domingo, 17 de agosto de 2014

CARLOS VALLE: OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO E A CRIAÇÃO DA REALIDADE



(Foto: Internet)
Uma revisão da história moderna e a referência ao surgimento do cinema permitem a Carlos Valle por em evidência de que maneira o sistema de comunicação, em mãos dos poderes hegemônicos, opera para gerar a ocultação da realidade.

Por Carlos A. Valle (*) – traduzido do jornal argentino Página/12, edição de 06/08/2014

A confiança é um pressuposto das relações a diversos níveis pessoais, sociais ou ainda internacionais. Este a priori não necessariamente funciona sem tropeços. As manipulações urdidas à sombra dum acordo emergem com frequência e em formas cada vez mais sofisticadas.

Os pressupostos sobre os quais se baseiam as opiniões a respeito de personalidades, meios de comunicação e países formam uma história tecida sobre fatos aos quais se juntaram interpretações direcionadas, ignorância de certos acontecimentos, difamação a pessoas e acusações de duvidosa veracidade. Este contexto que se vai cimentando como realidades incontrastáveis se converte na principal bagagem com que se formam as opiniões, as quais, distanciadas de toda racionalidade ou questionamento, são a base da confiança com que contam os que decidem qual é a verdadeira história.

O desenvolvimento tecnológico, que se produz nos começos do século 20, permite, pela crescente concentração de recursos de todo tipo, estimular o progressivo poderio dos países centrais. Esta nova realidade, que cresceu aceleradamente, vai brindar a oportunidade para que a comunicação se converta num forte aliado para estimular a necessária confiança para poder desenhar a sociedade e a vida das pessoas.

A partir dessa época, a produção em massa se converte numa realidade. Ao racionalismo industrial aplicado por Frederick W. Taylor à organização dos trabalhadores para a produção em massa,  seguiu o sonho realizado por Henry Ford de produzir “um auto para a grande multidão”, com uma técnica que requeria planejamento e sincronização. Entre 1921 e 1929 haviam logrado duplicar sua produção e concentrar 44% da produção mundial. O êxito econômico e as ofertas de trabalho tiveram mais repercussão do que a reação aos efeitos que a aplicação dessa tecnologia produzia nos operários que trabalhavam sob esse sistema.

Economistas e dirigentes políticos acreditavam que se iniciava uma nova era para o capitalismo, livre das bruscas crises cíclicas que costumavam castigá-lo. Esta confiança se traduziu na compra massiva de ações das empresas industriais. Os capitais de todo o mundo fluíam para a Bolsa de Valores de Nova Iorque. A compra quase desenfreada de ações entre 1927 e 1929 cresceu 89%. No entanto, a produção industrial só havia crescido 13%. As ações estavam muito acima do crescimento real das empresas. 
Este foi um dos fatores que prenunciaram a crise que desembocou na estrepitosa queda da Bolsa de Wall Street e a Grande Depressão da economia estadunidense. Quase 25% dos operários industriais haviam perdido seu trabalho e os salários haviam depreciado ao redor de 60%.

As primeiras décadas do século 20 veem surgir, junto com o desenvolvimento industrial, o desenvolvimento da incipiente indústria cinematográfica, que alcança uma inusitada popularidade. A necessidade de entretenimento num clima de longas e pesadas jornadas laborais era crescente. O desenvolvimento do cinema mudo alcança grandes massas que não necessitavam de maior capacitação para usufruir de filmes que falavam de seu próprio entorno. Ainda que muitas dessas obras tenham se perdido, a história do cinema percorreu um número considerável daquelas que refletiam a situação social daquele momento. O historiador cinematográfico Kevin Brown, em sua valiosa obra Behind the Mask of Innocence (Detrás da máscara de inocência), desmascara a imagem que apresenta o mundo de princípios do século que “... levou as pessoas a assumirem que a vida foi agradável, mais amável e civilizada”. Porém a era do cinema mudo, segundo Brown, registra outro mundo, o mundo da corrupção política, da escravidão dos trabalhadores, da exploração dos imigrantes, entre outros muitos males sociais.

Esta crua realidade era ignorada pelos poderes econômicos. Por exemplo, uma greve era considerada por um empregador, antes que uma legítima expressão de reivindicação por justiça, uma declaração de guerra civil.

Quando, em 1936, Charles Chaplin estreia seu filme Tempos Modernos, os EUA estavam atravessando os primeiros anos posteriores à crise de 1929. Chaplin descreve a desumanização das fábricas e seus sistemas de produção em série. Charlot, um operário duma destas fábricas, cujo trabalho consiste em apertar parafusos numa linha de montagem, sofre as consequências deste processo de desumanização. O filme destaca os desajustes produzidos entre a máquina, que segue seu ritmo incessante, e a luta do ser humano para libertar-se da rotina que o aliena. Na crítica publicada depois de sua estreia, The New York Post não percebeu ou não quis perceber sua denúncia: “Seu tema não é tanto uma fustigante sátira contra a era do maquinismo como um recurso para utilizar a máquina para explorar novas possibilidades para a comédia...”

Estes são apenas traços duma história de relações de submissão e ocultação da realidade. Nada novo, o avanço industrial, a concentração econômica e a comunicação continuam seu crescente desenvolvimento até hoje. Quando o poder se converte no bem supremo, todo outro valor fica relegado ou ignorado. A busca duma comunicação democrática reclama romper este cerco que denigre a vida da comunidade.

* Comunicador social. Ex-presidente da Associação Mundial para as Comunicações Cristãs (WACC).

Tradução: Jadson Oliveira

Nenhum comentário: