sábado, 26 de abril de 2014

OS MOSCAS DE BOI – Memória do Bar Quintal do Raso da Catarina



Lustosa fez parte da primeira diretoria do Sindicato dos Bancários da Bahia após a queda dos pelegos da ditadura, em 1981. Aí em foto do último dia 21, no encontro dos "quintaleiros" no Colon (Foto: Jadson Oliveira)
Eram incontáveis os moscas que por ali circulavam. Faziam parte do ambiente. O chope de forno, o príncipe maluco, a carne de fumeiro, tudo fazia parte daquele espaço que não deveria ter acabado. Hoje, somos órfãos do Quintal.

Por Valdimiro Lustosa

No meu interior, toda pessoa “chata”, prosa ruim, a gente chamava de mosca de boi. Mosca de boi porque ela sempre volta ao mesmo lugar e com a mesma cantilena. O boi sacode o rabo, ela voa, mas volta e, nesse vaivém irrita o boi. Pois bem.  Metaforicamente, no Quintal, como em quase todo lugar, havia os moscas de boi. Sempre tenho dito que o Bar Quintal do Raso da Catarina era nossa Universidade Etílica, onde discutíamos política partidária, política sindical, futebol, religião, música, literatura, enfim  todos os assuntos de interesse social. Lá se formavam chapas sindicais, discutiam-se estratégias políticas, táticas e estratégias de atuação dentre outras. Faziam-se poesias sob o luar de luz fosca, já que a grande mangueira ali plantada quebrava um pouco a luz da lua, tornando o ambiente ainda mais “caliente”.

Quando eu descia os degraus e avistava um ou outro mosca, já ia de espírito prevenido para não me irritar. Conversava com Quitério para disfarçar os moscas. Quitério com seu jeito costumeiro e educado se encarregava de distanciar os moscas para um lugar mais isolado. Assim era a rotina do Quintal.

Uma certa noite, iniciando os “trabalhos”, pergunto a Quitério: tem mosca de boi na área? Quitério respondeu com seu sorriso peculiar e disse: e como tem! “P”, poeta, competente, tinha uma boa conversa quando estava são, mas no decorrer da noite e após alguns goles do chope de forno se transformava no verdadeiro “moscão”. Quitério enfatizou: tem um mosca de boi rondando por aqui e eu já nem sei se vou despachá-lo. “P” ouviu a conversa e rebateu: se é comigo pode mudar o rumo da prosa, porque eu não sou mosca de boi não. Eu compro e pago e não sou “godeleiro” não.  “P” se retou. Quitério não se conteve de rir. Não é com você não. Estou falando é de um outro que bebe e não quer pagar ou fica questionando a conta ou ainda “filando” na mesa dos outros. “P” rapidamente concluiu: eu sei o que é mosca de boi, pensa que não sei, eu também sou do interior e, realmente, não há nada pior do que se tolerar um mosca de boi. Por isso mesmo, já que você tá falando que tem mosca de boi na área eu vou me mandar para não ser contaminado.

“P”, depois desse episódio, demorou a voltar ao Quintal. Ele que era classificado como um tremendo mosca de boi, ao chegar no ambiente cuidava, talvez por ironia, de perguntar a Quitério se tinha mosca de boi no espaço. Quitério, com sua elegância (vestido com seu indefectível gibão de couro), respondia: “estão chegando...”

Eram incontáveis os moscas que por ali circulavam. Faziam parte do ambiente. O chope de forno, o príncipe maluco, a carne de fumeiro, tudo fazia parte daquele espaço que não deveria ter acabado. Hoje, somos órfãos do Quintal. O Bar fez parte da vida boêmia de muitos baianos. Temos que pensar, como bem disse Pedro Barbosa, em criar o MSB – MOVIMENTO DOS SEM BAR.

A idéia de Pedro Barbosa é mais que oportuna, porque os amigos estão ficando distantes, o medo de sair de casa também tem contribuído para esse distanciamento. Precisamos reinaugurar a nossa UNIVERSIDADE ETÍLICA nos moldes do saudoso Quintal que, se estivesse em funcionamento teria feito hoje (21.04.2014), 35 (trinta e cinco) anos de vida “UNITÍLICA” – UNIVERSIDADE ETÍLICA, cujo espaço inspirou poetas, músicos, escritores, grandes amizades e propiciou casamentos. Com a palavra nosso reitor FRANCO BARRETTO.

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