terça-feira, 15 de julho de 2014

O SONHO DA PAZ ETERNA



(Foto: Página/12)
Experts em guerra declararam que com as pistolas (de fabricação alemã) exportadas foram mortos mais seres humanos do que com as bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki.

Os pacifistas do mundo esperam agora que o governo alemão feche definitivamente essa empresa armamentista que cometeu o delito de exportar armas à Colômbia através dos Estados Unidos.

Por Osvaldo Bayer, de Bonn, Alemanha – reproduzido do jornal argentino Página/12, edição de 05/07/2014

Já falamos em artigos anteriores dos 100 anos transcorridos desde a Primeira Guerra Mundial. 1914. Com milhões de jovens soldados mortos. Mas o ser humano não aprende da história. Enquanto os políticos, os sacerdotes, as associações feministas prometeram depois das duas experiências de terror o “Nunca mais”, a realidade – com uma hipocrisia desmedida – nos mostra a outra cara. A realidade. Justamente quando se cumprem os 100 anos da insuperável estupidez humana, desmedida, da Primeira Guerra Mundial (nem falar da segunda 1939-45), a ministra alemã da Defesa, Ursula von der Leyen, anunciou que se vão armar os aviões Dohner, os pequenos aviões de observação sem piloto. Vão ser “atualizados” com todas as armas que levam os aviões de guerra; bombas, foguetes, metralhadoras, etc. etc.

Isto causou uma reação plena de angústia e tristeza na Alemanha pacifista, aquela que quer aprender de seu passado de guerras e busca a paz eterna. Justamente uma mulher, Ursula von der Leyen. O governo escolheu precisamente uma mulher como ministra da Defesa (ou da Guerra, como se dizia antes) porque, em si, a mulher é decididamente pacifista, porque traz vida. E mais, a ministra Von der Leyen é mãe de sete filhos, nada menos. Que melhor modelo para buscar a paz, que é a vida. No entanto, comoveu a opinião pública aconselhando nada menos que fazer agressivos os aviões de observação. A polêmica começou. Quando o jornal Süddeutsche Zeitung lhe perguntou: “Por que armar os drones?”, ela respondeu: “Porque nos últimos meses tivemos a experiência que a segurança é somente uma espécie de fotografia instantânea, porque desde os conflitos na África e as crises no Oriente Médio até os problemas no Iraque e Ucrânia nos levaram ao convencimento de que um mundo em plena paz não é nada natural, mas que temos de criá-lo. É muito difícil calcular como os conflitos vão se desenvolver no futuro no mundo. E para isso deveremos ter preparada a defesa de nossos soldados e soldadas (?) com armas úteis”.

Quer dizer, para combater as armas, mais armas. Como único remédio. Mas o que tem o ser humano em seu cérebro? Se até uma mulher, mãe de sete filhos, acredita nas armas como único remédio. O que podemos esperar para o futuro?

Se acaba de publicar o apoio que as duas igrejas cristãs, a católica e a evangélica, deram em 1914 aos exércitos de cada país em guerra e a bênção de seus mortos, ao invés desses sacerdotes percorrerem as frentes de batalha mostrando a cruz entre ambos os contendores. Todos cristãos.

Mais armas, já. E pior ainda. O jornalismo alemão destes dias se tem ocupado do grande negócio da venda de moderníssimas pistolas germanas ao governo da Colômbia. Apesar da Alemanha ter proibido essa venda a países com conflitos internos, como a Colômbia. A negociação se fez assim: a empresa alemã Sig Sauer, de fabricação de armas, exportou aos Estados Unidos 98.000 pistolas ultramodernas marca SP2200 por 70 milhões de dólares. E os Estados Unidos as entregaram à polícia colombiana para combater a guerrilha.

Agora ficou tudo às claras. O fabricante de armas se defende dizendo que ele  exportou aos Estados Unidos. Mas a verdade é que a empresa estadunidense importadora tem relações de dependência com essa fábrica alemã. Um ardil por demais sujo. Se acredita que durante anos foram realizados esses negócios para armar exércitos e polícias de governos ou ditaduras amigas. As investigações comprovaram que as armas são fabricadas em Eckenförde, dali são exportadas a Exeter, Estados Unidos, e desse lugar enviadas à América Latina. Os estudos demonstraram que com essas armas já morreram mais de meio milhão de latino-americanos. Agora se está investigando como milhares dessas pistolas chegaram à Líbia, na África. Também foram encontradas essas armas ultramodernas em Kajastán. Incrível.

Um país que teve duas guerras atrozes num quarto de século continua fabricando armas para o mundo. Que não é outra coisa senão exportar a morte. Experts em guerra declararam que com as pistolas exportadas foram mortos mais seres humanos do que com as bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki. Na última década, a Alemanha permitiu oficialmente a exportação por um bilhão de euros de pistolas e munição. Em 2013 foram permitidas exportações de armas por 135 milhões de dólares. 43% mais que no ano anterior. E aqui cabe outra vez a pergunta: por que diante desta realidade não reagem as igrejas e os partidos políticos que se dizem democráticos e os intelectuais e operários de toda Europa?

Os pacifistas do mundo esperam agora que o governo alemão feche definitivamente essa empresa armamentista que cometeu o delito de exportar armas à Colômbia através dos Estados Unidos. E que comece uma campanha para terminar definitivamente com o comércio de armas.

Quando os movimentos pacifistas do mundo poderão triunfar e terminar com o grande negócio da violência? Quando chegaremos a realizar o sonho do filósofo Kant da paz eterna?

Tradução: Jadson Oliveira

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