terça-feira, 25 de março de 2014

AMÉRICA LATINA: PODER E CONTRAPODER



"É que não se entende que o continente latino-americano mudou”
“Nos países em que ainda está vigente, o neoliberalismo não para de exibir rotundos fracassos, mas, no entanto, inclusive nos países em que foi derrotado politicamente, não o foi nos planos ideológico e cultural. Ali permanece atuante, vigoroso, incisivo”, diz Dênis de Moraes.

“Sem dúvida que o que acontece na Venezuela diz respeito à América Latina, e isso soube ler muito rapidamente o Brasil, o entendeu Lula e depois o entendeu Dilma Rousseff. Aos Estados Unidos o que interessa é controlar os recursos, o petróleo, o gás, e também a biodiversidade, e aí a Amazônia é um elemento central. E a Venezuela é uma peça chave porque implica petróleo, mas também é uma porta para a Amazônia e recursos vitais como a água”, diz Juan Carlos Monedero.

Por Sandra Russo (jornalista argentina), no jornal Página/12, de 08/03/2014

Há uma semana, numa entrevista que fiz no meu programa de rádio Deixa-me pensar, o estudioso brasileiro Dênis de Moraes ampliava um conceito que, a rigor, eu havia lido numa entrevista publicada neste diário, assinada por Natalia Aruguete. Era que no que concerne à região, o neoliberalismo foi derrotado na década passada no aspecto político, mas não no cultural. Moraes é autor, junto com Ignacio Ramonet e Pascual Serrano, dum livro publicado pela editora Biblos, Meios (de comunicação), poder e contrapoder, que compila ensaios dos três. Me interessou essa distinção que o acadêmico brasileiro formulava porque nem sempre se tem presente que, entre outras, a noção de política que persiste no imaginário social insuflada pelos poderes econômicos é aquela que “manchava” nos anos 90. E, por outro lado, é uma distinção que os próprios meios de comunicação hegemônicos ocultam, para ocultar a incidência de sua própria hegemonia cultural. “Nos países em que ainda está vigente, o neoliberalismo não para de exibir rotundos fracassos, mas, no entanto, inclusive nos países em que foi derrotado politicamente, não o foi nos planos ideológico e cultural. Ali permanece atuante, vigoroso, incisivo”, diz Moraes. Desta ideia se depreende que a política em si mesma – a política que se autodetermina, a que tem representação popular – é na prática e em mais de um sentido um contrapoder que, no cultural, não conseguiu derrotar o conjunto hegemônico de ideias que, esparramadas no sentido comum por enormes dispositivos de difusão, se fundem nas subjetividades de milhões de pessoas.

Os três autores desse livro pertencem a uma corrente de intelectuais e acadêmicos latino-americanos e europeus que veem tanto a crise global, como a europeia e a que começa a cercar a América Latina num sentido muito distinto do que flui sem parar a partir dos meios hegemônicos, e esses ensaios, precisamente, permitem entender por que há discursos e ideias que continuam sendo varridos para debaixo do tapete midiático. Outro nome forte dessa corrente de pensamento é o espanhol Juan Carlos Monedero, professor de Ciência Política na Universidade Complutense. Foi assessor do governo venezuelano de 2005 até 2010, mas nos últimos tempos Monedero está se ocupando da crise espanhola, um sintoma particular da crise europeia e global. Seu último livro, apresentado em fevereiro, se chama Curso urgente de política para gente decente. De que se trata, ele o explica: “Nos estão dizendo que não busquemos alternativas, porque as alternativas vão ser piores. Nos estão dizendo que não devemos tocar em nada, porque vamos estropiar. Nos estão dizendo que não cavemos para buscar outro tipo de soluções, porque vamos romper as que eles nos dão. Tudo isso constrói um fetiche que nos deixa sem vontade. Necessitamos dum espelho que nos ilumine, ângulos aos quais não estamos acostumados. A única possibilidade de superar este inferno, esta incerteza, é nos atrever a voltar a tomar as rédeas das metas coletivas. E isso se chama política”.

Monedero aí fala a leitores espanhóis, mas o que diz se pode ler também deste lado do mar, no que se refere à acepção  da política. No primeiro aniversário da morte do presidente Hugo Chávez, nesta semana, numa entrevista realizada também para o Deixa-me pensar, Monedero define Chávez como o homem que legou a esta região “aprender a se respeitar, a se autogovernar, e a perder o medo de ter sido considerada pelos Estados Unidos como seu quintal. O presidente Chávez ensinou a América Latina a tratar o presidente dos Estados Unidos por você. Foi recuperar algo perdido há 500 anos”.

Sobre a crise que castiga a Venezuela nestas semanas, diz que ainda que haja demandas estruturais e derivadas do próprio modelo chavista que é necessário escutar, não resta dúvida de que essas demandas estão sendo usadas pelos Estados Unidos para voltar a se apossar da região porque ainda não admitem que ela não seja sua. O que acontece na Venezuela “é um sinal claro de que o que se pôs em marcha com Chávez foi um sinal muito poderoso, porque continua tendo efeitos, e que se concentre tanto ódio e tantos esforços para derrocar o governo constitucional indica que a Venezuela continua sendo um farol que ilumina o resto da região. E por isso essa concentração de esforços nessa suposição, a qual, por outro lado, é falsa, essa crença de que se cai a Venezuela em seguida cairão pelo efeito dominó outros governos latino-americanos. É que não se entende que o continente latino-americano mudou”.

Monedero afirma que a desestabilização colocada em marcha na Venezuela tem como pano de fundo o interesse norte-americano nos recursos naturais e a posição geopolítica da qual alguns governos populares ou populistas da região privaram os Estados Unidos. “Sem dúvida que o que acontece na Venezuela diz respeito à região, e isso soube ler muito rapidamente o Brasil, o entendeu Lula e depois o entendeu Dilma Rousseff. Aos Estados Unidos o que interessa é controlar os recursos, o petróleo, o gás, e também a biodiversidade, e aí a Amazônia é um elemento central. E a Venezuela é uma peça chave porque implica petróleo, mas também é uma porta para a Amazônia e recursos vitais como a água. Desde anos se sabe que querem essa porta, é uma peça de sua própria geopolítica. Hugo Chávez foi quem freou esses planos que já estavam muito bem desenhados. Se se olham textos como o de Zbigniew Brzezinki, o grande assessor da política exterior norte-americana, em seu livro El gran tablero mundial (O grande tabuleiro mundial), ele nem sequer considerava a América Latina como algo exterior aos Estados Unidos em matéria geopolítica. Viam a América Latina como incorporada aos interesses norte-americanos.”

Tradução: Jadson Oliveira

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