sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

VENEZUELA: A GUERRA DA (DES) INFORMAÇÃO

(Foto: Carta Maior)

Os venezuelanos já têm experiência de quanto o manejo e a manipulação da informação faz parte do desenvolvimento de conflitos sociais 

Por Manuel E. Gándara Carballido (*) - reproduzido do portal Carta Maior, de 19/02/2014

Nós, venezuelanos, assistimos a um novo ciclo de fatos violentos e, mais uma vez, se faz necessário um talento crítico que permita avaliar a situação sem cair em leituras interessadamente distorcidas.

Na Venezuela, temos experiência de quanto o manejo (e a manipulação) da informação faz parte do desenvolvimento dos conflitos e das confrontações sociais.

Neste novo episódio, assistimos a bloqueios e auto-bloqueios informativos por parte de alguns meios de comunicação. Diante disso, muitas pessoas recorrem às redes sociais para saber o que está acontecendo. Nelas, encontram muitas fotos, vídeos e denúncias apresentadas como se fossem registros do que está acontecendo nestes dias no país quando, na verdade, pertencem a outros países e a outros momentos históricos. Assim, é preciso suspeitar da informação que nos chega sobre os acontecimentos. É necessário avaliá-la e contrastá-la antes de tomá-la como verdadeira.

Segundo declarações oficiais, divulgadas pela Procuradora Geral da República, Luisa Ortega Díaz, os acontecimentos deixaram até o dia 14 de fevereiro um saldo de 3 pessoas mortas, 66 feridas e 69 presas. Os três homicídios ocorreram na cidade de Caracas, onde perderam a vida os cidadãos Juan Montoya, membro do coletivo José Leonardo Pirela, da comunidade 23 de janeiro (que apoiava o governo de Maduro), Bassil Dacosta, estudante da Universidade Alejandro Humboldt (que participava dos protestos), e Roberto José Redman Orozco, todos vítimas de disparos de armas de fogo.

Em relação aos feridos, também segundo a Procuradoria Geral, entidade responsável pela investigação, 9 foram em Caracas, 41 em Aragua, 11 de Merida, 4 em Lara e 1 em Táchira. Dos 66 feridos, 17 são funcionários policiais e militares. Além disso, a sede do Ministério Público, Parque Carabobo e algumas instalações do Metrô de Caracas sofreram danos em suas instalações, produto da ação violenta ocorrida.

Em um processo de aprofundamento democrático é fundamental o exercício do direito de protesto, da manifestação pacífica, convertendo a rua em um espaço de construção política, de demandas; mas dificilmente se pode aceitar que o exercício desse direito seja instrumentalizado em função de outras agendas que pouco tem a ver com uma democracia participativa. Assim, boa parte do desconcerto que se vê nestes dias tem a ver com as mensagens cruzadas sobre as supostas motivações dos protestos. Entre as demandas que aparecem nos protestos da oposição se encontram a exigência de maior segurança (a principal necessidade sentida por todos os setores da população venezuelana), a necessidade de atender ao problema do desabastecimento, e a exigência de respeito às universidades. Mas, ao mesmo tempo, circulam mensagens que pedem “a saída” do governo de Nicolas Maduro como razão das convocatórias das marchas e protestos.

Neste contexto, o governo anunciou a expulsão de três funcionários da Embaixada dos Estados Unidos, assinalando que os mesmos vinham participando da criação de organizações de jovens destinadas a promover ações violentas. O chanceler Elías Jaua manifestou que tais ações estavam sendo promovidas com o pretexto da entrega de vistos nas universidades do país. Os Estados Unidos responderam, chamando de falsas as acusações de ingerência formuladas pelo governo venezuelano.

Por outro lado, creio que não podemos deixar de lado a disputa pela liderança no interior da própria oposição venezuelana. Leopoldo López e María Corina Machado aparecem como as principais figuras que animam este novo ciclo de protestos, e pedem a radicalização das ações, frente a outros líderes opositores (entre os quais se encontra o próprio Henrique Capriles Radonski, ex-candidato presidencial e até agora apresentando como principal líder opositor frente ao chavismo), que são apresentados ultimamente como “fracos” diante da realidade do país.

Seja como for, o que não se pode permitir numa sociedade que pretende aprofundar seu caráter democrático e inclusivo é o estabelecimento da impunidade frente a fatos como os ocorridos nos últimos dias. É preciso abrir processos de investigação que permitam punir os responsáveis por esses fatos, determinar o uso excessivo e injustificado da força (incluindo aí a força letal) por parte de funcionários dos órgãos de segurança do Estado. Além disso, é preciso investigar os atos delituosos cometidos no marco dos protestos e punir seus autores intelectuais e materiais. Esse é um dos desafios que nós, venezuelanos, temos pela frente: superar a leitura ingênua dos meios de comunicação e do que circula nas redes sociais é outro.

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(*) Ativista de direitos humanos, dedicado à educação popular em direitos humanos na Venezuela, onde acompanha processos de formação e organização com comunidades de base e organizações sociais. É membro da Rede de Apoio pela Justiça e pela Paz, na Venezuela, e do Instituto Joaquín Herrera Flores. Doutor em Direitos Humanos, professor de Teoria tradicional e teoria crítica dos direitos humanos”, no Programa Oficial de Máster em “Direitos Humanos, Interculturalidade e Desenvolvimento”, da Universidade Pablo de Olavide, de Sevilha (Espanha).
 
Tradução: Louisa Antônia León

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