terça-feira, 20 de maio de 2014

FERNANDO BUEN ABAD: BASES MIDIÁTICAS NA AMÉRICA LATINA: UM PROBLEMA DE SEGURANÇA REGIONAL




Isso é um problema de segurança dos povos: a agressão mais brutal das máfias midiáticas é contra a classe trabalhadora e os estragos são incontáveis, aberrantes, monstruosos e injustos. Ficaremos de braços cruzados?

Por Fernando Buen Abad (filósofo mexicano), no portal Nodal – Notícias da América Latina e Caribe, de 19/05/2014

Como temos que dizê-lo?

Hoje se comportam como um exército golpista cada dia mais coordenado, mais veloz e mais ubíquo. São o aríete das vanguardas invasoras e gozam de impunidade absoluta para mentir, em toda escala, inclusive com argumentos aberrantes que desafiam todo bom senso e toda justiça. E um de seus “valores” mais fortes consiste em nos fazer crer que são invencíveis e que devemos lhes agradecer que nos desestabilizem, nos explorem e nos enganem. Já se repetiu até o cansaço, já se denunciou em mil e um foros, os danos estão à vista e os perigos de seus ataques são terrivelmente graves.

Que esperamos para atuar? Nos vence o medo? Nos derrotam suas mentiras? É mais conveniente não reagir? Que fazer? Isso já não é apenas um problema de “liberdade de expressão”, apenas de “diversidade de vozes” ou apenas de “democratização das ferramentas”, é tudo isso junto e, ademais, é um problema de segurança nacional… um problema de segurança regional. Aos povos só nos salvam os povos.

Seria suficiente contar com uma cifra bem elaborada sobre o volume de dinheiro que manejam em toda a região para que isso, por si mesmo, alertasse sobre a ameaça política que implica a rede de “Bases Midiáticas” que proliferou sem controle. Seria suficiente mostrar os nomes das “famílias” monopólicas e sua conduta latifundista dentro do controle dos meios de comunicação.

Seria suficiente entender como comercializam com a tecnologia para a transmissão de informação, como convertem em mercadoria o tempo e o espaço de suas “concessões”, como influem sobre a “opinião pública” e como se imbricaram inclusive em negócios incompatíveis… para entender a envergadura dum problema imenso que sobrepôs a toda lei, todo bom senso e todo governo. Seria suficiente ver quantos casos de desestabilização golpista alentaram a partir de seus “meios de comunicação” para não tardar mais uma ação política continental de repúdio, freio e redirecionamento dos meios e modos da comunicação. E no entanto…

Tem sido um erro deixá-los fazer metástase ideológica e é um perigo esse desenvolvimento monopólico das ferramentas de “comunicação” que proliferou em nossos países com toda  impunidade e cinismo. É um erro óbvio e um perigo crescente que deixa a descoberto não só debilidades e ignorâncias, também cumplicidades - conscientes ou inconscientes - que custam muito caro aos povos, porque eles, os monopólios, tendem a radicalizar e aperfeiçoar seus instrumentos de defesa e de ataque.

As Bases Midiáticas controlam economias inteiras (bancos, empresas, turismo… “farándula” [tradução literal: farândola]). Controlam escolas, universidades e institutos de todos os níveis e de todos os perfis. Controlam transferência tecnológica, publicidade, distribuição e armazenamento em matéria de comunicações. Controlam campanhas e processos eleitorais e suas rotinas informativas, passo a passo. Controlam a produção de papel, o tempo livre e o gasto em bebidas alcoólicas, locais de apostas, esportes e espetáculos. Controlam modas e tendências ideológicas, venda de livros, folhetos e “opinología de ocasión” (seria o nosso “achismo”?). Controlam os valores e os antivalores como a “beleza”, o “feio”, o “bom”, o “mau”, o “exitoso”, e mais a violência física e psicológica televisionadas sem freio. Controlam o estado de ânimo e cancelam a liberdade de expressão. Controlam as leis, os regulamentos, os códigos, as jurisprudências e os juristas. Controlam a agenda temática de cada dia e de todos. Controlam o que deve ser visível e o que deve ser invisibilizado. Falta algo?

“A concentração dos meios de comunicação é reconhecida como um obstáculo à pluralidade. Em diversas regiões do mundo existem limites legais à concentração de muitos meios em poucas mãos, mas na América Latina esse não costuma ser um tema destacado na discussão acerca dos meios”. [1] TELEVISA (México) incrementou em 30,7% anual seus lucros no segundo semestre do ano. Os rendimentos se situaram em 18 bilhões e 65 milhões de pesos mexicanos (1,4 bilhão de dólares) [2]. A consultora McKinsey mostrou estudos nos quais a Internet representa 3,4% do PIB de 13 países (os do G8 - França, Estados Unidos, Alemanha, Grã-Bretanha, Itália, Japão, Canadá e Rússia, mais Brasil, China, Índia, Coreia do Sul e Suécia) e contribuiu com 21% de seu crescimento nos últimos cinco anos. [3] O principal serviço informativo em torno da situação da Internet no mundo estima que a população de usuários da web no planeta ascende a 1.733. 993.741. A penetração mundial da Internet foi calculada em 25,6%. [4] Percentagem das frequências de televisão controladas pela Televisa e TV Azteca (ambas do México) no país: 94%. [5]

Nós não podemos continuar nos equivocando. Erramos em matéria de comunicação, uma e outra vez. Continuamos expostos ao perigo da “guerra midiática” assimétrica e não conseguimos, mesmo sendo maioria, articular as forças - que sim possuímos -, com um programa emancipatório permanente. Nós não podemos nos cansar, nem podemos desistir, de todas as insistências transformadoras que nos permitam avançar e nos permitam completar nossas autocríticas e tarefas democratizadoras da comunicação. Isso é um problema de segurança dos povos: a agressão mais brutal das máfias midiáticas é contra a classe trabalhadora e os estragos são incontáveis, aberrantes, monstruosos e injustos. Ficaremos de braços cruzados?

Tradução: Jadson Oliveira

Notas:

[1] “Muchos Medios en pocas Manos” Raúl Trejo Delabrehttp://portcom.intercom.org.br/revistas/index.php/revistaintercom/article/viewArticle/146

[2] http://www.telesemana.com/blog/2013/07/10/televisa-incremento-un-307-sus-ganancias-en-la-primera-mitad-del-ano/#sthash.67uSFKYK.dpuf

[3] Internet y el G8 sin los usuarios http://www.rebelion.org/noticia.php?id=129208

[4] http://mexicanadecomunicacion.com.mx/rmc/2010/05/04/el-transito-a-los-ambientes-comunicativos/

[5] http://www.nexos.com.mx/?p=19191

[Fernando Buen Abad Domínguez es de Universidad de la Filosofía @ FBuenAbad

http://site.adital.com.br/site/noticia.php?boletim=1&lang=ES&cod=80608

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