terça-feira, 22 de abril de 2014

50 ANOS DO GOLPE: RECORDAÇÕES DE UM SOLDADO “REVOLUCIONÁRIO”



Eis aí o soldado 228, Jadson, da Companhia do QG, safra 1964
Me recordo que um dia vi um grupo de prisioneiros políticos, todos civis, no pátio do quartel, um estava com a cabeça sangrando, fiquei espiando assim sem jeito, amedrontado, chocado.

De Salvador (Bahia) - Era perto das 6 horas da tarde do dia 31 de março de 1964, no quartel sede do comando da 6ª. Região Militar do Exército, na Mouraria, em Salvador. Os soldados estávamos deixando o quartel. Eu me preparava para ir à aula, cursava o terceiro ano do Clássico no Colégio Central (equivalente hoje ao 8º. ano do 2º. grau).



- Ei, atenção todos, não vai sair ninguém, estamos de prontidão, gritava o “sargento de dia”, o sargento de serviço naquele dia, o sargento Cruz, da área da saúde, tinha a cruzinha branca denotativa da “arma” no braço, junto do símbolo denotativo da patente (é pura coincidência se chamar Cruz e levar a cruz da “arma” da saúde). Se agitava no pátio do quartel, apressando o passo na direção da guarda na saída (ou na entrada) do prédio.



Pronto. Começava assim para mim a “prontidão” (para quem nunca foi militar: ficar aquartelado, sem sair do quartel, pronto para qualquer emergência). Começava assim para mim o que os militares chamaram “a revolução de 64”. E este aviso feito às pressas pelo sargento Cruz ficou como a lembrança mais viva que guardo do golpe de 64, eu, soldado 228, Jadson, da Companhia do QG.



Daí em diante foi torcer para que o comandante do IV Exército, sediado em Recife, a quem era subordinada a 6ª. Região, não aderisse aos golpistas, ficasse leal à Constituição, à “legalidade”. Pelo jeito, com toda ingenuidade, eu já tinha minhas quedas para a esquerda. Me lembro que torcia junto com um sargento com quem mantinha uma certa amizade, um sergipano de nome Medeiros (reencontrei uma vez com ele, muitos anos depois, eu repórter, ele, já reformado, assessor duma Secretaria estadual).



Nossa torcida, como se sabe, de nada valeu. Me lembro o sargento Medeiros saindo com um grupo de soldados para combater o pessoal do Corpo de Bombeiros, que naquela época era subordinado ao prefeito de Salvador, então Virgildásio Sena, que se rebelou contra o golpe. Mas os bombeiros se renderam sem combate.



O sargento comentou comigo que tinha escolhido uns “bons” soldados, nominou alguns, meus companheiros recrutas, muitos deles afamados entre nós como “barra pesada”, isto é, conhecidos por serem fortes e brigões.



Certamente meu amigo Medeiros não me escolheu e nunca me escolheria para tal missão. Na verdade, eu nunca fui de briga, ao contrário, eu era “peixada” dos sargentos justamente por ter opostas qualidades (ou defeitos): era “gente boa”, exímio datilógrafo e com instrução superior a todos os outros. Havia apenas um outro, Schetini, na mesma condição minha, trabalhávamos no serviço burocrático da Sargenteação, éramos “peixada” dos sargentos e quase nunca escalados para serviços “pesados”.



Foi assim que atravessei minha experiência de “soldado revolucionário” sem qualquer tipo de ação que implicasse em atuar diretamente na repressão. Me recordo que um dia vi um grupo de prisioneiros políticos, todos civis, no pátio do quartel, um estava com a cabeça sangrando, fiquei espiando assim sem jeito, amedrontado, chocado.



Depois vieram tanta coisa mais, tantas idas e vindas, tantos acasos, tantas lutas, tantos sonhos, tantas coisas boas, outras nem tanto, a vida, uma vida que encheu 50 anos, 50 anos! Quem diria!?



Estas recordações passaram num filme pela minha mente quando participei, no dia 1º. de abril, duma manifestação de antigos presos e torturados pela ditadura no antigo Forte do Barbalho, hoje Memorial de Resistência do Povo da Bahia, justamente dentro da programação dos 50 anos do golpe.



Eu entrei num sanitário com o companheiro fotógrafo Manoel Porto e ele comentou: “Isso é sanitário de quartel”. Respondi: “Conheço bem, Manelão. Você sabe que fui soldado ‘revolucionário’? Pois é, companheiro, me lembro como se fosse hoje, no final da tarde do dia 31 de março, há exatamente 50 anos, o sargento Cruz...”

3 comentários:

Ananindeuadebates Debates disse...

Uma vez falei com vc. sobre escrever sobre suas andanças pelo mundo. Colocar em um livro. Lendo esse texto afirmo vc é um grande cronista
Rui Baiano Santana

Jadson disse...

Obrigado, companheiro, grande abraço.
Vou escrever alguma coisa sobre os "quintaleiros" do nosso Sérgio Guerra. O encontro do dia 21 no Colón foi beleza, tenho um monte de fotos.
Devo incluir no meu texto algo (ou tudo) daquele e-mail que vc me mandou falando de suas saudades do Quintal. Posso usar, né?

Anônimo disse...

Claro companheiro é uma honra. Abcs
Rui Baiano Santana