sábado, 9 de agosto de 2014

ARGENTINA: ESTELA DE CARLOTTO ENFIM SE REÚNE COM SEU NETO (vídeo)


A família conseguiu fazer o encontro em uma casa cuja localização até agora é sigilosa para proteger o jovem e sua namorada e se reunir com discrição. 

Telam
(Foto: Telam/Carta  Maior)

 Por Stella Calloni/La Jornada - reproduzido do portal Carta Maior, de 08/08/2014

Ontem, finalmente, após um esforço especial para conseguir um encontro íntimo, Estela de Carlotto e sua família se reuniram a portas fechadas com Guido, o neto que foi apropriado horas depois de ter nascido pelos militares da última ditadura e entregue por um fazendeiro amigo dos ditadores a um casal simples, que cuidava de seus campos e que o chamou de Ignacion Hurban. 
 “O mais incrível para mim é que, depois de compartilhar muitas horas juntos, ao partir, meu neto me disse 'tchau, vó', e sentir que havíamos nos reencontrado para sempre”, disse Carlotto nesta manhã ao sair de sua casa en La Plata.

A família conseguiu fazer o encontro em uma casa cuja localização até agora se mantém em segredo para proteger o jovem e sua namorada e se reunir com total discrição, sem que nada interrompesse esse momento tão esperado.

No final da noite, saíram as primeiras informações, mas só a família esteve no encontro, que foi “longo, natural, como se sempre estivéssemos estado juntos”, disse a presidenta das Avós da Praça de Maio.

Ela falou sobre seu neto recuperado como um “ser maravilhoso, especialmente sensível – como o descrevem muitos vizinhos de Loma Negra, onde vive agora com sua namorada – e eu tinha tanto medo de aborrecê-lo que não queria nem tocá-lo, mas o abraço que eu dei nele era foi o que por tantos longos eu estive contendo. O que encontrei foi um ser humano maravilhoso, puro, simples, íntegro. Tudo nele é positivo e seu olhar é um olhar limpo, bonito”.

O rosto de Estela refletia uma alegria incontida nesta manhã.

“Precisávamos desse momento a sós, sem interferência, porque um reencontro era muito difícil. Mas tudo foi tão fácil e natural, uma comunicação que parecia estar estabelecida desde antes”, disseram familiares de Estela ao La Jornada.

“Nós o achamos muito sensível, compreensivo e muito parecido com seu pai”, disse Guido Kibo Carlotto, filho de Estela, que viveu parte de seu exílio na Nicarágua sandinista.

“Nós sabíamos como ia começar o encontro e ele (Guido) foi diretamente, sem titubear, procurar minha mãe e eles se fundiram em um abraço, que por certo fez a Estela e alguns de nós, os tios, chorar”, disse Kibo.

Para os irmãos de Laura Carlotto, “foi como se tivéssemos podido recuperar Laura, que ninguém duvidada que também estava ali, naquela noite, nas horas em que estávamos nos conhecendo... reconhecendo”, acrescentou.

Kibo disse que, desde o aparecimento de Guido, triplicaram as ligações de jovens que querem chegar à sede das Avós para deixar seu sangue – muitos deles suspeitam de sua identidade e “isso deve ser vivido como um triunfo de toda a sociedade”.

Também contou que seu sobrinho soube, em seu último aniversário, que não era filho de quem o criou, mas que seus pais adotivos o haviam “cuidado com boa fé, não sabiam de nada” e que isso o fez definitivamente ir às Avós.

A primeira coisa que o neto recém-encontrado fez foi falar com o casal simples que o criou, que o recebeu alguns dias depois de ter nascido. “Guido lhes pediu para que não vissem televisão, não escutassem rádio e que ficassem muito tranquilos, já que são pessoas muito simples e trabalhadoras, e agiram de boa fé, não sabiam de nada”.

Claudia Carlotto, outra tia de Guido, que também era procurada pelos militares da ditadura em 1977 e conseguiu escapar, agora está à frente da Comissão Nacional pelo Direito à Identidade. Ela descreveu seu sobrinho como uma pessoa muito inteligente, tranquilo, com humor similar ao da família e com muitos recursos para assimilar isso que está vivendo. Falamos durante horas e rimos, com sanduíches, mate e também carne e cerveja”, relatou Claudia.

Da mesma forma, disse que o jovem contou com precisão e muito humor como foi “o processo por meio do qual, em poucos dias, deixou de ser um músico da cidade Olavarría para se tornar neto de Estela de Carlotto” e que hoje a família acordou acreditando que estava vivendo um sonho maravilhoso.

Cláudia também se referiu ao fato de como a notícia se tornou pública neste caso, um tema que foi questionado por vários setores porque “em situações como esta, é preciso cuidar precisamente do neto recuperado. Se Guido tivesse sabido pela televisão, teria sido nefasto. Já começaríamos a relação com desconfiança”, disse, referindo-se ao anúncio da juíza María Servini de Cubría sobre o aparecimento do jovem e ao fato de sua identidade ter se tornado pública de imediato, o que não é a metodologia das Avós.

Um certo mal estar com a juíza

Também existe um certo mal estar porque a mesma juíza convocou Guido Montoya Carlotto para prestar depoimento, apesar de as Avós, tanto neste como em outros casos, pedirem um tempo para que sejam chamados pela justiça, já que devem enfrentar uma situação muito difícil.

Neste caso, e sem saber por que, transgrediram-se várias normas que foram seguidas até agora em um tema tão sensível, como é o caso das crianças nascidas em cativeiro ou sequestradas junto a seus pais e que foram roubadas por militares da ditadura passada (1976-1983) em um plano sistemático do esquema de terrorismo de estado então implementado. “O aparecimento de cada neto é a confirmação do que foi esse terrorismo, mas é também uma forte mensagem de que a verdade se impõe sobre qualquer intenção de manter a impunidade. E, mais ainda, é uma bela mensagem do amor daqueles que não estão mais conosco. É seu regresso para fortalecer nossa luta e nossa esperança”, disse Carlotto recentemente em uma entrevista a este jornal.

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