sábado, 4 de janeiro de 2014

QUINTANA: “A MENTIRA É UMA VERDADE QUE SE ESQUECEU DE ACONTECER”



Tarsila do Amaral - O Mamoeiro
Mais poeminhos do Mario Quintana (parte 3/final)

ANOITECER

Da chaminé da tua casa
Uma por uma
Vão brotando as estrelinhas...

          De ACI (A Cor do Invisível – 1989)

O POEMA

O poema é um objeto súbito.
Os outros objetos já existiam...

          De CH (Caderno H – 1973)


APONTAMENTO PARA UM POEMA

As águas riem como raparigas
à sombra verde-azul das samambaias.

          De CH

PASSEIO

Oh! Não há nada como um pé depois do outro...

          De SF (Sapato Florido – 1948)

Mario Quintana (1906-1994)
BAUDELAIRE

Baudelaire, fervoroso adepto e puxa-saco de Satã,
Meu Deus! Era demais até...
Mas Deus esperou pacientemente que ele morresse
E, para vingar-se dele de uma vez por todas,
O mandou para o Reino dos Céus!

          De VSD (Velório Sem Defundo – 1990)

ARTE POÉTICA

Esses poetas que tudo dizem
Nada conseguem dizer:
Estão fazendo apenas relatórios...

          De VSD

PAUSA

Às vezes, nos dias calmos, apenas se nota uma leve ondulação na relva: são os cavalos do vento que estão pastando.
          De Poemas para a Infância

QUE HAVERÁ NO CÉU?

Se não houver cadeiras de balanço no Céu... que será da tia Élida, que foi para o Céu?

          De SF
CLOPT! CLOPT!

É a ruazinha que tosse, tosse, engasgada com o homem da muleta.

          De SF

UMA VACA

Sim, uma vaca — uma abençoada vaca — muge...
O seu mugido é um rio de veludo morno.
          De CH


O DESINFELIZ 

Sua vida era um tango argentino.
          De SF

O PRINCÍPIO

Se antes era o Nada, como já poderia haver Alguém para tirar dele o mundo?

          De CH

O OUTRO MUNDO

Por favor, deixa o Outro Mundo em paz! O mistério está aqui.
          De CH

POEMA

Oh! aquele menininho que dizia
"Fessora, eu posso ir lá fora?"
mas apenas ficava um momento
bebendo o vento azul...
Agora não preciso pedir licença a ninguém.
Mesmo porque não existe paisagem lá fora:
somente cimento.
O vento não mais me fareja a face como um cão amigo...
Mas o azul irreversível persiste em meus olhos.

          De AVH (A Vaca e o Hipogrifo – 1977)

Tarsila do Amaral - Natureza Morta com Relógios

FATALIDADE

Em todos os velórios há sempre uma senhora gorda que, em determinado momento, suspira e diz:
— Coitado! Descansou...
          De SF

UMA ESTATÍSTICA

As crianças,
sem um tiro aliás,
e isso
é que tornava o caso ainda mais espantoso,
morriam mais do que índios nos filmes norte-americanos,
e quando a gente acaso perguntava, para se mostrar atenciosos
"Quantos filhos a senhora tem, comadre?"
A comadre respondia, com ternura:
"Eu tenho quatro filhos e nove anjinhos".

MENTIRA?

A mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer.

          De SF

PASSARINHO

Sempre me pareceu que um poema era algo assim como um passarinho engaiolado. E que, para apanhá-lo vivo, era preciso um meticuloso cuidado que nem todos têm. Poema não se pega a tiro. Nem a laço. Nem a grito. Não, o grito é o que mais o mata. É preciso esperá-lo com paciência e silenciosamente como um gato.

Ora, pensava eu tudo isso e o céu também, quando topo com uns versos de Raymond Queneau, que confirmam muito da minha cinegética transcendental. Eis por que aqui os traduzo, ou os adapto, e os adoto, sem data venia:

Meu Deus, que vontade me deu de escrever um poeminho...
Olha, agora mesmo vai passando um!
Pst pst pst
vem para cá para que eu te enfie
na fieira de meus outros poemas
vem cá para que eu te entube
nos comprimidos de minhas obras completas
vem cá para que eu te empoete
para que eu te enrime
para que eu te enritme
para que eu te enlire
para que eu te empégase
para que eu te enverse
para que eu te emprose
vem cá...
Vaca!
Escafedeu-se.
          De AVH
CALIGRAFIAS

Delícia de olhar no céu os v v v dos voos distanciando-se.

          De AVH

Tudo aí, inclusive os quadros de Tarsila do Amaral, vem do sítio Poesia.net , mantido na web por Carlos Machado (a primeira parte foi postada no dia 22 e a segunda dia 25/dezembro).

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