sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

ROLEZINHO: “O ESTADO TEM ÓDIO DO POBRE E DO NEGRO”




Durante o mais recente sarau, o público ouve poetas, rappers e repentistas que se inscrevem livremente (Foto: Padu Palmério/Viomundo)
Sérgio Vaz, o poeta da Cooperifa, cooperativa cultural da periferia de São Paulo que este ano completa 13 anos:

“Às vezes as pessoas acham que a gente mora numa grande senzala. Parece que somos incapazes de falar sobre literatura, sobre política, sobre economia. Nós parecemos uma ilha de Lost! Eles [da elite brasileira] estão surpresos: Quanto pobre! Quanto preto! Não somos brasileiros, somos palestinos. Temos de criar aquela OLP, Organização para a Libertação da Periferia”.

Rolezinho:

“São os jovens que não tem educação, são os jovens que não tem saúde, somos nós os pretos — como diria Castro Alves, somos nós, os teus cães. A sociedade colocou embaixo do tapete, mas não cabe todo mundo. O Estado tem ódio do pobre e do negro. Eu não sei de onde vem tanto ódio!”


Por Luiz Carlos Azenha, no blog Viomundo (o que você não vê na mídia), de 16/01/2014, com o título “Sérgio Vaz: No rolezinho, jovens devolvem “educação de qualidade”; periferia vive a sua Primavera de Praga”.

Há algo novo no ar. Sabemos disso com absoluta certeza desde as grandes manifestações de junho de 2013.
É possível sentir que o tremor subsiste neste bar que é sede do Sarau da Cooperifa, nas proximidades da avenida M’Boi Mirim, na Zona Sul de São Paulo.

Para quem não tem intimidade com a capital paulista, há imensos dormitórios de trabalhadores na megalópole: estamos num deles. É o que se chamaria, numa sociedade industrial, de bairro eminentemente proletário. Mas, com a pronunciada ascensão social registrada a partir do início da era Lula, em 2002, as coisas já não são tão simples de descrever. Há gente de classe média no bairro. Da nova classe média. Há remediados. Pobres. E, especialmente nas moradias precárias das favelas, há também miseráveis.

As mesmas inquietações que a classe média branca dos Jardins (SP) ou do Leblon (Rio) ou da Savassi (BH) sente ao ver seu espaço invadido pelos “de fora” também existe aqui: há um rearranjo social acumulado com uma explosão de novas demandas e possibilidades. Aqui o Brasil está em movimento veloz. Tem fome de novidades e mudanças. Um despertar ajudado pelas redes sociais que driblam o desprezo dedicado pela grande mídia aos pobres e negros.

O sarau, organizado pelo poeta Sérgio Vaz, está completando 13 anos de existência. Enquanto os poetas apresentam seus versos, dá para constatar a diversidade nas mesas. Há senhoras da terceira idade , crianças brincando de videogame no celular do pai ou no ipad da mãe, há vários casais e jovens, muitos jovens.

Por mais que haja distinção de origem e classe dentre os que frequentam o sarau esta noite, a experiência comum dispensa explicações elaboradas sobre a violência policial: é algo cotidiano, sofrido ou testemunhado. O racismo, a discriminação e o preconceito deixaram feridas abertas em todos os que estão aqui. É a humilhação compartilhada, nas ruas e repartições, muitas vezes ao longo de toda uma vida.

Clicar aqui para ler muito mais no Viomundo: Continua o texto do Azenha, tem mais declarações do Sérgio Vaz, fotos e vídeos. Um ótimo material para ajudar a entender melhor esse mundo da periferia das grandes cidades (no caso, São Paulo), ainda mais agora que "essa gente estranha" está aparecendo através dos chamados rolezinhos.

Um comentário:

Caustaco C disse...

Acredito que o preconceito não seja do estado, mas de algumas camadas sociais. Porém existem outros fatores envolvidos

http://www.orbenon.blogspot.com.br/2014/01/a-polemica-do-rolezinhos.html