sábado, 31 de maio de 2014

SNOWDEN: O ESPIÃO QUE NÃO PODE VOLTAR PARA CASA



O ex-agente Snowden (à dir.) disse à NBC que nunca tinha tido intenção de ficar na Rússia (Foto: Página/12)

O ex-agente secreto desejaria regressar para os Estados Unidos, porém pedirá uma prorrogação de tempo na Rússia: Snowden disse que não era um “programador de sistemas de nível inferior”, como afirmavam as autoridades estadunidenses. “Fui treinado como um espião no sentido tradicional da palavra. Vivi e trabalhei no estrangeiro de maneira encoberta.”


Por Tim Walker (*) – matéria reproduzida do jornal argentino Página/12, edição de ontem, dia 30 (o título acima é deste blog)


O secretário de Estado dos Estados Unidos, John Kerry, instou Edward Snowden a “ser um homem e regressar aos Estados Unidos”, depois dele haver concedido uma ampla entrevista a um canal de televisão dos Estados Unidos. O ex-analista da Agência de Segurança Nacional acusou o governo estadunidense de “enganar” o público sobre o alcance de seus antecedentes de inteligência e experiência e disse que quer voltar à sua casa nos Estados Unidos. “Se pudesse ir a qualquer lugar do mundo, esse lugar seria minha casa.” Ao mesmo tempo, adiantou que pedirá uma prorrogação de sua estadia na Rússia, já que seu visto vence em 1º de agosto. O ano passado Snowden, de 30 anos, vazou uma grande quantidade de documentos classificados aos meios de comunicação, revelando o alcance dos programas de vigilância secreta dos Estados Unidos e desencadeando um debate internacional sobre o equilíbrio entre a privacidade e a segurança. Entrevistado pelo jornalista da NBC Brian Williams, em Moscou, para onde fugiu após os vazamentos, Snowden disse que não era um “programador de sistemas de nível inferior”, como afirmavam as autoridades estadunidenses. Snowden assegurou que antes de vazar os documentos, em 2013, perguntou à NSA sobre a legalidade de suas práticas de vigilância e a resposta foi que “deixasse de fazer perguntas”.


“Fui treinado como um espião no sentido tradicional da palavra. Vivi e trabalhei no estrangeiro de maneira encoberta, fingindo que trabalhava em algo em que não trabalhava, e inclusive me foi destinado um nome que não era o meu”, afirmou Snowden. Porém agregou: “Sou um expert técnico. Não trabalho com as pessoas. Não recruto agentes. O que faço é por em funcionamento sistemas para os Estados Unidos. É o que fiz em todos os níveis: desde abaixo até chegar encima”.


O governo de Obama vem tentando diminuir a importância, em repetidas ocasiões, do papel de Snowden nos serviços de inteligência. “Estão tentando  usar uma posição que tive durante minha carreira, aqui ou ali, para tirar a atenção da totalidade de minha experiência, que é ter trabalhado para a Agência Central de Inteligência, como agente secreto, no estrangeiro”, explicou.


“Trabalhei para a Agência de Segurança Nacional, como clandestino, no estrangeiro. E trabalhei para a Agência de Inteligência da Defesa, como professor na Academia de Treinamento Conjunto de Contra-inteligência, onde desenvolvi fontes e métodos para manter nossa informação e as pessoas seguras nos locais mais hostis e perigosos de todo o mundo.”


A entrevista teve lugar no hotel Kempinski, em Moscou, na semana passada, depois de vários meses de negociações entre a NBC e representantes de Snowden. A entrevista de uma hora, a primeira concedida a uma emissora de notícias dos Estados Unidos, foi ao ar na terça-feira em horário de maior audiência.


Snowden disse na entrevista que ele nunca havia tido a intenção de permanecer na Rússia, mas que estava num voo de conexão com Cuba quando os Estados Unidos revogaram seu passaporte, o que o obrigou a permanecer em Moscou. Ao pedir-lhe que responda, Kerry disse à NBC: “Para ser alguém supostamente inteligente, essa é uma resposta bastante tola”.


E continuou: “Se Snowden quer regressar aos Estados Unidos hoje, o colocaremos num voo hoje mesmo, ele deveria voltar, e isso é o que faria um patriota. Um patriota não fugiria nem buscaria refúgio na Rússia ou Cuba. Um patriota enfrentaria os Estados Unidos e apresentaria seu caso diante do povo estadunidense. O fato é que ele pode voltar para casa, mas ele é um fugitivo da Justiça, por isso não está autorizado a voar ao redor do mundo”.


A primeira grande consequência legislativa dos vazamentos propiciados por Snowden ocorreu na semana passada, quando a Câmara de Representantes aprovou que se ponha fim ao armazenamento massivo de dados telefônicos por parte da NSA.

* De The Independent, da Grã Bretanha. Especial para Página/12.


Tradução: Jadson Oliveira (nota postada logo abaixo é sobre o mesmo tema)

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