmann, filósofo argentino – traduzido do jornal Página/12, edição de 11/08/2013 (para marcar os 69 anos das duas bombas atômicas lançadas pelo governo dos Estados Unidos sobre as cidades japonesas de Hiroshima – em 06/08/1945 – e Nagasaki – em 09/08/1945 -, matando cerca de 180.000 a 240.000 pessoas)

Certa vez, em 6 de agosto de 1945, cada um em um avião, dois homens voaram sobre a cidade de Hiroshima. Acabam de completar 68 anos do acontecimento (agora, neste ano de 2014, 69 anos). Um era o general Paul Tibbets, comandante da operação. Seu avião haveria de lançar a primeira bomba atômica sobre uma cidade, que vivia mais um dos difíceis dias da guerra. Mas a essa vida se havia acostumado. Em algum momento – pensavam – terminaria. A guerra, primeiro. Os difíceis dias, depois. Havia nessa cidade, havia em Hiroshima, tudo o que costuma haver numa cidade, homens bons e maus, mulheres laboriosas, crianças que esperavam um futuro para fazê-lo seu e vivê-lo com todo direito, idosos que se preparavam para uma morte doce apesar do horror dos últimos anos. Também havia animais. Que não sabem fazer cálculos, que não sabem dividir o átomo, porém sua capacidade de sofrimento é a mesma que a de qualquer ser humano. Devem ser incluídos no massacre.

O outro homem – que, veremos, era muito diferente de Paul Tibbets, tão diferente como diferentes foram suas existências posteriores ao 6 de agosto de 1945 – se chamava Claude Eatherly e sua tarefa consistia em fixar o alvo preciso onde a bomba haveria de cair. Se equivocou por pouco. Devia visar uma ponte. Visou um hospital. À primeira vista, se diz que horror: um hospital no lugar duma ponte. Não, num bombardeio normal teria sido um erro imperdoável. Mas não neste. Era a mesma coisa. Tanto o hospital como a ponte desapareceram em cinco minutos, ou algo assim. Importa um minuto menos ou um minutos mais? Quando Eatherly regressou à base, seus companheiros lhe disseram – entre a ironia e o assombro: “Sabe o que você fez, Paul? Matou 200.000 pessoas em cinco minutos”. Alguns até o felicitaram. Eatherly ficou paralisado. O horror e a culpa penetraram tão profundamente em sua sensível consciência moral que jamais haveriam de abandoná-lo. Que o levariam à loucura.

Anos mais tarde, no Hospital Waco em que estava internado por graves transtornos mentais, chegou uma carta inesperada. Era do renomado filósofo alemão Günther Anders, discípulo de Heidegger, exilado do nazismo, esposo de Hannah Arendt. Um homem, também de extrema sensibilidade, que havia dedicado sua vida à luta contra o armamentismo nuclear. Era, em alguma de suas partes, assim: “Eis que precisamente você, e não qualquer outro dentre seus milhares de milhões de contemporâneos, tenha sido condenado a ser um símbolo, não é culpa sua, e é certamente horrível. Porém assim é” (Günther Anders, El piloto de Hiroshima, Más allá de los límites de la conciencia, Paidós, Madrid, 2010, p. 33). Mais adiante acrescenta uma frase duma precisão, duma verdade arrasadora: “Também você, Eatherly, é uma vítima de Hiroshima” (Ibid., 39).

A tragédia de Claude Eatherly – e, em seguida, das centenas de milhares de vítimas de Hiroshima e Nagasaki – havia começado em 2 de agosto de 1939. Nesta data, Albert Einstein, um cientista que passou à história como um velhinho divertido que mostra a língua numa foto que busca exibir seu espírito brincalhão, seu espírito de sábio distraído, temeroso de que a Alemanha pudesse elaborar a bomba atômica antes que os aliados, enviou ao presidente Roosevelt uma carta onde diz muito e talvez tudo: “Alguns recentes trabalhos (...) me levam a esperar, que no futuro imediato, o urânio possa ser convertido numa nova e importante fonte de energia. Alguns aspectos da situação produzida parecem requerer muita atenção e, se fosse necessário, imediata ação de parte da Administração” (Einstein a Roosevelt, agosto 1939).

As palavras que escreve em seguida revelam sua determinação de entregar ao poder militar uma bomba tão poderosa como nenhuma, nem remotamente, antes o foi: “No curso dos últimos quatro meses se fez provável iniciar uma reação nuclear em cadeia numa grande massa de urânio, por meio da qual se gerariam enormes quantidades de potência e grandes quantidades de novos elementos parecidos com o urânio. Agora parece quase certo que isto poderia ser conseguido no futuro imediato. Este novo fenômeno poderia ser utilizado para a construção de bombas, e é concebível – penso que inevitável – que possam ser construídas bombas dum novo tipo extremamente poderosas”.

Uma das coisas que hoje resulta desagradável dessa carta – entre tantas outras – é que Einstein precede sua assinatura com a fórmula: Seu Seguro Servidor. Depois se arrependeu. Disse que enviou a carta devido ao temor de que Hitler tivesse a bomba antes que todos. “Porém me equivoquei – diz –. Esse temor era infundado. Se tivesse sabido da Caixa de Pandora que estava abrindo não teria enviado essa carta.” Não creio muito nos arrependimentos. Não servem de nada. Ou quase nada. Nenhum dos mortos de Hiroshima e Nagasaki voltou à vida com o arrependimento do “sábio”. Nem Claude Eatherly se curou de sua loucura.

Pelo contrário, o “outro” piloto de Hiroshima (apesar de, rigorosamente, o “outro” ser Eatherly, não só porque não comandava a missão, mas porque se converteu no “outro” ao enlouquecer, ao não aceitar ser um “herói da pátria” que havia salvo com essa ação milhões de jovens norte-americanos de morrer na continuidade da guerra contra o Império de Hirohito), o general de brigada Paul Tibbets, aceitou gostosamente o papel de “herói” que os EUA atribuíam aos homens dessa missão exterminadora.

Temos que entender isto: Eatherly, com sua loucura, com sua consciência arrasada, era a denúncia viva do horror do massacre nuclear. O que acontecia com esse desgraçado, esse infeliz que vivia choramingando por toda parte ao invés de se mostrar como o herói que era?, rugiam os militares. Havia que escondê-lo. O mundo não devia saber nada de Claude Eatherly. O estrelato seria para Tibbets e seus outros homens, todos corajosos, todos patriotas, todos saudáveis soldados da pátria. Inclusive, o general de brigada Paul Tibbets se transformou num propagandista de sua missão a bordo do Enola Gay (nome colocado por sua mãe no seu avião, que levava a bomba) com frases que ficaram para a história do cinismo: “Fiz o que tinha que fazer. Faria de novo. Saibam que durmo tranquilo”.

Em 1952, é feito um filme sobre aspectos de sua vida e a bomba sobre Hiroshima. Nada menos que uma estrela como Robert Taylor assume a responsabilidade de interpretá-lo. Durante esses dias, Robert Taylor já denunciava comunistas nos tribunais de MacCarthy. De toda forma, quando vê o cogumelo atômico do seu avião diz: “Meu Deus, o que fizemos?”. Os cineastas tentaram humanizar, não exatamente Tibbets, mas o piloto norte-americano, transtornado pelo espetáculo quase místico do monstro aterrador, gigantesco, jamais visto. Tibbets se ofende: “Eu não disse isso. Isso terá dito Robert Taylor”. Rigorosamente, Taylor só disse: “Meu Deus”, acaso porque fizeram outra versão quando advertiram que era demasiado “arrependimento”. Algum falcão disse: “Como o que fizemos? Fizemos o correto. Havia que terminar a guerra, merda”. Claro que a terminaram. Mas o Japão já havia se rendido. É falsa toda essa história acerca da terrível resistência que o Japão ainda oferecia e que haveria de acabar com a vida de milhões de soldados norte-americanos. Temiam, os falcões dos EUA, que a Rússia se metesse na Guerra do Pacífico, que foi paralela à da Europa, distinta. Uma coisa entre os EUA e o Japão disparada sob a desculpa de Pearl Harbour. MacNamara e Curtis Le May (o mais temível dos militares norte-americanos), com voos rasantes, lançavam bombas incendiárias sobre as cidades japonesas. “Vínhamos matando cem mil civis por noite. Para que a bomba?” MacNamara (no grande documentário La niebla de la guerra) dirá: “Se não tivéssemos ganho nos teriam condenado como criminosos de guerra”. Está claro, verdade? Um criminoso de guerra vitorioso, não o é.

As bombas de Hiroshima e Nagasaki não foram atiradas contra os japoneses – já esgotados e desejosos de se renderem, algo que os EUA deliberadamente  tornavam impossível porque lhes exigiam a entrega da soberania – e sim contra a União Soviética. Primeiro, para que não entrassem no Japão e tivessem, em pouco tempo, um Japão comunista. E segundo, porque essas duas bombas iniciavam o começo da Guerra Fria. “Aqui estamos. Olhem o brinquedo que temos. Ou nos respeitam ou os fazemos picadinho.” Eisenhower e MacArthur se opuseram com fúria ao uso da bomba. Nixon tratou de compreender. Disse à opinião pública: “São soldados muito profissionais. Só concebem atacar alvos militares. Nunca civis”. Eisenhower insiste: “Como podem lançar sobre uma cidade essa coisa horrível?”. E MacArthur: “As guerras não se ganham matando mulheres e crianças”. Churchill, um civil, havia aceitado fazê-lo com a cidade alemã de Dresde. Aí morreram cerca de 200.000 civis. Quase como em Hiroshima e Nagasaki.

Eatherly foi a consciência moral da tragédia. O homem que não pôde tolerar o horror. Não pôde dormir. Lhe dão soníferos. Se aferra à bebida. O álcool – por um tempo ao menos, ainda que breve – acalma a angústia. Mas não: em 1950 escolhe matar-se. Para sua desgraça, o salvam. Outra vez numa clínica psiquiátrica. Sua mulher – farta de tolerá-lo – o abandona. Seus amigos se envergonham dele. Sobretudo seus companheiros da missão de aniquilamento. Se aproxima dele o filósofo Günther Anders e a correspondência entre os dois é um grande documento. Anders – pacifista toda sua vida – termina seus dias pregando a violência. A única saída, diz. (Ver Rebeldía y esperanza, de Osvaldo Bayer.) Claude Eatherly morre em 1978, num manicômio, aos 70 anos. Tibbets – cheio de glória e condecorações – morre em novembro de 2007. Tinha 92 anos. Até o último dia de sua vida, disse: “Sempre durmo tranquilo”.

Tradução: Jadson Oliveira

Um comentário:

vaninha disse...

JADSON..."ENTENDER EU NÃO ENTENDI,MAS QUE EU ACHEI BONITO , ACHEI." RSRSRSRSR. vA EM FRENTE .NÃO DESISTA DE SEUS SONHOS.
vANINHA.