terça-feira, 18 de março de 2014

ESTADOS UNIDOS CONTRA VENEZUELA



Nicolás Maduro com familiares de assassinados nas "guarimbas" (bloqueios e atos violentos da ultradireita) (Foto: Página/12)
A democracia que não elege o candidato da embaixada (estadunidense) é democracia que não serve para os EUA.

Os EUA voltam a se ver sem manual diante deste cenário modificado (na América Latina) e, então, em sua versão atual da doutrina Monroe, regressam às ameaças.

Que ninguém duvide de que a diplomacia dos EUA, em sua estratégia de dominação global, exige agora uma guerra local contra a Venezuela.

Por Alfredo Serrano Mancilla (*) – no jornal argentino Página/12, edição de 16/03/2014

Não é ficção científica nem filme de Hollywood. Tampouco se trata de paranoia conspirativa da Guerra Fria. Hoje, os Estados Unidos manifestam cabalmente sua intenção de acabar com o governo venezuelano. A democracia que não elege o candidato da embaixada é democracia que não serve para os Estados Unidos. O Norte jamais aceitou Chávez como presidente respaldado pelos povos do Sul; agora tampouco admite que o chavismo sem Chávez continue se construindo como legado que Chávez deixou na Venezuela e na América Latina. O manual de golpe lento de Gene Sharp está sendo eficaz para desestabilizar mas está sendo incapaz de derrocar a Revolução Democrática Bolivariana. Por que? Porque Chávez mudou tanto as regras que a guerra planejada –vinda de fora – se encontra agora fora de jogo. Apesar das mortes e do clima violento gerado nas ruas da Venezuela e do desgaste da imagem internacional de Maduro, o intento persistente de golpe não consegue seu objetivo final e, além disso, está dividindo a oposição. A violência concentrada exclusivamente nas zonas ricas do Leste de Caracas não é suficiente para apresentar-se como uma força alternativa de governo com amplo apoio popular. Henrique Capriles continua manifestando que necessita apoio das maiorias para ser presidente, enquanto Leopoldo López o busca com uma atitude violenta duma minoria. Realmente, não conseguem aprender como disputar com o chavismo o sujeito Povo.

A missão dos Estados Unidos já data do ano de 2002, com um golpe de Estado e o blecaute petroleiro na Venezuela. Em seguida, experimentaram com muitos candidatos e diferentes estratégias eleitorais visando acabar através das urnas com Chávez. Com a morte deste, se abriu ainda mais o apetite pelo impossível: eliminar o chavismo como nova identidade política. A primeira via foi novamente a eleitoral, em abril de 2013, mas perderam; por uma diferença mínima, mas perderam. A segunda vez foi mediante uma guerra econômica (especulação e desabastecimento de alimentos) durante meses para desembocar num plebiscito contra Maduro nas eleições municipais de dezembro último, porém, outra vez mais perderam e não por uma diferença mínima. Esperar, no entanto, até 2016, como ordena a Constituição venezuelana, para realizar um plebiscito revogatório, é algo tão democrático que não se encaixa nos planos golpistas. Nem os republicanos aceitam as leis da República Bolivariana, nem os democratas aceitam a democracia venezuelana, e por isso, o falso bipartidarismo dos Estados Unidos tem uma posição clara contra o povo venezuelano. As infrutíferas solicitações a seus organismos internacionais provocaram uma mudança de estratégia: Estados Unidos contra Venezuela. As Nações Unidas não lhes deram razão e a OEA lhes deu as costas. Não apenas isso, mas ocorre que a mudança de época, pós Chávez, obriga a dirimir questões do Sul no Sul. A ALBA rechaçou toda a ingerência dos Estados Unidos. A Celac também apoiou o governo da Venezuela para que continue os esforços para dialogar. E por último, a Unasul foi implacável em “rechaçar a violência e respaldar os esforços do governo da Venezuela”. Tudo isso é conquista de Chávez, mas também da experiência acumulada de Maduro à frente do serviço nas relações exteriores durante tantos anos e do bom desempenho do atual chanceler Elías Jaua em seus últimos giros.

Os Estados Unidos voltam a se ver sem manual diante deste cenário modificado e, então, em sua versão atual da doutrina Monroe, regressam às ameaças. Num início, vieram as agências econômicas para ir adubando o terreno. Fitch desqualificou a Venezuela; Moody’s falou de colapso econômico; The Economist pressagiou o “fim da festa”; Bank of America e Merrill Lynch preferiram denominar o momento como “primavera venezuelana”. Depois, chegaram as vozes autorizadas. Primeiro foi a vez do vice-presidente Biden, com intenções de seguir construindo a matriz dominante da guerra civil com ingovernabilidade. Se somou à festa o secretário de Estado Kerry no tom intervencionista ameaçando estabelecer sanções econômicas via OEA, apesar de Insulza (seu secretário) deixar claro que não se pode apelar a esta opção porque “o caso venezuelano não põe em risco a democracia nem a segurança do continente americano”. O último, por enquanto, é Kelly, o chefe do Comando Sul do exército dos Estados Unidos, que se atreve, sem complexos e com descaramento, a continuar na senda do derrocamento afirmando, ante o Comitê de Assuntos Armados do Senado, que o país caribenho “vai se precipitar rumo à catástrofe econômica”, forçando ademais o rumor pretendido de “divisão no seio das forças armadas venezuelanas”.

A transição geopolítica rumo a um mundo de muitos blocos econômicos incomoda muitíssimo a maior potência militar do mundo. Em 2014, os Estados Unidos pretendem recuperar, aconteça o que acontecer e na máxima velocidade possível, sua hegemonia unipolar no campo econômico. Para isso estão acelerando sua guerra econômica contra os países emergentes mediante expectativas falsas de estagnação; intentando atacar a China com campanha de marketing econômico contra ela; provocando uma guerra na Ucrânia para roubar um aliado da Rússia; e agora, é a vez da Venezuela, sendo esta o grande inimigo político no seu próprio continente.

Com certeza o governo bolivariano terá cometido algum erro na gestão de tão complicada situação, mas que ninguém duvide de que a diplomacia dos Estados Unidos, em sua estratégia de dominação global, exige agora uma guerra local contra a Venezuela.

* Diretor do Centro Estratégico Latino-americano Geopolítico.

Tradução: Jadson Oliveira

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