quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

AMÉRICA LATINA: EM BUSCA DO ‘BEM-VIVER’ COMO ALTERNATIVA PÓS-CAPITALISTA



(Ilustração: slideshare.net)
“Desde logo todas e todos estamos atravessados por lógicas do capitalismo e da modernidade, o que nos dificulta a visualização dum horizonte pós-capitalista”.


“...na medida em que avança a redistribuição se vai criando uma classe média que já não tem o empurrão dos setores subalternos, e que continua buscando ascender socialmente, algo muito legítimo mas que deve ir acompanhado duma formação política e ideológica...”


“Temos conteúdos suficientes para construir o socialismo comunitário do ‘Bem-Viver’, o Socialismo do Século 21 ou o Bem Comum da Humanidade proposto por François Houtart”.


Por Katu Arkonada (foto - pesquisador social basco, militante internacionalista), no site Rebelión, com o título “Reflexões a partir dum diálogo com François Houtart - Tensões e transições nos processos de mudança”, de 11/11/2013 (o título acima é deste blog)

"O desafio fundamental para a Bolívia, a Venezuela e o Equador é definir a transição sob um novo paradigma pós-capitalista"
François Houtart

Recentemente publicamos um diálogo com François Houtart em forma de entrevista [1]. Vou abordar neste breve espaço três debates que são apresentados ao longo do diálogo e que penso se entrelaçam e é necessário dissecar e continuar aprofundando sobre eles para seguir pensando nossos processos de mudança a partir da esquerda. Em primeiro lugar teríamos a situação desses processos e os limites que encontram em seu desenvolvimento, as propostas políticas que podem  gerar um horizonte de mudança e transformação nesses processos, e as contradições que tem a esquerda na hora de gerar um discurso nitidamente anti-imperialista, anti-colonialista e anti-capitalista.

Limites dos processos

Parece evidente que os processos se encontram num ponto de inflexão. Neste momento histórico se concatenam acontecimentos que necessitam dum olhar pausado e reflexivo. A morte do Comandante Chávez parece ter tornado mais lento o ritmo político do continente e dos processos de integração regional. Integração que sofre ademais - nada é casual - a investida duma ferramenta chamada Aliança do Pacífico, desenhada para provocar rupturas e lentidão nos ritmos e intensidades dessa integração.


E neste momento histórico, nos encontramos com vários limites dos processos, tanto internos como externos.


A nível interno, um limite importante são os atuais modelos de desenvolvimento herdados dum Norte capitalista e depredador do Sul, de seus povos, pessoas e natureza. Temos modelos de desenvolvimento extrativista porque nunca nos deixaram construir outro modelo, o capitalismo não podia gerar a taxa de lucro e benefício se a correlação de forças mudava e o Sul recuperava sua dignidade e soberania. Não é casualidade a atual crise da social-democracia e dos Estados do bem-estar do Norte agora que o Sul põe em marcha processos de mudança e recupera o controle sobre seus recursos naturais. Diante disso, a social-democracia europeia, e uma latino-americana em construção, só nos propõem gerenciar o capitalismo duma maneira mais amável, colocar nele rosto humano. Mas isso nos deixa a tensão de não termos modelos alternativos nos quais nos fixar para construir um Estado e uma sociedade que vão mais além do que já conhecemos, um Estado que se insira numa sociedade pós-capitalista, que vá muito mais além dos atuais processos pós-neoliberais.
François Houtart, sociólogo e sacerdote belga (Foto: Internet)
François Houtart se perguntava se visto que os processos contam com um alto nível de apoio, da opinião pública, do povo, estariam prontos para entrar num novo modelo de desenvolvimento. Desde logo todas e todos estamos atravessados por lógicas do capitalismo e da modernidade, o que nos dificulta a visualização dum horizonte pós-capitalista. Mas ademais temos que ser honestos com a história dos nossos povos. Quinhentos anos de colonialismo e 20 de neoliberalismo deixaram dívidas tão grandes que não se pode negar a esses povos o direito ao desenvolvimento. A tarefa é conjugar o direito ao desenvolvimento com os direitos da Mãe Terra, não entendida como uma natureza estática a quem damos direitos, e sim como o conjunto de seres vivos que interagimos num cenário de biodiversidade.


A este limite principal, se soma que os processos entram numa etapa de refluxo, onde na medida em que avança a redistribuição se vai criando uma classe média que já não tem o empurrão dos setores subalternos, e que continua buscando ascender socialmente, algo muito legítimo mas que deve ir acompanhado duma formação política e ideológica para que não se sintam tentados em abandonar o processo ou se deixar enganar por outras alternativas, ou melhor dito, gestores burocratas disfarçados de alternativa.


E ainda se não fossem poucos os limites internos, a partida se joga no campo dum sistema-mundo capitalista que vê com receio qualquer tentativa de mudar as regras do jogo. Basta observar a crise econômica sem precedentes que sofre a Venezuela e o desabastecimento de produtos básicos importados provocados pelas elites políticas e econômicas.

O ‘Bem-Viver’ (Vivir Bien ou Buen Vivir) como horizonte sustentado nos pilares do anti-imperialismo, anti-colonialismo e anti-capitalismo

É neste cenário de construção de alternativas que devemos desenvolver esse conceito em construção e em disputa chamado ‘Bem-Viver’. Não importa tanto o nome, mas sim os conteúdos, e está claro que esse equilíbrio entre o direito ao desenvolvimento e os direitos da Mãe Terra, o impulso ao comunitário, especialmente no interior do modelo econômico, a descolonização e a despatriarcalização, a interculturalidade e o controle social são elementos fundamentais.


Mas este projeto não estaria totalmente completo se nos esquecemos de bases que compuseram o ideário de projetos socialistas no passado e que continuam mais vigentes do que nunca. Talvez nossas social-democracias tenham se esquecido dessas bases que não se encaixam tanto nos esquemas da democracia liberal e dos discursos ocidentais dos direitos humanos, mas o anti-imperialismo, anti-colonialismo e anti-capitalismo como algo mais que um discurso retórico, e sim como uma posição política a defender com esperança, são as únicas bases sobre as quais podemos construir um projeto político nacional-popular e internacionalista, que olhe para a América Latina e para o Sul em geral.


Porque o imperialismo continua agredindo a América Latina com golpes de Estado, bases militares, espionagem, tratados comerciais, e sequestros aéreos de presidentes; porque o colonialismo do século 21 segue mantendo prisões desumanas no território cubano, ocupando Porto Rico, as Malvinas ou negando à Bolívia o acesso soberano ao mar; e porque o capitalismo só traz o despojo de nossas sociedades, a miséria e a competitividade sob as leis desse eufemismo chamado mercado, atrás do qual se escondem as elites econômicas nacionais e transnacionais.


Temos conteúdos suficientes para construir o socialismo comunitário do ‘Bem-Viver’, o Socialismo do Século 21 ou o Bem Comum da Humanidade proposto por François Houtart. Vamos perdendo alguns arquitetos desses nossos processos, mas deixam o caminho sinalizado, apesar das sombras, tensões e contradições que vivemos e sofremos a cada dia. Provavelmente só nos falte audácia, mais audácia como reclamava Samir Amin, para a construção coletiva desses processos sobre bases sólidas. Pode parecer que vamos devagar, mas é porque vamos muito longe.

Nota:
[1] http://www.rebelion.org/noticia.php?id=176401 

Rebelión publicou este artigo com a permissão do autor mediante uma licença de Creative Commons, respeitando sua liberdade de publicá-lo em outras fontes.

A entrevista com François Houtart a que se refere o autor do artigo foi publicada aqui no Evidentemente, dividida em duas partes, a segunda em espanhol. Quem quiser ler ou reler, clique aqui e aqui.


Tradução: Jadson Oliveira

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