sábado, 17 de maio de 2014

MILITÂNCIA KIRCHNERISTA: UM ENCONTRO PARA “A CONTINUIDADE DO PROJETO”



O ato se converteu numa demonstração de unidade do kirchnerismo (Foto: Dafne Gentinetta/Página 12)
Cerca de 20 mil militantes kirchneristas se reuniram no Mercado Central (em Buenos Aires) em mesas de debate: Jorge Capitanich abriu os trabalhos com as palavras do título acima. Carlos Zannini, no encerramento, sublinhou “que não se trata de procurar candidatos, e sim de interpelá-los e empoderar a sociedade para que cada pessoa reclame seus direitos”.

(Este blog publicará outras matérias sobre este mesmo evento, traduzidas do Página/12. O objetivo é mostrar um dado político relevante: ao contrário dos governos “progressistas” do PT/Lula/Dilma, os governos “progressistas” de Néstor/Cristina Kirchner têm o respaldo, o empurrão e a cobrança duma militância ativa, inclusive da juventude)

Por Julián Bruschtein, no jornal argentino Página/12, de 28/04/2014

A militância kirchnerista lotou o mercado central para debater e consolidar seu espaço político. “A tarefa principal não é procurar candidatos (lembrar que Cristina não pode concorrer a uma segunda reeleição em 2015), e sim interpelá-los e empoderar a sociedade para que cada trabalhador, cada pessoa, reclame seus direitos”, disse o secretário Legal e Técnico, Carlos Zannini, que foi encarregado de encerrar o ato que havia começado às 12 horas. Ministros, governadores, prefeitos, deputados, legisladores e dirigentes circularam como iguais no mar de gente (cerca de 20 mil pessoas segundo os organizadores) que se reuniu em Tapiales para um debate massivo, pacífico e com muita ordem, apesar das várias agrupações que estavam representadas.

“Não se equivoquem. Não estamos transitando os últimos 20 meses dum fim de ciclo (oposicionistas argentinos sempre dizem que o fim do governo de Cristina é o fim dum ciclo), estamos transitando o início dos 20 meses que nos darão a continuidade dum projeto político”, assinalou o chefe de Gabinete (equivalente no Brasil a chefe da Casa Civil), Jorge Capitanich, ao dar o pontapé inicial da jornada de debate no auditório Néstor Kirchner do Mercado Central, num ato em que esteve acompanhado pelo dirigente de La Cámpora (uma das principais entidades do movimento popular, especialmente forte entre a juventude, ligada ao kirchnerismo), Andrés Larroque, e pelo governador (da província – estado – de Buenos Aires) Daniel Scioli. Entre os que o rodeavam estava o presidente do Partido Justicialista (peronista) bonaerense (da província de Buenos Aires), Fernando Espinoza, que também saudou a convenção da militância k (kirchnerista).

“Este marco está mostrando uma unidade de concepção e de ação”, observou o prefeito de La Matanza, agregando que a plenária significava “a chave que nos vai continuar abrindo as portas rumo ao aprofundamento duma Argentina para todos”. O deputado Eduardo “Wado” De Pedro, o governador de Entre Ríos, Sergio Urribarri, e prefeitos da região em torno da capital se achavam no prédio do Mercado para participar do encontro da militância kirchnerista.
Duas bandeiras gigantes com as figuras de Néstor Kirchner dum lado e a presidenta do outro ornavam o edifício principal do Mercado Central e se destacavam no alto sobre as 10 barracas que abrigaram os grupos de discussão. A comissão de Urbanização e Acesso ao Habitat teve na mesa os dirigentes sociais Luis D’Elía, de MILES, e Milagro Salas, da Tupac Amaru (duas entidades dos movimentos sociais), ademais do prefeito de Morón, Lucas Ghi, entre outros. “Nós não existimos para o Governo da Cidade (é como eles se referem à prefeitura de Buenos Aires, que é governada por Mauricio Macri, um dos aspirantes da direita à presidência). A Villa 31 (a “favela” mais famosa da capital argentina) nem sequer aparece num mapa”, apontava uma mulher madura contando a experiência em seu bairro ao trocar pontos de vista com os dirigentes. De quando em quando se escutava um estalar de aplausos logo após alguma intervenção festejada nas barracas.

“Plenária da Militância. A Militância Debate Constrói Futuro”, foi o lema do encontro que mobilizou os cerca de 20 mil militantes. A data do encontro evocava os 11 anos completados desde que Néstor Kirchner ficara às portas da presidência, ao obter o segundo lugar na votação geral, resultando na renúncia do ex-presidente Carlos Menem de disputar o segundo turno da eleição presidencial. De alguma maneira, essa data inaugurava o modelo político-econômico hoje encabeçado pela presidenta Cristina Fernández de Kirchner.

No prédio não havia diferenças entre dirigentes e militantes, mas sim “militantes com responsabilidades distintas”, como se escutava no meio dos comentários. O ministro da Defesa, Agustín Rossi, caminhava entre as pessoas até que alguém lhe pedia uma foto entre o mar de camisetas das agrupações que se diferenciavam por suas cores. As brancas com celeste eram de La Cámpora, as celestes completas de Novo Encontro, as amarelas do Movimento de Unidade Popular e as negras com o perfil de Evita em branco da Corrente Peronista Descamisados, todos misturados. Em qualquer lugar onde se batia o olho havia grupos de militantes de distintos movimentos debatendo ou tirando um descanso dos debates.

Os temas eram distribuídos pelas barracas: Recursos estratégicos e recuperação do Estado; Comunicação e batalha cultural; Justiça, segurança e direitos humanos; Pátria grande e política internacional; Gestão, desenvolvimento local e federalismo; Políticas de inclusão social; Educação, ciências e tecnologia; e Pensamento nacional. Na sombra da barraca de Trabalho e Produção se encontraram dirigentes de quase todas as centrais sindicais. Ali se misturavam trabalhadores da Gráfica Patricios com os da Associação dos Trabalhadores do Estado, que escutavam atentos o ministro do Trabalho, Carlos Tomada, o secretário geral da Central dos Trabalhadores da Argentina, Hugo Yasky, o empresário e dirigente da União Industrial Argentina, Juan Lascurain. Ademais dois dirigentes da Foetra (entidade dos trabalhadores das telecomunicações), Ricardo Ladarola e Carlos Marín, um da CTA e outro da CGT. Nas proximidades Abel Furlan, líder da seccional Campana da União Operária Metalúrgica e mão direita de Antonio Caló, dava sua adesão com sua presença.

“Este é um lugar de encontro e síntese onde se entrecruzam os companheiros de forma horizontal. É um ponto de inflexão na construção política”, disse Larroque em conversa com Página/12 logo após o ato de encerramento, e acrescentou que “logramos a recuperação da política como ferramenta de transformação. Sob a condução de Cristina, a direção tem que representar a militância e os militantes têm que representar os moradores. Essa correia de transmissão é o que importa para construir de forma coletiva”.

As barracas foram fechando uma a uma com o canto da marcha peronista para a mudança até o cenário onde estava armado o ato de encerramento. As grades foram cobertas pelas agrupações: Kolina, o MUP, a Corrente Peronista Descamisados, La Cámpora, o Movimento Evita, Novo Encontro, a Frente Grande, JP bonaerense e inúmeras bandeiras com a inscrição de Unidos e Organizados foram o pano de fundo e davam a ideia da transversalidade da proposta. Depois dum vídeo onde se sintetizaram os 11 anos do modelo kirchnerista em frases e imagens de Néstor Kirchner e da Presidenta, o hino foi entoado com entusiasmo.

Zannini destacou que “a tarefa principal não é procurar candidatos, e sim interpelá-los e empoderar a sociedade para que cada trabalhador, cada pessoa reclame seus direitos”, dirigindo-se aos militantes, pondo em segundo plano a escolha duma candidatura presidencial, e dando passagem a que se dispersasse a multidão que havia participado da jornada, cujas conclusões serão elaboradas nos próximos dias.

Tradução: Jadson Oliveira

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