terça-feira, 1 de julho de 2014

COLÔMBIA E A TERCEIRA VIA: SANTOS FAZ ALARDE EM TORNO DO SEU NEOLIBERALISMO



Juan Manoel Santos (Foto: Carta Maior)

Juan Manoel Santos ostenta seu neoliberalismo em sua fracassada vertente, a Terceira Via, após ter sido eleito com votos de setores políticos de esquerda.

Por Cristóbal González (*) – reproduzido do portal Carta Maior, de 29/06/2014

Juan Manoel Santos ostenta seu neoliberalismo em sua fracassada vertente, a Terceira Via, depois de ter sido eleito com os votos de setores políticos de esquerda, progressistas e independentes, que não o apoiaram pessoalmente, mas sim o diálogo que seu governo promove em Havana com as Farc em busca de cessar as hostilidades de um conflito armado que já dura cinquenta anos. E também contra a nefasta possibilidade de o ex-presidente Álvaro Uribe regressar à Casa de Nariño em um possível governo de seu fantoche Zuluaga.

Convencido e acreditando convencer, ele apresenta a tal tendência como uma corrente ideológica progressista, repetindo o discurso de seu livro, publicado anos atrás, chamado “A Terceira Via” (La Tercera Vía), com prólogo do ex-premiê inglês Tony Blair, que colocou em prática as ideias do sociólogo britânico Antony Giddens, com as quais pretendia dar uma nova cara à social-democracia, em desprestígio desde então.

As atitudes políticas dos personagens da terceira via honram seu nome. Caminham sobre uma corda bamba, fazendo constantes malabarismos e, quando os conflitos se agudizam e se tornam críticos, se desequilibram e ficam do lado dos poderosos. Enquanto não há crise, parecem ser justos, dando a razão a uns e a outros. Mas quando há crise, dão a razão a quem tem poder econômico e político.

Santos está convocando para o próximo 1º de julho, em Cartagena das Índias, uma cúpula com ex-governantes de passado obscuro, todos gestores da tal tendência na América Latina e em outros lares. Entre eles, vários fazem lobby com transnacionais financeiras que especulam e roubam em nossos países, com “abutres” que atuam na Argentina e estão a ponto de dar um golpe na economia do país-irmão.

Santos confirmou a presença de Tony Blair, marcado por ser, junto de George W. Bush e José María Aznar, responsável pela invasão do Iraque, mentindo sobre a existência de armas de destruição de massa no país do Oriente Médio. E com Bill Clinton, ele também é responsável pela guerra contra a Iugoslávia e, especificamente, pelo bombardeio de 79 dias que causou o genocídio de Kosovo em 1999.

Para completar o aquelarre (ver observação), virá o ex-presidente espanhol Felipe González, lobista do magnata mexicano Carlos Slim e membro do conselho de administração da multinacional Gas Natural Fenosa, além de ser assessor do golpista venezuelano Henrique Capriles. Será seguido pelo ex-presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso e o chileno Ricardo Lagos, defensores do modelo neoliberal e críticos ferrenhos dos governos progressistas desta parte do mundo.

Santos justifica o encontro afirmando que “vamos relançar a Terceira Via porque acreditamos que, neste momento da história, esses princípios nos facilitarão reencontrar um norte e já o estamos avistando em muitas frentes, tanto na Europa como na América Latina, inclusive na Ásia”.

Mas muitos intelectuais no mundo acham o oposto. Entre eles James Petras, sociólogo norte-americano. Ele explica que “a ideologia da Terceira Via serviu para justificar a virada à direita da social-democracia. Ao tomar o controle do aparato político dos antigos partidos social-democratas, os líderes desta tendência controlam os palanques para subordinar a base trabalhadora a novos capitalistas do mercado”.

Os idealizadores desta tendência repetem seu refrão aparentemente progressista “o mercado até onde for possível, o Estado até onde for necessário”, quando, na verdade, nos momentos críticos, se inclinam mais para o lado do capital.

(*) Jornalista e professor universitário

Tradução: Daniella Cambaúva

Observação do Evidentemente

Esquerda e progressistas são minoritários

Peço licença ao autor do artigo para observar que é certo que o presidente colombiano foi reeleito com votos de “setores políticos de esquerda, progressistas e independentes, que não o apoiaram pessoalmente, mas sim o diálogo que seu governo promove em Havana com as Farc”. Mas como foi dito, dá uma falsa impressão duma força eleitoral que, na verdade, tais setores não têm (infelizmente), segundo me parece.

Como a diferença para o candidato da ultra-direita uribista foi pequena, é de se supor que tal apoio foi fundamental para a vitória de Santos no segundo turno (no primeiro Zuluaga foi o mais votado). Mas, creio eu, os “setores políticos de esquerda, progressistas e independentes” não deixam de ser bem minoritários. Lembrar que a candidata da esquerda (ou centro-esquerda - do Polo Democrático Alternativo, apoiada pela União Patriótica), Clara López, obteve apenas 15% dos votos no primeiro turno, ficando em quarto lugar.

O apoio desses setores a Santos (um homem de trajetória na direita, ex-ministro da Defesa de Uribe e seu candidato quando conseguiu o primeiro mandato presidencial), como ficou claro no texto, foi devido tão somente ao diálogo em busca da paz, diálogo sustentado pelo presidente e rechaçado pelo ultradireitista Uribe.

No mais, encontrei a palavra “aquelarre” no dicionário espanhol, significando, resumidamente, “reunião noturna de bruxos”.

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