sábado, 2 de agosto de 2014

AMÉRICA LATINA E CARIBE: QUATRO MEDIDAS PARA MANTER O CRESCIMENTO

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(Foto: Carta Maior)

A América Latina e Caribe é a região mais desigual do planeta em termos de renda, segundo o Relatório de Desenvolvimento Humano 2014 da ONU.

Mas é também a que melhor tem conseguido reduzir o distanciamento entre os mais ricos e os mais pobres.

A região só começou a alterar sua trajetória histórica de 500 anos de espoliação e desigualdade a partir dos anos 90, com o início da chegada dos governos populares.

Os grupos que dominam os meios de comunicação representam um perigo real tanto à estabilidade econômica quanto política.

Por Najla Passos, do portal Carta Maior, de 29/07/2014

A América Latina e Caribe é a região mais desigual do planeta em termos de renda, segundo o Relatório de Desenvolvimento Humano 2014 da ONU, lançado na semana passada. Entretanto, conforme atesta o mesmo documento, é também a que melhor tem conseguido reduzir o distanciamento entre os mais ricos e os mais pobres: na contramão do que ocorreu nos continentes mais consolidados, a região continuou crescendo mesmo após a crise econômica mundial de 2008, ainda que em ritmo menos acelerado.

A situação, porém, não é confortável. Como o passivo histórico é imenso, precisa não só aprofundar as políticas de redução da desigualdade, como assegurar que os milhões que saíram da pobreza não voltem a engrossar as estatísticas negativas, caso ocorram revezes financeiros, naturais ou mesmo políticos. De acordo com o relatório da ONU, apesar da melhoria na qualidade de vida, 45 milhões de latino-americanos e caribenhos ainda vivem em situação de vulnerabilidade.

Confira quatro medidas apontadas como prioritárias por lideranças da esquerda para assegurar não só a democracia e a soberania da região, mas também a trajetória de crescimento e redução da desigualdade:

1 – Fortalecer o Brics
O mundo bipolar que atribui poder demasiado ao norte nunca favoreceu a região mais populosa do planeta. Muito pelo contrário. E construir um mundo multipolar significa, necessariamente, quebrar a hegemonia norte-americana, por meio do fortalecimento de outros blocos, como o Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). E mesmo que, dentre os países da América Latina e do Caribe, apenas o Brasil faça parte dele, os demais entendem que o bloco dos emergentes é, hoje, a melhor aposta do sul para o contraponto com o norte. O Brics concentra 40% da população e 25% da PIB mundial. Tem cacife suficiente para, por exemplo, desbancar o FMI como única fonte de financiamento para os países da região. E isso, sem dúvida, reduziria o poder dos Estados Unidos.

2 – Avançar na integração via Unasul
A integração dos países da América Latina e Caribe não interessa aos Estados Unidos, que perde poder econômico e político com ela. Para os demais, traz vantagens tanto em termos de competitividade econômica no mercado global quanto em soberania política. E o instrumento para isso é o fortalecimento do bloco local, chamado de Unasul que, nos últimos anos, vem sofrendo a contraposição incansável do bloco de direita, a Aliança do Pacífico, articulada pelos governos conservadores que comandavam Chile, Peru, México e Colômbia. Por isso, lutar pela integração do continente inclui esforços para o fortalecimento da Unasul.

3 – Defender os avanços conquistados pelos governos populares
Como demonstra o relatório da ONU, a região só começou a alterar sua trajetória histórica de 500 anos de espoliação e desigualdade a partir dos anos 90, quando Hugo Chaves (Venezuela) chegou ao poder, seguido, nas décadas seguintes, por governos populares como os de Luiz Inácio Lula da Silva (Brasil), Evo Morales (Bolívia), Michelle Bachelet (Chile), Cristina Kirchner (Argentina), Rafael Correa (Equador) e Pepe Mujica (Uruguai), dentre outros. Agora, porém, as direitas nacionais, já rearticuladas, lutam de forma árdua para voltar o poder. Há uma restauração conservadora em curso que ameaça os avanços conquistados nas últimas décadas.

4 – Regular os meios de comunicação
Nas democracias modernas, o poder da mídia se converteu em poder político. E na América Latina e Caribe não é diferente: os grupos que dominam os meios de comunicação representam um perigo real tanto à estabilidade econômica quanto política, já que, mesmo sem nenhuma legitimidade democrática, teimam em impor suas agendas, submeter os governos eleitos pelo voto e manipular as informações que chegam às populações. E para assegurar a representatividade de todos no debate público que passa necessariamente pela mídia, é preciso entender que censura e regulação da comunicação são coisas bem diferentes. Se todos os poderes democráticos são regulados por normas severas, por que só a mídia não o pode? O momento é de superação deste tabu.

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