domingo, 6 de abril de 2014

ARGENTINA: OS LINCHADORES E OS OPORTUNISTAS

Não há nada que justifique a permanente campanha alimentada pelos grandes grupos de comunicação sobre a situação da segurança na Argentina. 

PorEric Nepomuceno, no portal Carta Maior, de 05/04/2014

Os índices de violência da Argentina, se comparados aos de outros países latino-americanos – o Brasil, por exemplo –, indicam um nível bastante satisfatório de segurança. Se comparada a alguns estados brasileiros – Alagoas, por exemplo –, ou a outros países do continente – El Salvador, por exemplo, ou a Venezuela –, a Argentina seria uma espécie de Vaticano. Ou, na pior das hipóteses, uma Noruega tropical.

Claro que há violência urbana, principalmente nas zonas mais carentes. No interior, a situação é mais grave. Não há nada, porém, que justifique a tensão em que vivem os argentinos, especialmente os de classe média das cidades grandes. E menos ainda a permanente campanha alimentada pelos grandes grupos de comunicação.

Os canais de televisão costumam dar enorme ênfase aos casos de assaltos em sinais de trânsito, realçando de maneira espetaculosa o que chamam de ‘clima de profunda inseguridad que se vive en el país’. Não é, nem de longe, para tanto.

E eis que, de repente, surge uma onda de linchamentos por todo o país. Na quinta-feira, dia 3, em Rosario, que disputa com Córdoba o posto de segunda maior cidade do país, um homem de 32 anos foi linchado por ter tentado violar uma moça. Enquanto ele era levado para o hospital, a polícia constatou que na verdade ele tinha tentado roubar a bolsa da moça em questão. Na terça-feira, dia primeiro, houve um linchamento em Córdoba. No domingo anterior, outro, em La Rioja. E na mesma quinta, outro mais, em Buenos Aires. Cada caso é trombeteado com furor pelos jornais, as emissoras de rádio, os canais de televisão. Não chega a ser um fenômeno geral, mas é certamente preocupante, e muito. É como se um caso estimulasse outro. Só em Rosário, houve cinco linchamentos em três semanas. E uma das vítimas, David Moreira, de 18 anos, acabou morrendo. Seu crime: ter tentado roubar a bolsa de uma mulher. Na bolsa havia, além de documentos, uma carteira com uns 200 pesos. Uns 50 reais.

Por trás dessa ressonância toda existem, claro, os objetivos políticos.
 
 

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