sábado, 22 de março de 2014

VENEZUELA: “ESTAMOS EM MEIO A UMA TREMENDA GUERRA MIDIÁTICA GLOBAL CONTRA O PORCESSO BOLIVARIANO” (Parte 1)



(Foto: Carta Maior)

Franck Gaudichaud (foto), membro do corpo editorial do Rebelión.org e autor de vários livros sobre América Latina, analisa a situação política na Venezuela.

“Setores violentos da direita estão ganhando espaço na sociedade, fazendo uso da violência contra trabalhadores e militantes da periferia, erguendo barricadas (as “guarimbas”): são responsáveis pela grande maioria dos assassinatos das últimas semanas”.

“Precisamos questionar também as contradições e fragilidades da ‘revolução bolivariana’ e escutar as vozes críticas do movimento popular e revolucionário dentro e fora do chavismo”.

Por Valeria Ianni - Revista La Llamarada – entrevista reproduzida do portal Carta Maior, de 20/03/2014, dividida aqui em quatro partes. O título geral é “O debate hoje é como frear a violência ofensiva da direita neoliberal” (o título acima é deste blog)

A Venezuela está hoje em meio às intenções desestabilizadoras da direita, aos limites próprios ao processo bolivariano, e à possibilidade de a classe trabalhadora e o movimento popular fazerem avançar um projeto não isento de tensões e contradições.

Entrevista com Franck Gaudichaud, membro do corpo editorial do
Rebelión.org, doutor em Ciência Política e autor de vários livros sobre a América Latina, com uma pesquisa – orientada por Michael Löwy – sobre Poder Popular e os Cordones Industriales sob o governo de Allende no Chile (1970 -1973).

Como o senhor caracteriza a situação atual na Venezuela? O que se pode concluir dali?

Franck Gaudichaud: Como ponto de partida, é preciso reconhecer que estamos em meio a uma tremenda guerra midiática global contra o processo bolivariano. Por isso, é fundamental criar espaços de contrainformação. Para começar, diante de tanta desinformação, é preciso voltar a ressaltar que o processo bolivariano é um processo de longo prazo com amplas conquistas sociais (saúde, educação, redução da desigualdade), democratização (nova Constituição), crescente empoderamento e inclusão política das classes populares em uma relação muito tensa com o líder carismático que foi o Chávez. Esse processo também foi fundamental na constituição de novas soberanias nacional-populares e na criação da Alba, da Unasul e da Celac. Dessa forma, o retorno do neoliberalismo naquele país teria importantes e imediatos efeitos colaterais em toda a região. Tudo isso parece óbvio, mas é indispensável ressaltar o essencial e as correlações de forças geopolíticas em momentos nos quais os meios de comunicação dominantes – e a oposição venezuelana – falam de “ditadura castro-comunista” e de “genocídio na Venezuela”...

A situação atual é sumariamente tensa devido ao fato de que o setor mais reacionário da oposição apostou na violência e na desestabilização vinda das ruas.

Nesse contexto, existe uma tendência dentro das correntes de esquerda a simplificar nosso entendimento sobre a conjuntura, dizendo que ou se está contra o imperialismo ou a favor do golpe de estado “fascista”. Essa leitura binária me parece nefasta. Evidentemente, é preciso denunciar de maneira veemente a intenção “insurrecional” da direita, bem como se opor a ela. Sabemos que os EUA têm claros interesses geopolíticos nessa desestabilização; os laços entre os “Falcões” de Washington e a fração da oposição encabeçada por Leopoldo López na Venezuela não são uma teoria da conspiração, mas sim fato objetivo. Também existe uma intervenção real vinda da Colômbia e do “uribismo” (do ex-presidente Álvaro Uribe), bem como incursões paramilitares, sobretudo no estado fronteiriço de Táchira. Esses elementos são importantes.

Agora, estamos diante de um golpe de Estado, como o de abril de 2002? Pode-se falar em “fascismo”, sem com isso conseguir definir a dinâmica da oposição ao chavismo? Eu acho que não. Primeiro, porque as correlações reais de força são diferentes em relação a 2002. O Estado Maior e as Forças Armadas por ora apoiam o governo sem precedentes; a grande burguesia não aposta na violência e em uma saída extraconstitucional. A Fedecámaras (pode ser comparada com a Fiesp do Brasil) e os principais patrões (como Mendoza da Polar) participaram da conferência de paz com Maduro e condenaram a violência nas ruas. Isto é, os elementos-chave da conjuntura de abril de 2002 não estão presentes na conjuntura atual. Sim, há um setor da direita em torno do Leopoldo López que aposta claramente na violência das ruas, fazendo um chamado para derrotar Maduro. E o mais preocupante: esse setor conseguiu mobilizações muito importantes no estado de Táchira, em Mérida e com o movimento estudantil, mas também nas ruas de Caracas.

É certo que os participantes dessas mobilizações provêm essencialmente dos bairros ricos, da classe alta, média-alta, mas também da classe média já não tão alta. Setores violentos da direita estão ganhando espaço na sociedade, fazendo uso da violência contra trabalhadores e militantes da periferia, erguendo barricadas (as “guarimbas”): são responsáveis pela grande maioria dos assassinatos das últimas semanas. A oposição neoliberal está parcialmente fragmentada, mas cada um ocupa seu papel contra o processo: desde Henrique Capriles e o COPEI (Comitê de Organização Política Eleitoral Independente), que dizem apostar no diálogo após sucessivas derrotas eleitorais, até partidos como o Voluntad Popular, de Leopoldo López, ou como a associação Súmate e a deputada María Corina Machado, apostam na criação de um clima semi-insurrecional, sem esperar pelas próximas eleições. Alguns analistas, como Ignacio Ramonet, destacaram a existência de um “golpe de Estado lento”, baseado nas teorias de desestabilização de Gene Sharp.

No entanto, eu acredito que, da parte da esquerda anticapitalista, a questão-chave não é apenas denunciar tudo isso, mas também continuar pensando “abaixo e à esquerda” para entender – de maneira crítica e dialética – quais são os elementos dentro do próprio espaço do chavismo que permitem a existência de tanto descontentamento em vários estratos da sociedade, e não apenas no movimento estudantil. Nesse sentido, precisamos questionar também as contradições e fragilidades da “revolução bolivariana” e escutar as vozes críticas do movimento popular e revolucionário dentro e fora do chavismo. No Rebelión, temos publicado também vários autores venezuelanos que vão nessa direção: Roland Denis, Simón Rodríguez P., Javier Biardeau, Gonzalo Gómez, etc. (Continua)

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