domingo, 27 de julho de 2014

FUNDOS-ABUTRE: A COMUNIDADE INTERNACIONAL NÃO EXISTE



(Foto: Página/12)
Que grande aposta seria conseguir mostrar que na América Latina pulsa outro modo de manter a presença do mundo em suas possibilidades abertas, por fora do desejo dos grandes poderes de habitar o planeta como bestas.

Por Jorge Alemán (*) – da seção de Opinião do jornal argentino Página/12, edição de 25/07/2014

Agora sim que estamos assistindo a expressão definitiva dum feito histórico: se podem destruir povos, derrubar aviões, os fundos-abutre e o capital financeiro podem tentar destruir a barreira da soberania, etc., que não existe nenhuma instância mundial, organismo internacional ou potência geopolítica que possa intervir de modo determinante.

Assistimos o eclipse definitivo dos mecanismos políticos de regulação e a  reconfiguração dum novo tipo de realidade geopolítica, onde se insinuam as primeiras alianças. Desde qualquer celular ou tela se pode filmar todo tipo de massacres, sem necessidade de apelar ao “véu” da Segunda Guerra Mundial frente à imagem. Faz anos, numa intervenção em Buenos Aires, me permitia assegurar que de agora em diante o horror mesmo velará o horror. A comunidade internacional se dissolve na sociedade do espetáculo. Isto significa  que estamos na época do “Outro que não existe”, onde nenhuma barreira ou bússola ética mantém ainda sua eficácia simbólica?

Por um lado é evidente que sim, por outro se deve constatar que esta ausência do Outro da regulação simbólica está atravessada pelo grande Outro do capital e o circuito da mercadoria, a única realidade que não se desmancha no ar. Não só a guerra, a matança, a extensão da dor não a afetam mas sim que a consolidam. Uma prova definitiva desta dissolução da comunidade internacional, que ainda conservava sua marca kantiana de aspiração à paz, é que o nome judeu, símbolo duma universalidade aberta, não encerrado em nenhuma identidade e vinculado com as grandes gestas emancipatórias do Espírito, possa ser apropriado ou queira ser apropriado por uma razão de Estado estritamente militar. Em que se converterá o mundo quando se confirme a vertiginosa queda dos organismos internacionais em sua capacidade reguladora? Talvez desta “animalidade” lograda falava o filósofo Kojêve em O fim da História. Que grande aposta seria conseguir mostrar que na América Latina pulsa outro modo de manter a presença do mundo em suas possibilidades abertas, por fora do desejo dos grandes poderes de habitar o planeta como bestas.

* Psicoanalista e escritor. Conselheiro cultural da Embaixada Argentina na Espanha.

Tradução: Jadson Oliveira

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